Nossa Razão – Capítulo 27

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Capítulo 27

Nic

Foram mais de quarenta horas de viagem, entre o embarque em Florianópolis, e a chegada a Brisbane, contando, é claro, com as duas escalas, em Doha e Adelaide. E em todo aquele tempo, eu me perguntei por que Karla não falou o que quer que fosse, que parecia estar entalado em sua garganta, quando apareceu no aeroporto para se despedir. Aliás, foi uma surpresa e tanto, considerando que ela desprezou as outras duas oportunidades de fazer isso. Bem, ela fez o que pode para me evitar naquelas duas semanas. Não que eu tenha agido muito diferente.

A esperança de que me pediria para ficar era muito viva! E eu teria largado tudo, desistido de tudo, e a levado dali para qualquer lugar onde não a deixaria nunca mais escapar.

Mas ao invés disso ela novamente se fechou. Mais uma vez recuou, fugiu, se acovardou. Eu queria muito entender o motivo. Não dava para acreditar que ainda fosse aquela merda de não querer se envolver com um branco. Ela gostava de mim. Eu sentia isso. Ela me desejava. Talvez não fosse amor. Mas se ela me desse uma chance…

Consegui dormir um pouco, tão logo me instalei no apartamento de três quartos que dividiria com outros dois brasileiros. A dica de Sofia, sobre uma página no Facebook, foi providencial. “Brasileiros em Brisbane”. Diariamente surgiam ofertas de acomodações para estudantes.

O prédio ficava em Spring Hill, um lugar que de certa forma fazia eu me sentir em casa, tal a quantidade de brasileiros ali instalados. Eu teria que caminhar apenas quatro quarteirões para chegar até South Bank, onde fica o campus da escola na qual passarei boa parte dos próximos meses, me atualizando na área de Negócios. O curso me dará maior habilidade para gerenciar e liderar equipes. Talvez, se sentir que dou conta, eu possa encaixar um curso de inglês, voltado para a conversação.

Sabia que tinha muita coisa para conhecer, que na verdade era o objetivo principal quando aquela conversa com Sofia começou. Mas queria me situar primeiro, entender o funcionamento de tudo. Já sei que posso ir a vários lugares legais aqui perto, alugando uma bicicleta. Não que o transporte seja um problema na região, mas acho que consigo aproveitar melhor a paisagem e me exercitar ao mesmo tempo, se me render a bike. Tinha que contar isso para o Gael.

— E aí, muito grogue ainda da viagem? — Felipe questionou assim que deixei meu quarto.

Ele era um dos meus companheiros de apartamento, e estava ali há quase um ano, cursando na mesma escola em que estou matriculado, alguma coisa na área de Artes Visuais.

— Um pouco — respondi sonolento.

— Sabe o que é bom pra isso? Festa!

— Tá bom! — Dei risada.

Pelo pouco papo que rolou quando cheguei, já deu para perceber que eles gostam de uma bagunça, e me perguntava se ela costumava acontecer ali no apartamento.

Tinha ciência de que teria que me adaptar a coisas do tipo. Morar com pessoas desconhecidas não era algo que me agradasse, mas ou fazia isso ou arcava sozinho com o aluguel. Como não queria desfalcar minhas economias, acabei me convencendo de que aguentaria seis meses. Tenho um apartamento para mobiliar quando voltar para o Brasil. Outra decisão que tomei no início deste ano: morar sozinho.

A entrega do imóvel em dezembro, e o desenrolar do financiamento poucos dias antes de viajar foram extremamente oportunos. Dona Renata provavelmente vai chiar, temerosa, por ver um filho sair debaixo de suas asas. Entretanto, não é algo que eu esteja disposto a abrir mão: Minha independência definitiva.

Peguei algumas dicas com Felipe e saí para fazer algo que não estava acostumado: compras. Creio que farei a maior parte das refeições fora, mas precisava ter à mão alguns itens de primeira necessidade, entre eles, cerveja.

***

Eu me organizei da melhor forma possível, conciliando os meus horários com os do Brasil, mais especificamente com os da transportadora. Isso não quer dizer que o ritmo estivesse sendo tranquilo. A demora para me adaptar ao fuso, bem como ao ritmo dos meus colegas de apartamento, me deixava um tanto irritado.

Era difícil me concentrar quando Felipe e Gabriel estavam em casa e resolviam chamar alguns amigos para uma farra. Claro que isso acontecia no período da noite, manhã lá no Brasil, quando eu normalmente precisava estar conectado com a empresa.

Milena havia me chamado em uma sexta-feira, logo que voltei da rua. Era pouco mais de sete horas lá e minha irmã já estava trabalhando, o que significava que as coisas estavam aceleradas.

Tomei um banho para me livrar do suor de um calor de quase trinta graus — atípico para o final de abril — e me fechei no quarto. Meus colegas já nem me convidavam mais para participar das bagunças que promoviam.

— Fala maninha! — disse assim que ela atendeu à chamada.

— Oi! Rola um vídeo chamada rapidinho para as meninas te verem?

— Tô cobrando por segundo a exposição da minha figura. — Brinquei e ela bufou do outro lado.

— Estamos morrendo de saudades dessa sua modéstia.

— Já retorno. Peraí.

Quando Milena atendeu novamente, seu sorriso bobo, brilhando na tela, apertou meu coração. Sentia falta da minha irmã. Sentia falta de casa. E ainda havia três meses pela frente.

— Tô cronometrando aqui. — Zoei, enquanto ela se ajeitava para que todas pudessem me ver.

— Vai ser rapidinho, porque tenho trabalho pra você.

As meninas se aproximaram, cumprimentando-me todas juntas. Dei falta de uma. Aliás, a falta dela era algo difícil de administrar.

Eu queria me manter neutro, dar um “gelo” em Karla, na esperança de que isso a fizesse repensar os últimos acontecimentos entre nós. E acho que consegui até aqui, afinal, nossas conversas eram sucintas e diziam respeito somente ao trabalho.

Mas hoje, por algum motivo, eu precisava senti-la mais próxima. Precisava de um sorriso seu, de um olhar cheio de afeto, de algo que me dissesse que eu ainda tinha um espaço na sua vida. Precisava daquela conexão que a gente tinha e que me deixava tão completo.

Rendi-me àquele desejo, trazendo descontração ao perguntar por ela.

— Tá faltando alguém aí, não tá? 

— Karla está ao telefone.

Milena virou a tela, e vi a inspiração para os meus sonhos acenar rapidamente.

Lembrei-me de sua aparição no aeroporto, seu choro, seu pedido. E aquilo levou o restante da minha firmeza embora.

— Fala pra ela que sessão particular custa mais caro.

— Que barba é essa? — Alice interrompeu, olhando como quem não aprovava muito a mudança.

— Pra dar um ar mais sério. — Alisei os pelos que ainda estavam bem curtos, mas já começavam a me irritar. Na verdade, era só um experimento, do qual eu certamente desistiria.

— Hum, não deu muito certo, não — Indicou, fazendo uma careta.

— Valeu!

Lívia acenou de longe, do seu jeito tímido e reservado de ser. Elisa, normalmente mais expansiva, se mostrou estranhamente calada. Karla ainda não tinha dado o ar da graça.

— Ok, gente. Uma despedida geral porque preciso dar trabalho pra esse gato.

As três acataram a observação de minha irmã e logo ela estava se movendo, até eu entender qual o seu destino.

— Já tomou conta da minha sala? — perguntei, vendo-a se acomodar atrás da minha mesa.

— Foi pra Portugal, perdeu o lugar! — Debochou. — Brincadeirinha. Assuntos restritos a nós, então aqui ficamos mais tranquilos.

— Manda! — Pedi, me preparando para o que viria, que não me cheirava coisa boa.

Milena finalmente estabilizou o celular e Karla surgiu no meu campo de visão. Estava linda pra caralho! Como sempre, é claro, mas talvez a saudade exaltasse a beleza que eu via.

— Bom dia, Ka! — falei manso, lembrando-me do seu pedido para que eu não a esquecesse. Totalmente impossível! Ela estava todos os dias nos meus sonhos.

— Boa noite, Nic! — Sorriu de leve, quase constrangida.

— Ok, deixo vocês conversarem a sós depois, mas agora, temos coisas a resolver. — Milena, nada sutil, cortou nosso embalo. O meu, pelo menos.

— Ah, você deixa? — Questionei, irônico, e ela me mostrou a língua.

— Ela tá toda “patroinha”. — Karla ressaltou, um pouco mais à vontade, ao lado da amiga. — É bom voltar logo ou ela vai tomar seu lugar.

Não sei se era uma simples observação, ou se o seu desejo estava inserido naquele conselho. De qualquer forma, não resisti em cutucá-la.

— Alguém quer que eu volte logo?

Ela disfarçou, olhando para um papel em suas mãos.

— Todos queremos.

— Cagona! — Milena tossiu, me fazendo rir.  — Então. Três coisas, maninho. Primeiro: Estela quer fazer modificações em algumas linhas, alterando o ponto de coleta. Isso aumenta o percurso e consequentemente o tempo, refletindo no horário dos motoristas e ajudantes. O papai pediu pra ver com você, já que fez as planilhas de custos desses contratos.

— Tá, vejo aqui e falo com ela.

— Segundo: — Ela respirou fundo. — Elisa está grávida.

— Que maravilha! — Bufei, lembrando-me dela calada agora há pouco. Havia um motivo. — Pra quando é o bebê?

— Novembro.

— Nem sabia que ela estava namorando.

— E precisa? — Milena retrucou. — É de um ficante.

— Puta merda! O cara vai assumir?

— Diz que sim. Ela está bem, e falou que vai continuar trabalhando até o último minuto. Mas achei que você deveria saber. E que a gente pode ir pensando em alguém para quando ela sair de licença maternidade.

— Com certeza. E certifique-se já de que uma das meninas saiba fazer o trabalho dela, para quando ela precisar faltar.

— Posso tentar a Lívia? — sugeriu rapidamente. — Ela está indo bem.

— O que acha, Karla?

Eu tinha me acostumado a não tomar decisões referentes ao departamento pessoal sem antes falar com ela. Karla estava sempre atenta aos detalhes da legislação.

— Sabe o que acontece se ela acumular tarefa — Advertiu rapidamente.

— É o que a gente tem por enquanto. Vamos estudando o que fica melhor pra frente.

— Ok! — Milena concluiu, e olhou para a amiga. — Sua vez.

— Fizemos os exames periódicos, Nic. E o senhor Roberto não passou no toxicológico. Acusou rebite[1].

— Ah, fala sério! O Roberto?

— Ele admitiu. Disse que está com problemas em casa, precisou fazer uns bicos, não estava dormindo direito.

— Porra! — Praguejei, quase sem acreditar. — É um dos nossos funcionários mais antigos. Um dos melhores.

— Ele ficou todo sem graça, pediu mil desculpas, disse que não vai acontecer novamente. Pediu por favor para não ser demitido.

Esfreguei o rosto, cansado. Tinha que ser justamente quando eu não estava lá?

— Não quero fazer isso — expliquei. —, mas ele não tem condições de continuar dirigindo.

— Podemos realocá-lo aqui dentro. — Karla sugeriu, tentando encontrar uma solução. — Posso ver com o Gael alguma coisa. A outra saída seria afastá-lo.

Sim, mas sabíamos que isso seria bem complicado.

— Vamos tentar a primeira ideia — falei, imaginando que ela e Gael se esforçariam para resolver a situação.

— Tá! Eu mantenho você informado.

— Mais alguma coisa? — resmunguei.

— Não.

— Notícia boa, nem pensar?

— A gente tá com saudade. — Milena falou mansinho, abrindo um sorriso sincero.

— Eu também!

Não sei se foi coincidência ou Karla fez de propósito, para fugir da conversa, pois pediu licença para atender uma ligação. Vi Milena acompanhar com os olhos sua saída da sala.

— Como ela tá? — Pedi de imediato. Eu evitava conversar com minha irmã sobre a nossa amiga. Não queria ter que esclarecer coisas que nem eu sabia.

— Quieta. Pensativa. Um tanto isolada.

Assenti em compreensão. Não tinha muito o que eu pudesse fazer. Não de longe. Não quando ela insistia em fugir de mim.

— Preciso voltar ao trabalho, Nic.

— Claro. Qualquer novidade, me chama.

— Fica bem!

— Você também!

Finalizei a ligação, pensando em outra a fazer.


[1] Droga derivada da anfetamina, é uma das substâncias ilegais mais comuns nas estradas do Brasil, pois promete tirar o sono e o cansaço dos motoristas.

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Espero que tenham gostado! ♥

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Os capítulos serão postados às sextas-feiras, podendo haver capítulo bônus na semana dependendo da interação de vocês.

Então chamem as amigas para curtir essa história!

Boa diversão e até a semana que vem! ♥

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