Nossa Razão – Capítulo 25

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Capítulo 25

Karla

Perdi a noção de quanto tempo eu estava naquela mesma página do livro.

Vários pensamentos disputavam espaço na minha cabeça, impedindo-me de me concentrar na história que eu já nem sabia sobre o que tratava. Talvez porque não fosse uma história de amor. Eu estava cheia delas. Cansada de vê-las somente na ficção. Por isso escolhi um suspense para me acompanhar naquelas férias. Só que para entender a trama, era preciso atenção, coisa rara na minha vida nos últimos dias.

Protegida pela aba do chapéu e pelos óculos de sol, desviei os olhos do livro, reparando nas pessoas que desfilavam, riam e conversavam à minha volta, aproveitando tudo o que o resort – um dos melhores de Salvador – oferecia. Duas delas eram minha mãe e minha tia, confortavelmente acomodadas em suas espreguiçadeiras à beira da piscina, logo ao meu lado. Eu “pescava” um comentário ou outro, que se misturava àquela bagunça toda na minha mente, e que se resumia a uma pessoa: Nic!

Sei que reagi mal na noite de Ano Novo. Meio que surtei, dando uma importância maior do que talvez deveria. Mas simplesmente reagi à vergonha que me invadiu diante do que vi em parte daquele vídeo. Diante da exposição a que me submeti. E pior, do fato de não me lembrar de nada daquilo.

Um gosto ruim tomou a minha boca, e dei um gole no drink não alcoólico do qual já não me lembrava o nome.

A lembrança de Nic dizendo que precisou se segurar, resolveu vir à tona.

Merda!

Eu me ofereci para ele! E não sei se foi somente o corpo, ou se também abri meu coração. Na verdade, nem sei o que era pior.

Independentemente do que fosse, sei que estraguei tudo. Minei a atração que existia entre nós, porque ela estava mais do que evidente, e afastei meu amigo. Sim, afastei. Não queria e não podia acreditar que o tivesse perdido para sempre, mesmo que suas palavras amargas e dolorosas sugerissem isso.

Nic tinha razão! Eu o machuquei. Fui dura e insensível, deixando que não só o constrangimento tomasse conta de mim, mas que experiências vividas constantemente em uma sociedade preconceituosa erguessem minhas defesas. E só me dei conta disso quando ele já tinha erguido as suas. E acho que nem podia criticá-lo. 

Há duas semanas eu não conversava com Nic. Até tentei, nos primeiros dias do ano, mas tudo o que consegui foram palavras frias e vazias. Duas semanas em que eu não construía novas lembranças ao seu lado, então tive que voltar para as antigas. E todas elas me levavam ao carinho que ele tinha comigo. À atenção e ao cuidado que ele dispensava a mim. Ao respeito a tudo o que eu era e queria.

Talvez agora fosse a minha vez de respeitar o tempo que acho que ele precisava para me perdoar. Porque tinha esperança de que isso aconteceria. Nic não era rancoroso.

— Karla!

— Hum?

Vi o tio Tobias parado ao meu lado, me olhando com cara de poucos amigos.

— Tá me ouvindo agora? — perguntou de um jeito debochado.

— Desculpe. Estava concentrada no livro — menti.

— Conta outra! — revidou, fazendo um aceno com a cabeça. — Agora levanta a bunda daí e vem comigo.

— Pra onde?

— Vem. Comigo — falou pausadamente e me perguntei o que eu tinha feito para que ele parecesse tão irritado.

Vi de canto de olho dona Alice e tia Jade assistirem à cena em silêncio.

Sorri para elas, de um jeito meio forçado, e segui meu tio até o bar da piscina, não muito longe de onde estávamos.

Ele indicou uma banqueta e esperou eu me acomodar, para então se sentar ao meu lado.

— Quer alguma coisa?

Neguei a oferta e ele pediu uma cerveja.

— É muito difícil para você sorrir vez ou outra e mostrar agradecimento por estar de férias com a sua família?

A reprimenda, dita em um tom de voz suave, fez todos os outros pensamentos evaporarem. Tio Tobias era extremamente gentil e brincalhão, mas isso não o impedia de ser duro quando necessário. E acho que aquilo cabia bem no momento.

— Desculpe.

— Você está se comportando como uma menina mimada, Karla, como se fosse uma obrigação estar aqui, em um lugar cheio de mordomia, só porque não tem seus amigos por perto.

— Não é nada disso, tio.

— O que é então?

O que eu poderia lhe dizer? Certamente nada que justificasse minha cara fechada.

— É aquele branquelo, não é?

Eu poderia negar até a morte, mas tenho certeza que o meu olhar surpreso, voando para o seu, atestava aquela sugestão sem que nenhuma palavra eu tivesse dito. Mas não era segredo para ninguém o quanto eu e Nic éramos apegados, então, achei que resumir a história, sem adentrar aos verdadeiros fatos, era a melhor saída.

— A gente discutiu e não deu tempo de se acertar antes da viagem.

— E isso é motivo para ficar como se o mundo tivesse acabado?

De certa forma tinha acabado. Ao menos uma parte dele. Ao menos para mim. Mas claro que não falei isso.

— Não.

— Ótimo. Então trate de ser um pouquinho mais sociável e simpática. Ou acha que os seus pais estão felizes por verem a única filha com cara de bunda?

Tio Tobias tinha razão. Eu estava mesmo sendo desagradável, para dizer o mínimo, uma vez que estava olhando apenas para o meu próprio umbigo.

Tratei de corrigir aquela falha, sendo mais participativa nas conversas e na programação, aproveitando a companhia e o lugar, que logo seria deixado para trás. E apesar de ser um tempo voltado ao descanso e diversão, assuntos sérios e delicados não nos abandonaram naqueles dias. E um, em especial, trouxe reflexão para mim, para o meu futuro.

Eu estava um pouco distraída no início da conversa, que se desenrolava enquanto jantávamos, mas não perdi um tema delicado que veio à tona. Um episódio, no colégio em que dona Alice dava aula.

Uma mãe, de uma aluna branca, que apontou para outra aluna, negra, pedindo que minha mãe, a então professora da turma, falasse com a menina negra para que ela prendesse o cabelo. Porque “aquilo” deveria ser um depósito de piolho.

— Você não está falando sério? — Tia Jade arregalou os olhos, tão descrente quanto todos à mesa.

— Pior que estou.

— Será que em algum momento ela reparou em você? — Tio Tobias disparou, tentando controlar a ira. — Também negra, com o cabelo crespo?

— Sinceramente? Não sei dizer. — O semblante de minha mãe era pura decepção. — Nessas horas não sei nem o que pensar.

— O que você falou? — Minha tia buscou a mão da irmã, o olhar compreensivo com a situação delicada.

— Que eu só podia interferir no uso do uniforme e em comportamentos que pudessem comprometer a saúde e o bom desempenho dos alunos, o que não era o caso, já que a aluna em questão era um exemplo de boas maneiras.

— E ela?

— Pediu que eu trocasse a filha de lugar, colocando-a bem longe da menina.

— Que vaca! — Tia Jade praguejou baixinho.

— Você fez isso? — perguntei, manifestando-me afinal naquele assunto repugnante.

Minha mãe não sorriu, mas me dirigiu um olhar cúmplice.

— Disse que aquilo não demoraria a acontecer, mas não pelo motivo que ela pediu, e sim pelo rodízio que sempre fazíamos em sala de aula, para que as crianças pudessem interagir com todos os colegas. Ela disse que levaria o caso para a diretora se preciso fosse. Claro que eu me adiantei a fazer isso.

— Por que eu tenho a impressão de que deram ouvidos a ela? — Tio Tobias expressou meu pensamento.

— Tenho a sorte de trabalhar em uma escola que não incentiva esse tipo de comportamento. Mas é uma situação em que é preciso ter jogo de cintura, saber como falar e se posicionar.

— Bem, então ela não saiu vencedora nessa? 

— Não dá para afirmar isso, já que ela tirou a filha da escola. — Foi meu pai quem respondeu. Claro que ele já sabia daquilo.

— Puta que pariu!

Eu lamentei aquela história, calada. Era ouvindo relatos como aquele, que eu me questionava se um dia teria um filho. Claro que não verbalizava isso, pois imagino que não seria compreendida. Mas sim, eu considerava todas essas questões. Submeter uma criança a este tipo de situação por toda uma vida. Porque, sinceramente, não conseguia ter esperança de que um dia as coisas melhorassem nesse sentido.

O relato trouxe indignação, e porque não dizer, um tanto de tristeza. Que para mim se acentuou quando resolvi dar uma espiada nas redes sociais, mais tarde naquela noite, já na minha cama.

Eu sempre curtia as postagens dos meus amigos. E Sofia tinha entrado nesse rol. No caso dela, era mais por uma questão de gentileza do que afinidade, já que tínhamos pouco tempo de amizade. Porém, não conseguiria fazer isso na publicação que surgiu diante dos meus olhos.

O cenário era uma praia. Um dia ensolarado, de céu azul e mar no mesmo tom. Assim como os olhos do homem que estava ao seu lado, bem próximo. Os dois sorriam para a câmera, e não parecia nada ensaiado. Era mais como um daqueles momentos que eu tanto vivi, em que o meu melhor amigo falava uma de suas besteiras, que nos fazia rir abertamente.

“Quando você sente que é uma amizade que veio pra ficar!”

Senti-me imediatamente sendo substituída. Meu lugar ao lado de Nic sendo tomado por uma garota branca, rica, e, obviamente, linda. 

Larguei o celular e fechei os olhos, me encolhendo na cama e chorando baixinho. Quem disse que ciúmes não causa uma dor física, é porque nunca o sentiu!

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Espero que tenham gostado! ♥

Não esqueçam de me dizer o que vocês estão achando nos comentários, e de convidar as amigas! Quanto mais vocês interagirem, maior a probabilidade de eu liberar capítulo bônus!!

Os capítulos serão postados às sextas-feiras, podendo haver capítulo bônus na semana dependendo da interação de vocês.

Então chamem as amigas para curtir essa história!

Boa diversão e até a semana que vem! ♥

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