Nossa Razão – Capítulo 24

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Capítulo 24

Nic

Para quem estava achando que aquele seria o melhor Ano Novo da vida, a decepção foi grande.

A viagem de volta para casa foi, no mínimo, tensa. Em todos os sentidos. Trânsito infernal e um silêncio incômodo dentro do carro. Imagino que Karla tenha falado com Milena e Gael, já que ela ocupou o banco de trás dessa vez. Para onde eu tentava não direcionar o olhar quando precisava conferir o retrovisor.

Sempre procurei entender todas as suas dúvidas e inseguranças. Sempre fiz o que pude para apoiá-la em suas decisões e escolhas. Sempre me doei para ela, mesmo quando o que eu sentia ainda era só um sentimento de amizade. Então sim, me doeu muito sua atitude ontem à noite. Não era só ingratidão. Tinha a ver com confiança. E acho que ela sabia o que isso significava na minha vida, principalmente depois que Suzana minou parte daquela crença.

Quem sabe eu tenha errado em mostrar aquele vídeo, que como disse a ela, não foi planejado. Mas considerei que poderíamos nos divertir, assistindo juntos, afinal, nossa amizade era íntima o suficiente para tal coisa. Além de que me pareceu ser uma forma inusitada de lhe dizer o que eu sentia. Eu estava pronto para abrir meu coração, para pedir a ela que fosse além de minha amiga, minha namorada, minha companheira.

Mas então ela fez o que fez. Tirou conclusões precipitadas, baseadas em conceitos que simplesmente não cabiam no nosso relacionamento. Nivelou-me por baixo, como se eu fosse um cara qualquer.

O pouco que disse a ela pela manhã, era verdade. E por tudo aquilo que expus, achei que ela não merecia ouvir da minha boca, que eu a amava. Sim, ainda me restava uma pitada de orgulho. Não me colocaria em uma situação vexatória, como há pouco mais de um ano. Eu certamente não era o melhor homem do mundo, mas era bom o bastante para não me sujeitar a certas coisas, e uma delas era mendigar amor.

Gael desceu do carro quando estacionei em frente ao prédio de Karla, para ajudá-la com sua mala. Senti o olhar questionador de minha irmã, mas não estava nem um pouco preocupado com isso.

Esperei sim que Karla passasse para dentro do condomínio, apenas por uma questão de segurança, como faria com qualquer outra pessoa. Porém, não lhe dirigi a palavra. Sequer um olhar. Ela tinha conseguido algo bem raro: endurecer meu coração.

— Nic…

— Não, Milena! — Cortei minha irmã, quando ela se inclinou para a frente, tocando meu ombro. Tinha certeza de que me questionaria coisas das quais eu não estava disposto a falar.

Passava do meio da tarde quando chegamos em casa, logo depois de deixar Gael. E mais uma vez ela tentou arrancar algo.

— Afinal, o que aconteceu de tão grave para você sequer olhar para a Karla? Para tratá-la com tanta frieza, impondo tanta distância?

— Por que não pergunta pra ela? — indiquei, indo direto para o meu quarto.

Ela me seguiu.

— Acha que não fiz isso? Mas assim como você, se fechou em um casulo.

— Sinal de que nenhum de nós quer falar sobre o assunto. Se você puder respeitar, te agradeço.

— Nic… — Colocou-se à minha frente, obrigando-me a encará-la.

— Me deixa sozinho — pedi, tentando me esquivar, mas ela segurou meu braço. E não é como se eu não pudesse escapar. Só não queria me indispor com mais uma pessoa muito importante da minha vida.

— Eu posso respeitar, mas entenda o quão difícil é pra mim, vê-los assim. Eu amo vocês dois e não quero ser injusta com ninguém, tomando partido de um ou de outro.

— Não tem nada para você tomar partido, Milena.

Eu não queria, de forma alguma, que o meu desentendimento com Karla interferisse na relação delas.

— Isso significa que cada um de vocês tem sua parcela de culpa no que houve?

— Talvez. — Dei de ombros, sem querer pensar naquela história por enquanto.

Ela assentiu, e então me abraçou apertado. E apesar de não retribuir da mesma forma, me deixei ficar ali.

— Tô aqui se quiser conversar.

— Obrigado. — Agradeci, mesmo sabendo que não faria aquilo. Não sobre aquele assunto.

— Obrigada por essa viagem, mesmo que ela não tenha sido para você, tão agradável quanto imaginou que seria.

De fato. Um incidente que durou menos de um minuto conseguiu ofuscar o brilho de um evento por completo.

***

Não era fácil cruzar com Karla todos os dias. Muito menos ter que falar com ela por conta de assuntos da empresa. Mas sabia que não podia deixar questões particulares intervirem na nossa vida profissional.

Até quando esse clima estranho permaneceria? Não sei. Se dependesse da decepção que fazia meu peito doer, imagino que um bom tempo.

Tentei me organizar para que o contato com ela fosse o estritamente necessário. Não vou dizer que não notei seu semblante abatido, a falta do sorriso, o olhar frustrado. Porém, isso não mudaria minha decisão: a de voltar o olhar para mim. Para o que eu queria para a minha vida. Para o que eu merecia.

Talvez aquele período em que ela ficaria afastada por conta das férias, pudessem amenizar as coisas. Talvez…

Era seu último dia de trabalho quando ela bateu à porta da minha sala, logo após o intervalo do almoço. Eu sabia que sentiria sua falta. Não da funcionária exemplar, mas da amiga. Das nossas conversas, sérias e sem nexo algum. Das piadas, dos abraços, do olho no olho. Porra, eu estava sentindo a falta dela desde aquele dia, mesmo que lutasse contra isso.

— Você precisa que eu providencie algo antes de sair de férias?

— O de praxe — falei educadamente, mas sem erguer os olhos dos papéis à minha frente.

— Nic…

Seu tom de voz, inseguro, me dizia exatamente o que viria. Uma tentativa de conversar, de falar sobre o que aconteceu. Eu poderia pará-la ali mesmo, mas decidi lhe dar o benefício da dúvida.

— Sim?

Percebi ela se aproximar da minha mesa, e não consegui impedir meu corpo de se retesar.

— Podemos conversar?

— Parece que já estamos fazendo isso — indiquei, tentando me concentrar no que fazia.

— Não sobre trabalho.

— É só o que eu tenho para conversar com você, Karla.

Ouvi seu suspiro profundo.

— Então é isso? Nossa amizade, tudo o que a gente já viveu, simplesmente deixa de existir por causa de…

— Por sua causa — interrompi, finalmente erguendo a cabeça e olhando para ela, odiando o fato de como sua figura mexia comigo, de como meu coração se apertava por saber que ela não era minha do jeito que eu queria. E sem conseguir controlar aquela frustração, continuei acusando-a. — Você fez isso, Karla. Quando duvidou de mim e julgou meu comportamento como inadequado, quando tudo o que fiz foi tentar ser o melhor para você. Mas parece que não foi o suficiente.

Vi seus olhos marejarem diante das minhas palavras, quem sabe um tanto duras. Mas ela tocou na ferida, e eu me defendi da dor como pude.

— Acho que isso resume a conversa que você queria ter. Agora, se puder me deixar trabalhar, agradeço.

Ela ainda ficou ali parada, mais um instante. Então saiu, sem dizer nada.

Foi uma despedida muda. E eu sabia que cada um daqueles vinte dias demoraria uma eternidade para passar.

***

Era uma típica manhã de domingo, na qual normalmente eu estaria na praia, junto de meus amigos. Bem, eu estava na praia. Porém, sozinho.

Era a época das férias, e com tantos desencontros de datas, reunir a turma no mês de janeiro se tornava difícil. O que vinha bem a calhar para mim. Não estava no clima para rever todos como se nada tivesse acontecido entre mim e a Karla. Ficaria evidente se estivéssemos no mesmo ambiente. E explicar não era uma opção.

O distanciamento estava sendo bom. Pelo menos eu já estava mais conformado com a situação. O que não quer dizer que eu tenha esquecido o que ela fez. Sua atitude, de certa forma, foi importante para que eu revisse certas coisas.

— Essa cara séria não combina com você!

A voz conhecida me despertou. E só podia ser mesmo coincidência encontrar com Sofia, já que ninguém sabia do meu paradeiro. Nem mesmo Milena.

— Meio que me senti o bobo da corte agora. — Brinquei, me levantando para cumprimentá-la.

— Feliz Ano Novo, Nic! — Abraçou-me sorridente, se afastando em seguida para me examinar de perto.

— Pra você também, Sofia!

— Sozinho hoje? — Vasculhou rapidamente a área ao redor.

— Às vezes é bom — observei, sem dar detalhes. — E você? — perguntei, notando que ela também parecia estar desacompanhada.

Sofia olhou para o mar azul, o céu no mesmo tom, e então para mim.

— Resolvi dar uma caminhada, aproveitar o dia.

Assenti, pensando se a convidava para se juntar a mim, ou não. Acabei por ser educado, e não egoísta.

— Vai continuar ou quer me fazer companhia?

— Não vou atrapalhar? Você parecia bem pensativo.

— O suficiente para começar a me entediar — admiti, realmente cansado daquela melancolia que tinha me atingido. — Vou pegar uma cadeira pra você.

— Tá tranquilo, Nic. Eu me sento na areia.

— Ah não, vamos fazer isso direito.

Ela sorriu, enquanto eu acenava para o rapaz ali perto nos trazer mais uma.

— Então, como foi a passagem de ano? Vi algumas postagens da Milena.

Não era exatamente o tipo de conversa que eu gostaria de ter, mas não dava para escapar.

— O Farol de Santa Marta sempre é um ótimo destino. Infelizmente, por causa da agenda da empresa, não pudemos ficar mais — resumi, enquanto ela se acomodava ao meu lado, exibindo o belo corpo, agora sem a canga que recobria parte dele quando chegou. — E você? Cruzeiro pelo Caribe, hein?

Eu também tinha visto postagens dela, ostentando as belezas da região, bem como o dinheiro da família.

— Pois é. Mesmo a companhia não sendo das melhores, ainda é maravilhoso — explicou sem muito entusiasmo, admirando o cenário à nossa frente.

— Não estava com os seus pais?

— Sim. E eles, com os amigos, falando de negócios. Mas… cumpri meu papel de filha. — Deu de ombros, voltando a olhar para mim. — Recebi alta da terapia.

Eu diria que era uma mudança e tanto de assunto, mas talvez não, afinal, parte dos problemas de Sofia decorriam de uma família não muito estruturada, o que a levou a permitir o tipo de relacionamento que tinha com Bernardo, o cara que hoje respondia a um processo de estupro.

— Isso é bom, não é?

— Sim! As sessões tinham tomado um rumo meio repetitivo, sabe? — Fez uma careta desanimada. — Agora é por minha conta.

— Não quer dizer que não possa pedir ajuda, caso se sinta insegura.

— Claro! Mas preciso tentar sozinha. Encarar a realidade. — Respirou fundo, como se precisasse de força para enfrentar os fatos. — Tô pensando em fazer uma especialização fora do Brasil. Acho que vai ser legal me afastar um pouco de tudo.

— Você discutiu isso com a sua terapeuta? — Ainda que não fôssemos íntimos, senti necessidade de me certificar de que aquilo seria saudável para ela.

— Sim. Não é como se fosse uma fuga, mas um tempo para mim, sabe?

— Acho que sei. — Assenti, entendendo bem seu raciocínio. — Se eu pudesse, também faria isso.

Meu comentário obviamente despertou seu interesse, o que a fez se ajeitar na cadeira, trazendo toda a atenção para mim.

— Hum, você com problemas, Nic?

— Vai dizer que não combina comigo?

— Não, só que… você parece lidar tão bem com tudo.

Ri, sem deixar de concordar com ela.

— Normalmente sim.

— Para onde você iria?

— Como?

— Esse tempo pra você… Onde seria? Fazendo o quê? — indagou, puxando os óculos de sol para cima, revelando os olhos verdes, realçados pela claridade do dia.

— Não sei. — Dei de ombros, indiferente.

— Ora, vamos lá! Só estamos jogando conversa fora.

Pensei um pouco, considerando todos os lugares que gostaria de conhecer.

— A Austrália seria legal. Quem sabe aliar algum curso, como você falou.

— Meu pai tem conhecidos lá.

— Pelo visto seu pai tem conhecidos pelo mundo todo. Tira proveito disso, Sofia.

— Tô falando sério. Ele consegue agilizar sua ida.

Não sei se entendi direito o que ela estava querendo dizer.

— Pensei que estávamos jogando conversa fora.

— Ele tem um amigo, daquele tipo que deve favor, dentro do departamento de imigração. Em poucos dias seu visto de estudante estaria liberado — continuou ignorando o fato de que eu estava realmente falando da boca para fora.

— Se é tão fácil assim, o que você está fazendo aqui? — questionei, curioso do motivo pelo qual ela não aproveitava tal oportunidade.

— Bem, eu estava meio alienada até pouco tempo atrás, por… você sabe…

— Não está mais. — Frisei.

Ela sorriu abertamente, deitando a cabeça e franzindo os olhos ao especular.

— Isso é um convite para eu me juntar a você?

— Não disse que vou para a Austrália, Sofia. — Ri, surpreso com o rumo que ela estava dando à conversa.

— Mas pode pensar a respeito.

— Eu tenho responsabilidades aqui.

— E eu não…

— Ei, não foi isso que eu quis dizer. — Corrigi rapidamente.

— Mas é verdade! — Concluiu, não demonstrando qualquer constrangimento. — Não tem nada que me prenda aqui, Nic. Bastaria eu pedir, e meu pai me colocaria em um avião com tudo arranjado lá. Se você decidir e quiser companhia…

Eu sinceramente não sabia como responder àquela sugestão. Aliás, não queria ter que lidar com nenhum tipo de conversa que envolvesse sentimento, fosse ele recíproco ou não.

Sofia era uma gata! E desde que se juntou à turma, vinha se revelando uma garota com presença de espírito, comunicativa e meiga. E eu não estava sendo arrogante ao dizer que já tinha notado seus olhares.

Lembrei-me de Lia, e parece que eu teria, novamente, que fazer o papel de carrasco. 

— Sofia, eu…

— Como amiga — interrompeu, adivinhando meu pensamento. — Sei que o seu coração pertence a outra.

Sua observação me deixou ligeiramente tenso.

— Não sei do que você tá falando.

Recebi uma avaliação demorada, quase cínica, que de repente parecia não combinar com a garota doce e levemente tímida que conheci há pouco tempo.

— Ela não enxerga mesmo, ou o quê? — Sua voz saiu baixa, especulativa. — Aliás, será que só eu percebi?

— Você não está dizendo coisa com coisa, Sofia. — Desconversei.

— Se eu der na cara dela, ela acorda e vê o que tá deixando escapar?

— De quem…

— Da Karla, óbvio!

Merda!

— Você está vendo coisas.

— Os outros é que não estão vendo, incluindo ela. Acho que a amizade de vocês tem uma intimidade tão grande que atrapalhou tudo. Confundiu tudo. Talvez por eu ter chegado agora na turma, isso seja mais evidente para mim. Você a trata diferente de todos, até da Milena, que é sua irmã. Não sei como não enxergam isso.

— Você está enganada — prossegui, querendo fugir do assunto, mas Sofia não parecia disposta a desistir dele.

— Infelizmente algumas pessoas só dão valor às coisas ou às pessoas, depois que as perdem.

— Ela nunca me teve, para me perder. — Soltei, mas era uma mentira. Karla sempre me teve, só não se dava conta disso. E parece que Sofia concordava.

— Teve sim. Aliás, ainda tem. Ela só parece não saber disso. E eu a odeio um pouco por ter essa oportunidade e a deixar escapar.

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Os capítulos serão postados às sextas-feiras, podendo haver capítulo bônus na semana dependendo da interação de vocês.

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Boa diversão e até a semana que vem! ♥

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