Nossa Razão – Capítulo 22

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Capítulo 22

Karla

Virei para o outro lado da cama, ainda de olhos fechados, buscando o sono que me levaria ao ponto de onde parei: o sonho com Nic, onde seu sorriso e olhar cheio de desejo me incentivavam a ir em frente. Onde o toque delicado, afagando meu cabelo, junto de sua voz sussurrando “Ei, minha preta, tá na hora”, me faziam pensar que eu era a mulher mais feliz do mundo.

Acontece que um leve zumbido na minha cabeça dificultava que eu continuasse suspirando com aquelas imagens. E quanto mais eu me esforçava para voltar para aquele mundo paralelo, pior ficava.

O gosto ruim na boca começou a me incomodar.

Abri os olhos, vendo a escuridão me envolver. Estava sozinha, esparramada na cama de casal. Na cama de Nic. Lembro que esse foi o combinado. Ele cedeu seu espaço para mim, indo dormir no sofá.

Virei-me novamente, no instante em que a porta do quarto se abria devagar. A luz de uma luminária se acendeu, quebrando o breu, enquanto um bom dia chegava baixinho até os meus ouvidos.

Nic!

Ele se aproximou da cama, sentando-se na beirada e buscando minha mão.

— Sinto dizer, mas você precisa levantar-se. — Sussurrou, e resmunguei contrariada. — Como você está?

— Acho que melhor do que deveria — respondi com a voz grogue, esfregando os olhos.

— Deve ser efeito do suco e do analgésico que te dei ontem à noite.

— Ah… obrigada.

— Vem, vamos tomar café. — Nic se levantou, mas ficou ali ao lado, me esperando.

Sentei-me, só então me dando conta do meu estado. E não, não estou falando do mental, mas do físico, do que deveria estar sobre o meu corpo.

Puxei rapidamente o lençol para cima, cobrindo o sutiã de renda, que mais deixava para a imaginação do que revelava.

— Você tirou a minha roupa? — perguntei baixinho, receosa, tentando me lembrar de alguma coisa.

— Não. Você mesma fez isso, lá na sala.

Sua voz grave, envolvente e sugestiva me fez fechar os olhos, envergonhada.

— Ah, merda!

— Fique tranquila. Te garanto que essa lingerie cobre mais do que alguns biquínis que já te vi usando.

Isso não impediu que um calor subisse pelo meu rosto.

Olhei novamente para a cama, reparando no lençol amarrotado e em outro travesseiro ao lado do meu.

— Você… dormiu aqui?

Ouvi a respiração dele soar profunda, trazendo uma pausa que me fez, de certa forma, odiar a situação.

— Não. Apesar de ter sido convidado.

— Meu Deus, Nic! — Enterrei o rosto entre as mãos, não querendo pensar no que mais posso ter dito ou feito. Ou será que queria?

— Ei, para com isso. — Soltou uma risada baixa. — Você estava bem altinha, mas não fez nada que pudesse se comprometer. Quer dizer…

E lá estava! A insinuação que logo traria a humilhação.

— Nic… desembucha!

— Mais tarde, quem sabe. — Piscou, já se afastando.

— Nic, volta aqui.

— O café vai esfriar — cantarolou.

— Nic!

***

— Parada para um café e banheiro. — Ouvi Nic avisar, me despertando. Sua mão acariciava minha bochecha enquanto ele sorria de um jeito divertido. — Tem baba escorrendo no canto da sua boca. Vou supor que estava sonhando comigo.

Não ia dizer a ele que sua suspeita tinha razão de ser.

— Chegamos? — Ouvi Milena resmungar do banco de trás.

— Pouco mais da metade do caminho.

— Por que você me acordou? — reclamou com Gael.

— Era pra ser uma viagem divertida, sabe? E não uma sinfonia de roncos.

— Vai ser. Deixa só eu tirar um cochilo.

— Cochilo? Você parecia um trator, gata.

— Tô com sono!

— Vocês sabiam que a gente sairia cedo.

Eu ouvia os três conversando, enquanto tentava me situar. Também cochilei, mas talvez não tenha roncado, ou Nic teria feito questão de apontar isso, assim como o fato de eu ter babado um pouco.

Passei a mão no queixo de um jeito nada elegante, vendo que o estrago não parecia tão grande.

— Vem! — chamou novamente, e descemos os três do carro.

Quando voltamos, todos com um copo de café nas mãos, e algumas besteiras para roer, eu já me sentia menos letárgica.

— Então, despertas o bastante para contar como foi o encontro das luluzinhas? — Nic perguntou, já pegando a estrada de novo.

Pigarreei, mexendo na sacola que continha os petiscos, fazendo mais barulho do que o necessário, apenas para tentar desviar a atenção da pergunta dele.

Pouca coisa eu me lembrava. Quer dizer, do tempo que passamos no bar, praticamente tudo. Depois que entramos no Uber, bem menos. E quase nada depois que chegamos em casa.

Lapsos de memória despontavam vez ou outra, mas eu sinceramente não sabia o que era real, e o que era minha imaginação, que aliás, era bem fértil.

Milena falou alguma coisa. Não prestei atenção, mas creio que não era nada comprometedor. 

— Deveria ter bebido menos. — Gael repreendeu.

— Eu? O que você diz pra essa aí então? — Milena apontou para mim, e ouvi nosso motorista dar uma risadinha.

— Não exagera! — contestei.

— Você tava bonita ontem, amiga!

— Queria afogar as mágoas? — Nic me direcionou um olhar rápido.

— Ah vai, estava divertido. — Defendi-me, colocando uma batata frita na boca antes de estender o pacote para que Nic também pegasse uma.

— Pelo que você citou logo que chegaram, eu até imagino.

— Sério Karla? — Milena entoou, e olhei para o seu irmão, ao meu lado, com aquela cara de quem comeu o passarinho e deixou o rabo para fora.

— Nic tá jogando verde, amiga.

— Tô não!

— Tá sim!

— Ah é? Deixa eu ver… — Fez uma pausa proposital, criando suspense. — Envolvia casquinha, Lia, beijo…

— Karla, sua bêbada! — Minha amiga berrou, já se pendurando curiosa no banco do motorista. — Nic, é verdade o que a Lia falou?

— Não sei. Alguém aqui se enrolou um pouco na narrativa.

— Merda! — praguejei, maldizendo as quatro caipirinhas.

— Você não falou do vídeo, né?

— Wow!

— Milena! — repreendi, na esperança de que ela se tocasse de que estava falando demais.

— Aposto que era putaria! — Gael provocou.

— Como se vocês não assistissem. Como se não rolasse vídeo de mulher pelada nos grupos de vocês.

E ela caiu direitinho no joguinho do namorado!

— Vocês têm até grupo pra isso?

— Milena, cala a boca! — reclamei, quase desejando um pouco de álcool para acompanhar aquela vergonha toda.

— Eu não faço esse tipo de coisa. — Gael debochou, e eu vi de canto de olho Nic rir um bocado.

— Santo! Deve assistir e brincar de cinco contra um.

— Pensando em você, gata.

— Tá! — Nic interrompeu a enxurrada de besteiras. — Dispenso a imagem do Gael tocando punheta.

— Ah maninho, pra você ter ideia do que aguentei ontem, enquanto falavam de você. Tipo, como você lambe uma tampa de iogurte.

— Milena! — gritei, olhando para ela ali atrás, com pose de boa moça.

Senti meu rosto pegar fogo. Claro que Nic adivinharia quem falou aquela pérola. Eu ia afogar minha amiga no mar. Talvez dar um jeito de levá-la até o alto do farol e jogá-la de lá.

Voltei a olhar para a frente, para a estrada, ciente de que Nic tinha um sorriso convencido no rosto.

— Gael, trate de ocupar a boca da sua namorada, por favor? — pedi.

— Pô Karla. Já entendemos que vocês curtem uma putaria, mas aqui no carro é perigoso. Vai que o Nic precisa frear de repente e a Milena me morde? Morro de hemorragia no último dia do ano.

— Eu estava falando de um beijo, seu depravado — esclareci, como se fosse realmente necessário.

— Não seria uma morte muito ruim, hein! — Nic disparou, olhando para o amigo pelo retrovisor.

— E eu que bebi demais! — falei sozinha, colocando outra batata na boca.

***

Nunca desejei tanto que uma viagem terminasse. Digo, um trajeto. Não que a conversa tivesse seguido aquele rumo embaraçoso o tempo todo, mas eu sentia Nic desviar o olhar para mim vez ou outra, na certa lembrando-se do que deixei escapar ontem à noite. E pensar que só ele sabia, me deixava envergonhada e irritada comigo mesma.

O sonho com meu melhor amigo parecia muito real. Sua voz pesada falando alguma coisa para mim, suas mãos firmes me sustentando. Bem, essa segunda parte com certeza não era só sonho. Imagino que ele precisou me acompanhar até a cama. Comigo só de lingerie.

Senhor!

Claro que eu poderia perguntar o que exatamente aconteceu. O que fiz ou falei. Mas e cadê a coragem? E o medo do ridículo, onde ficava? Então, preferi adotar a feição da mulher tranquila e em paz com a sua bebedeira. Certamente não deveria ser algo tão inconveniente. Salvo a parte de ter tirado a própria roupa. Ou de, segundo ele, convidá-lo para dormir comigo.

Merda!

A pousada que Nic reservou era linda e a poucos passos da praia. De estilo rústico e aconchegante, era perfeita para relaxar. Fosse à beira da piscina, em uma das espreguiçadeiras coloridas, ou ocupando uma das redes dispostas no deck superior, definitivamente aquele era um lugar para se ficar mais do que apenas dois dias.

Fizemos o check in, enquanto uma movimentação anormal acontecia ainda na recepção. Eram os preparativos para a festa da virada, com uma decoração em azul, prata e branco por todos os ambientes. Flores, bexigas, e aqueles véus, que davam um ar requintado aos pergolados e ombrelones.

Milena e Gael foram encaminhados a uma suíte no meio do complexo, enquanto eu e Nic seguimos na direção da última.

Sim, íamos dividir o mesmo quarto. E eu diria que não tinha nada demais, já que isso era comum quando viajávamos juntos. Eu, ele e Milena.

Mas dessa vez era diferente. Sentia que havia algo, um clima, uma tensão. Quem sabe eu só estivesse ainda meio confusa com a noite passada. Claro que ficaria tudo bem, como sempre esteve.

Nic depositou minha mala no hall da suíte, fechando a porta atrás de nós. Não esperei por ele para entrar e conferir as camas. Duas de solteiro, graças a Deus!

Até parece que isso seria um empecilho!

Chutei aquela voz maldita da minha cabeça, indo até as portas que se abriam para o mar. O morro do Farol estava à nossa direita, onde a torre quadrada, em pedra, elevava-se em meio a um grupo de casas de faroleiros. 

Cenário perfeito, homem perfeito…

— Então, quer tomar um banho, mudar de roupa antes de sairmos para almoçar? — falou às minhas costas, bem próximo.

Dei o meu melhor para trazer de volta aquilo que sempre tivemos. A descontração e a intimidade. Não a física, é claro!

— Acho que vou fazer isso.

— Até porque sua amiga deve demorar um pouco. — Olhei para ele sem entender. — Depois daquela conversa toda mais cedo, suspeito que vão querer inaugurar o quarto.

Ignorei a insinuação e a vibração que aquele pensamento me trouxe.

— Eu também devo demorar um pouco, então se você quiser ir dar uma volta.

Nic não respondeu. Moveu-se devagar até o frigobar, pegou uma cerveja long neck e levou à boca, dando goles generosos, fazendo com que sua garganta se movesse de um jeito sexy ao sorver o líquido gelado. Quando se deu por satisfeito, aquela umidade nos olhos, causada pela temperatura extremamente baixa da bebida, deu ainda mais destaque ao azul de sua íris. Ou talvez fosse o reflexo da água do mar, bem ali, há alguns passos de nós. Eu sentia que poderia me perder em qualquer um deles.

— Quer? — Ofereceu a própria garrafa, parando muito perto de mim.

Aquilo só podia ser provocação!

— Melhor não. Acho que seria bom eu me manter sóbria hoje.

— Uma cerveja não vai te deixar bêbada.

— Ainda assim, é melhor prevenir.

Ele sorriu de um jeito enigmático, mas eu não parei para analisar. Decidi que o melhor a fazer era agir naturalmente, deixando de lado qualquer merda que eu tenha falado na noite anterior. Não ia desperdiçar aquelas horas maravilhosas tentando desvendar o que quer que fosse. Dei as costas a ele, indo em busca da minha mala e do que eu precisaria para fazer aquilo que falei: tomar um banho tranquilo e me arrumar para aproveitar o dia.

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Espero que tenham gostado! ♥

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Os capítulos serão postados às sextas-feiras, podendo haver capítulo bônus na semana dependendo da interação de vocês.

Então chamem as amigas para curtir essa história!

Boa diversão e até a semana que vem! ♥

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