Nossa Razão / Capítulo 21

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Capítulo 21

Nic

Pedimos uma pizza, Gael e eu, para acompanhar a cerveja. Não que eu fosse beber demais, afinal, ia dirigir em poucas horas.

O trajeto até o Cabo de Santa Marta, em Laguna, não era longo, mas estamos falando de uma viagem no último dia do ano, portanto, o que normalmente demoraria duas horas e meia, considerando que pegaríamos a balsa que atravessa o canal de cerca de um quilômetro, certamente duraria quase o dobro. Ainda assim, valeria a pena.

Encontrar um lugar para ficarmos foi pura sorte, e me custou uma boa grana, mas não dava para reclamar. Eu faria daquele, o melhor Ano Novo da minha vida.

Nossas mochilas já estavam arrumadas e no carro. Claro que as malas de Milena e Karla — sim, malas, para um pernoite — ainda estavam abertas no quarto de minha irmã, caso elas se “lembrassem de algo”.

Gael sugeriu que eu levasse o violão. Não sei se teríamos tempo para cantorias, mas peguei mesmo assim, o que me levou a dedilhar algumas notas, inspirado pela viagem.

Eu estava ansioso, não nego, e acho que Gael notou.

— Você é do tipo que curte mesmo a passagem de ano ou é só por causa da companhia?

— Dá pra perceber é?

— Só um pouco. — Riu debochado.

— Fazia um tempinho que não me sentia assim.

— Por causa da tal namorada?

Claro que ele já tinha ouvido falar de Suzana. Não era nenhum segredo, ao menos para os que conviviam comigo. Eu só não gostava de tocar no assunto, mas acho que era certo contar a Gael porque aquilo me incomodava tanto. Afinal, apesar do pouco tempo namorando Milena, ele já era considerado da família.

Interrompi a melodia, colocando o violão de lado, e dei um gole na minha cerveja

— Ela veio do interior pra estudar. O pai era daqueles fazendeiros ricos, então ela tinha um apartamento alugado no centro da cidade e não precisava trabalhar. Era linda, bem-educada, super reservada, então eu até entendia o fato de ela preferir não sair em turma. Eu gostava dela. Não sei se era amor, mas gostava dela pra valer. Estava até conseguindo me desapegar da Karla, esquecê-la. — Confessei, dando outro gole na cerveja, esse mais generoso. — Um dia decidi fazer uma surpresa pra ela na faculdade. Era engraçado que até então eu não tinha me ligado que nas vezes que ia lá encontrá-la, ela estava sempre pronta, me esperando na entrada. — Esmaguei a lata de cerveja, sentindo parte daquela raiva me invadir. — Peguei ela com dois ao mesmo tempo, em uma sala de aula vazia.

— Puta que pariu! — Gael xingou baixinho.

Alcancei outra cerveja, bebendo quase metade da lata de uma só vez.

— Descobri que ela era uma dessas “universitárias”, que fazem até anúncio em jornal. — Ri sem vontade. — Não sei que nome dar ao que ela fazia, porque não era por dinheiro, ao menos ela não precisava. Era piranhagem mesmo. Acho que a faculdade toda sabia, menos eu, o namorado dedicado e trouxa. Ela dava pra mim toda puritana e depois gozava gritando o nome de outro.

Gael não se manifestou. Acho que estava realmente surpreso com a experiência nada agradável que tive no passado.

— Levei um tempo pra processar isso. Não é o tipo de coisa que você esquece da noite para o dia.

— Imagino — disse apenas, me imitando ao dar fim à sua cerveja e amassar a lata.

Peguei novamente o violão, brincando com algumas notas. Foi o tipo de coisa que deixei de lado depois daquela decepção, mas que devagar estava retornando para a minha vida.

Gael mudou de assunto, e eu agradeci internamente pela sua consideração.

Era quase meia noite quando ele conferiu o celular.

— Elas estão vindo embora. — Avisou. Milena prometeu compartilhar a viagem de Uber com ele.

— Já não era sem tempo.

Ele soltou uma risada suspeita.

— Recebi instrução da sua irmã para esperá-la no quarto.

— Noção é algo que ela não tem! — Critiquei, acenando para que Gael seguisse em frente. — Fica à vontade, cara.

Ele me ajudou com a bagunça antes de se recolher, e eu voltei para a sala, tendo a ideia de gravar algo para Karla, enquanto esperava pelas duas. Coloquei o celular para registrar o ensaio, para que pudesse fazer as correções posteriormente, e não demorei a ouvir vozes lá fora.

Larguei rapidamente o violão e fui em direção à porta, abrindo-a e vendo Milena e Karla no portão, rindo sem parar.

— Acho que não preciso perguntar se vocês se divertiram. — Comentei, enquanto elas caminhavam devagar, de braços dados, até mim.

— Algumas mais do que outras, como dá pra perceber. — Minha irmã piscou. Não dava para negar que a amiga estivesse mais alegre.

— Nic!

Karla se desprendeu de Milena e cambaleou para os meus braços, enlaçando meu pescoço. O hálito de álcool me atingiu tanto quanto seu olhar embaçado. Abracei sua cintura, apoiando-a em mim.

— Você cuida dela? — Milena desviou de nós. — Tenho um namorado me esperando no quarto.

— Se manda! — Instrui, sem tirar os olhos da mulher à minha frente. — E manera no barulho.

— Hum, voxe vai cuidar de mim, Nic? — Karla sussurrou com a voz enrolada, bêbada em um nível apenas divertido, eu esperava.

— Vou. — Firmei-a contra mim, fechando a porta e caminhando em direção ao meu quarto, onde ela iria dormir.

— Sempre?

— Por toda a minha vida.

Ela parou de repente, tropeçando sobre os próprios pés, ao que precisei segurá-la com mais força. Então virou o rosto para me olhar.

— Você é um bom moço — falou devagar, falhando ao tentar tocar a ponta do meu nariz e quase acertar meu olho.

— Moço? — Tentei não rir.

— Aham! — Virou-se em meus braços, colando o corpo quente junto ao meu. — A gente tava falando sobre isso.

— De eu ser um bom moço? — Prendi-a mais forte, lutando contra a vontade de me perder em sua boca, que ao que tudo indicava, me revelaria confidências femininas. — Fico lisonjeado por ter sido o assunto da noite.

— Nossa dúvida é se você também seria tão bom em outras áreas.

— Alguma específica?

Ela aproximou ainda mais o rosto, os olhos cerrados, a boca entreaberta.

Sexxxuall — Cochichou, dando uma risadinha. — A Lia disse que tirou uma casquinha de você.

— Ah é?

— Mas isso eu já sabia. — Deu de ombros, parecendo orgulhosa do fato. — Porque você me contou. Só pra mim.

Cara, aquilo era muito divertido. Talvez não correto, mas divertido, então eu dei corda.

— Sim, contei só pra você.

— Ela não gostou. — Fez um biquinho, concentrada no decote da minha camiseta, roçando a ponta dos dedos na minha pele, agora bastante sensível.

— Imagino.

— Porque você não correspondeu — explicou, erguendo o olhar, que apesar de embriagado, denotou uma pontinha de arrogância. — Eu gostei que você não correspondeu.

— Ah é?

Eu deveria parar por ali, sabia disso. Mas a curiosidade era maior. Queria ver até onde elas tinham ido e qual a participação de Karla naquela espécie de confessionário.

— E o que mais vocês falaram?

— Eu não disse que também tirei uma casquinha de você. E que diferente dela, adorei. — Trouxe os dedos até os meus lábios, tocando-os suavemente. — Não disse como o seu beijo é delicioso, e como eu gostaria de mais. — Mordeu o próprio lábio de um jeito sexy, o que imediatamente fez meu pau endurecer. — Nem como eu me toco, pensando em você.

— Ah, porra! — Rosnei excitado, apertando sua cintura com força, sucumbindo àquela provocação, de certa forma velada, ao inclinar a cabeça e roçar meus lábios no seu pescoço. — Como eu queria que você me dissesse tudo isso estando sóbria, Karla!

— Não falei que sonho com você. — Continuou, ignorando meu comentário. — Me chamando de sua preta.

— Eu adoraria te chamar assim. Você quer?

— Quero! — Suspirou. — Quero você, Nic! — Agarrou minha camiseta, suspendendo-a e tocando direto na minha pele.

O arrepio foi instantâneo, e eu fechei os olhos, esforçando-me para me segurar.

— Também quero você, minha preta! — Declarei. — Não faz ideia de quanto! Ou há quanto tempo. E seria tão perfeito se amanhã você se lembrasse do que está me dizendo agora!

— O que tem amanhã? — Correu as unhas compridas sobre o meu abdômen.

— Vamos para um lugar lindo, onde teremos uma conversa definitiva, em que eu vou dizer o quanto te amo e a quero para mim. Vou te pedir uma chance, para que eu possa fazer você se apaixonar por mim, para que você não seja apenas minha melhor amiga, mas minha namorada, a mulher da minha vida. Vamos começar um novo ano e uma nova etapa na nossa vida. — Despejei tudo, abrindo meu coração, mesmo ciente de que talvez ela não recordasse das minhas palavras.

— Vamos?

— Pode estar certa.

— O que mais vamos fazer?

— Tudo o que você quiser.

Ela se libertou do meu cerco, um pouco oscilante, atrapalhando-se para se desvencilhar do vestido.

— Não… Karla! — Tentei freá-la, mas a roupa já tinha subido o bastante para me deixar ver uma tira de tecido rendado envolvendo a curva dos seus quadris.

Meus dedos coçaram de vontade de tocá-la, de sentir sua pele macia e quente, de puxá-la para mim. Mas eu não podia fazer aquilo. Era errado de várias maneiras. Eu a queria tanto que meu corpo doía, mas não daquela forma. Não com ela embriagada daquele jeito, sem noção do que dizia ou fazia. Não depois do que houve com o ex-namorado.

Entretanto, não fui forte e íntegro o bastante para não a admirar por inteiro, quando a roupa foi deixada ao chão.

Ela era tão linda e tão perfeita! As curvas marcadas, a pele negra e reluzente, o olhar pesado e os lábios carnudos e molhados.

— Que tal eu te levar para a cama?

A pergunta era quase irônica diante das circunstâncias.

Ela piscou demorado e se jogou em meus braços. E eu a segurei tão firme quanto devia, mas não como queria.

Os passos até o meu quarto nunca pareceram tão numerosos, e agradeci que a explosão falatória tivesse cessado.

Seu corpo estava mais mole e sua feição, sonolenta.

Deitei-a, acomodando-a junto aos travesseiros, sabendo que quando voltasse ali com um analgésico, ela já estaria apagada.

Karla ronronou alguma coisa e a deixei por um instante, apenas para pegar um copo de suco.

— Beba! Para que amanhã a dor seja menor.

Surpreendentemente ela obedeceu sem reclamar. Na certa pelo estado de quase desmaio.

Cobri-a com o lençol, depositando um beijo leve em seus lábios.

— Você não vem? — Pediu, baixinho, já se aninhando.

— Hoje não! Mas amanhã… — Toquei o pingente que lhe dei de presente, e que descansava em seu pescoço. — Amanhã você será minha, bailarina!

Think About Us – Little Mix

Porque eu penso em você

Não posso me livrar de você, amor, preso como cola

Agora estamos sozinhos, tenho meu corpo em você

Você nem sabe todas as coisas que eu quero fazer

Um toque, preciso do seu amor

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Espero que tenham gostado! ♥

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Os capítulos serão postados às sextas-feiras, podendo haver capítulo bônus na semana dependendo da interação de vocês.

Então chamem as amigas para curtir essa história!

Boa diversão e até a semana que vem! ♥

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