Nossa Razão / Capítulo 20

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Capítulo 20

Karla

Aqueles últimos dias do ano passaram voando. Também foram os que eu mais me senti mimada.

Nic fez o que disse que eu merecia. Tratou-me com ainda mais atenção. Dispensou-me seu tempo e seu carinho, fazendo com que eu me apaixonasse ainda mais por ele. Com isso, transformou o triste episódio com Toni, em uma vaga lembrança.

Felizmente não tive mais notícias do meu ex-namorado. Para minha sorte ele parecia não ser o tipo perseguidor, tão comum atualmente. Ainda assim, as pessoas à minha volta me cercavam de proteção.

Tinha ciência de que estava errada em não o denunciar, e com isso impedir que sua atitude se repetisse com outras mulheres. Mas escolhi ser egoísta. Escolhi pensar em mim e no que eu viria a perder, pois, como minha mãe mesma disse, as circunstâncias o favoreciam. Também sabia que seria julgada pela minha atitude. Mas ninguém estava na minha pele — literalmente — para compreender aquela dor.

A programação de férias dos Ventura e dos Lopes esse ano estava toda desencontrada, e a ideia de celebrar o Natal juntando as duas famílias foi simplesmente maravilhosa. Trazer Gael e Diana para o núcleo trouxe ainda mais alegria para a data, e satisfez nossos pais pela oportunidade de nos ter por perto.

Já quanto à comemoração do Ano Novo, não havia muito que eles pudessem fazer. Era quase rotina nos reunirmos com amigos para festejar a farra da meia-noite, que esse ano seria um pouquinho diferente.

A sugestão de Nic para viajarmos só os quatro parecia perfeita. Eu me sentia totalmente à vontade com ele, mas não dava para ignorar o medo de que ele pudesse ficar com alguma mulher. 

Sair de viagem no último dia do ano era uma aventura no mínimo arriscada, por isso, a intenção era pegar a estrada antes do sol nascer, na esperança de um trânsito menos intenso. Com os pais da Milena fora, a ideia de que eu e Gael dormíssemos na casa dos Ventura era a mais indicada para o plano de sair bem cedo.

Não estar com a turma toda reunida foi um dos motivos que levou nós, meninas, a marcar um encontro da Luluzinha na penúltima noite do ano. Uma despedida de um ano bem difícil em alguns aspectos. E era engraçado pensar que Nic e Gael estavam em casa, de certa forma bem-comportados, quando eu e Milena bebíamos com nossas amigas em uma mesa de um bar.

Como não podia faltar quando duas ou mais mulheres se reúnem, o assunto sexo masculino veio à tona, e com isso, minha última experiência.

— Homens!!! Se a gente dá, é piranha. Se não dá, é puritana e recebe esse tipo de coisa! — Lia queixou-se, recebendo a concordância de todas nós.

— Eu sei que a maioria quer mais é curtir, mas não consigo ser do tipo que transa só por transar. Sem ofensa, Bruna — Esclareci, já que ela era da turma do sexo descompromissado. — Tem que ter algo mais, que com o Toni não tinha.

— Fica tranquila, Ka. Cada uma no seu tempo. — Espetou um pedaço de carne, olhando para ele antes de continuar. — Tem época que tô mais galinha, e o que vier, tô traçando. Mas também tem momentos que quero um pouco mais de conteúdo, sabe. E nem tô falando do que tá no meio das pernas desses manés.

A risada foi geral, com Milena cochichando em seguida.

— Por falar em meio das pernas, o que foi aquele vídeo que você mandou no grupo, Bruna?

— Delícia, né?

— Que pau maravilhoso!

— Trabalho divino com a mão. — Sofia, que tinha aderido à turma de forma definitiva, frisou, referindo-se à cena em que um cara delicioso se masturbava em frente ao espelho. Claro que sem mostrar o rosto.

— Só lamentei que o gostoso não deu um gemidinho — reclamei, bebericando minha caipirinha. — Qual é a desses caras? Será que eles fazem algum tipo de pacto de silêncio quando estão transando? Tudo bem que não precisa cantar o hino nacional, mas poxa…

— Alguns até quando gozam não se manifestam mais entusiasmados. — Sofia complementou. — Daí querem criticar as mulheres, que ficam parecendo boneca inflável.

— Nem todas. — Milena corrigiu.

— Não sei o que é pior. Os calados ou os escandalosos. Transei com uma cara esses tempos que parecia narrador de futebol. Sério gente, broxei! — Bruna fez uma careta antes de esvaziar o copo de cerveja.

— Tão difícil encontrar equilíbrio nesses homens. — Suspirei.

— Mi, fala aí do Gael. — Sofia cutucou e nossa amiga se remexeu na cadeira.

— Ih, nem vem!

— Qual é! Não se preocupe que não vamos tirá-lo de você. A gente só quer saber se esse tipo existe. — Lia provocou.

— Ok! — Bufou, deixando as amigas em expectativa. — Ele é… perfeito!

— Aham! — O coro foi geral.

— Começo de namoro, querida. Eles fazem de tudo pra agradar. Daqui um ano teremos essa conversa e vamos ver se a opinião é a mesma. — Bruna parecia a mais cética, talvez até por toda a sua experiência no ramo.

— Talvez. — Milena considerou, brincando com seu cosmopolitan. — Mas não tem nada de forçado no jeito que ele me faz gozar, toda vez que transamos. — Enfatizou. — Tampouco nas coisas certas que fala na hora certa.

Suspiros coletivos soaram na mesa.

— E como será o Nic? — Sofia disparou, atraindo todos os olhares para si. — Ah, vai me dizer que ninguém aqui nunca tirou nem uma casquinha? Com exceção da Milena, é claro.

— Sua dúvida é a de todas nós. — Bruna acrescentou, e a vontade de me gabar a respeito, veio com força. Mas eu a mandei embora, junto com um gole generoso da caipirinha. Ela ainda acrescentou. — Nic é uma incógnita.

— Ele é fofo demais. — Sofia elogiou, como se ninguém tivesse percebido o olhar fascinado dela para quando nosso amigo estava junto.

— Se ele se dedicar a uma mulher como lambe uma tampa de iogurte… — Deixei escapar. Talvez fosse reflexo da bebida.

— Karla! — Duas ou três vozes soaram surpresas.

— Ai gente, perdi a conta de quantas vezes dormi na casa da Mi. Isso inclui alguns cafés da manhã — expliquei, apesar de a cena em questão ter acontecido no meu apartamento, quando estava sozinha com ele, seu humor picante, e seu corpo delicioso me deixando entrever uma ereção de dar água na boca.

Deus!

Sequei o copo de caipirinha, me preparando para pedir outra.

— Hum, ele é desses é? Lambe devagarinho, deixa limpinho? — Bruna piscou de um jeito sugestivo.

— Acho que vou dar um pulinho no banheiro para que vocês possam avaliar meu irmão nesse quesito.

— Eu tirei uma casquinha. — Lia soltou de repente, silenciando todas nós e fazendo Milena voltar a sentar. Óbvio que a curiosidade era geral, mas talvez a minha fosse maior. Queria saber a sua versão da história. — E foi maravilhoso. — Suspirou com um brilho nos olhos, ao que quase me engasguei. Em seguida os fechou. — Não, foi horrível!

— Decida-se! — Bruna pressionou, nada sutil.

— Foi maravilhoso sentir os lábios dele, mas foi horrível porque ele não correspondeu.

— Ah, Lia! — Milena lamentou.

— Conta essa história direito. Não tem essa de pôr só a cabecinha.

— Eu me declarei pra ele — esclareceu à Bruna, em seguida olhou para mim. Na certa por conta do seu desabafo há alguns meses.

Milena cochichou comigo.

— Você sabia disso?

— Não! — Menti para minha melhor amiga. Se Nic não contou, por que eu deveria? E admitir que sabia, principalmente ali, seria injusto com Lia.

— No dia do jogo, do seu tornozelo? — Milena perguntou cautelosa.

— Foi. Ele contou?

— Não, amiga. Mas todos desconfiaram.

— Ah, que horror!

— Ei, não tem nada do que se envergonhar. Você fez o que achou melhor. — A tentativa de conforto de Sofia era bem-vinda, mas sabíamos que não era bem assim.

— Ele me dispensou com aquela velha história de que sou linda, inteligente, blá, blá, blá.

— Pelo menos você esclareceu isso. E pode seguir em frente. — Bruna optou por ser direta.

— Ele foi um querido! Mas eu fiquei tão constrangida, tão revoltada… levou um tempo pra voltar a olhar pra ele como um bom amigo.

Não consegui dizer nada, porque estava preocupada comigo, me imaginando em uma situação como aquela.

Pensar que Nic me dispensaria todo cheio de dedos, tentando ser gentil ao dizer que não correspondia ao meu sentimento, era o suficiente para que eu me mantivesse calada. Supor que toda aquela atenção que ele me dava, e que tinha se intensificado nas últimas semanas, poderia simplesmente evaporar por conta de uma declaração minha, ensaiava um vazio dentro de mim com o qual eu sabia que não conseguiria lidar.

O garçom trouxe meu pedido, e eu afoguei meu amor, meu desejo e meus sonhos, em mais um copo de caipirinha.

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Espero que tenham gostado! ♥

Não esqueçam de me dizer o que vocês estão achando nos comentários, e de convidar as amigas! Quanto mais vocês interagirem, maior a probabilidade de eu liberar capítulo bônus!!

Os capítulos serão postados às sextas-feiras, podendo haver capítulo bônus na semana dependendo da interação de vocês.

Então chamem as amigas para curtir essa história!

Boa diversão e até a semana que vem! ♥

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