Nossa Razão / Capítulo 19

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Capítulo 19

Nic

Não sei dizer o que me acordou, mas sei que o som de conversas, vindo não sei de onde, não me permitiu voltar a dormir.

Achei ter ouvido a voz de Milena, e resolvi conferir as horas no celular. Sério que ela estava de papo com alguém quando já passava da meia noite? Descartei a ideia de que fosse com Gael. Àquela hora, ele estava no auge do batente. Algo na TV talvez?

Levantei-me, mal-humorado, e abri a porta, me deparando com ela parada no corredor, olhando para dentro do próprio quarto.

— Quem tá aí? — perguntei, esfregando os olhos, vendo-a olhar para mim relativamente assustada.

— Karla.

Pisquei repetidamente, me perguntando se ouvi direito. Até onde me lembrava, Karla ia sair com Toni para comemorarem a sós seu aniversário — coisa que me atormentou por todo o dia. Isso queria dizer que se ela estava ali, tinha alguma coisa errada.

Minha irmã não me impediu quando entrei em seu quarto de forma apressada e ansiosa. E quando me deparei com Karla sentada ao pé da cama, os braços ao redor do corpo como se estivesse se protegendo, e os olhos molhados, meu mundo ficou em suspenso. Por um instante tive medo de perguntar.

Fui até ela, abaixando-me à sua frente.

— O que aconteceu? — perguntei, tentando firmar a voz diante do medo de ouvir o que não queria.

Ela não respondeu, só enxugou uma lágrima com as costas da mão e balançou a cabeça, como se quisesse dizer que não era nada.

— Karla! Me conta! — Insisti. Óbvio que não era uma coisa qualquer. E não eram só suas lágrimas que diziam isso. Sua expressão, a tensão do seu corpo, o medo e a decepção estampados em seu rosto.

— Por que os homens insistem em nos decepcionar? — falou baixinho, mas com indignação na voz.

— Porque somos uns babacas egoístas.

Milena riu baixinho, sentando-se ao lado da amiga.

— Não tô falando de você!

— Talvez não agora, mas sei que já fiz merdas que certamente magoaram alguém.

Ela ergueu os olhos para mim, e odiei ver a tristeza estampada neles.

— Você alguma vez tentou forçar uma garota a transar com você?

Parei de respirar um minuto, sentindo todo o meu corpo tensionar diante da raiva e apreensão. Não era preciso perguntar quem era o filho da puta. Toni!

A vontade inicial era xingar o desgraçado antes de sair à caça dele. Mas Karla precisava de mim. Minha amiga, a mulher que me tirava o sono, que fazia meu coração bater acelerado e meu corpo tremer de desejo, precisava que eu fosse sensato e presente naquele momento.

— Pega um copo de água com açúcar pra ela — pedi à Milena, sem tirar os olhos de Karla.

— Não quero — Dispensou, de um jeito teimoso.

— Pega, Mi! — Falei firme, vendo minha irmã ir em busca do que pedi. — Ele… — Parei, respirando fundo e a observando mais atentamente.  — Ele te…

— Não! — Antecipou-se em responder aquilo que não consegui verbalizar. — Mas precisei empurrá-lo e…

— Você bebeu alguma coisa? — interrompi, lembrando-me do acontecido na balada no Jurerê.

— Não achei que não pudesse fazer isso com o meu namorado! — retrucou, se armando em defesa.

— Calma! Eu quis dizer se você sentiu que ele te deu alguma coisa diferente pra beber — esclareci, falando devagar e finalmente pegando suas mãos nas minhas, receoso de que o contato pudesse lhe trazer alguma sensação ruim depois do ocorrido.

— Não. Não chegou a ser tão cafajeste — murmurou, apertando minhas mãos. — Não fiz nada para incentivá-lo, Nic. Até minha roupa estava bem-comportada, olha!

Odiei ela falar aquilo. Odiei que talvez ela tenha se preocupado com isso antes mesmo de sair com ele. Odiei que em algum momento ela pudesse estar se colocando como culpada.

— Você poderia estar nua que não daria a ele o direito de desrespeitar sua vontade, Ka. — Odiei também a imagem que se formou na minha cabeça. — Nem se atreva a alimentar esse tipo de pensamento machista.

Milena voltou, entregando o copo à amiga, que relutante deu um pequeno gole.

— Conta como você o deixou caído no chão.

— Como é que é? — Olhei confuso de uma para a outra, notando o ar satisfeito no rosto de minha irmã.

— Eu acertei as bolas dele. — Karla explicou. — Com toda a força que pude.

Não tive como não sorrir, orgulhoso dela.

Afaguei sua bochecha, recebendo em troca um sorriso fraco.

— Nada como a destreza de uma bailarina!

Ela deu mais um gole na água, pensativa, antes que eu tirasse o copo de suas mãos e me acomodasse ao seu lado.

— No final parece que você tinha razão a respeito dele — murmurou constrangida.

— Nunca quis estar tão errado em toda a minha vida.

Karla virou o rosto para olhar de frente para mim e tudo o que eu tinha vontade de fazer era beijá-la.

Milena estava ali ao lado, praticamente uma espectadora invisível, e eu já não me importava mais em estar demonstrando o que sentia por nossa amiga.

— Por que todos os homens não podem ser como você? — Karla reclamou, deitando a cabeça no meu ombro, o que me deixou mais tranquilo quanto a abraçá-la, a afagar seu cabelo e trazer um pouco de descontração para o momento.

— Porque algumas mulheres não merecem homens como eu.

Ela bufou, e eu sabia que ouviria uma de suas costumeiras críticas.

— Isso foi arrogante e cretino.

— Eu sei! Mas não seria eu se não falasse algo do tipo, concordam?

Ela e Milena riram.

— Toda mulher merece um homem bom. — Minha irmã contradisse.

— Suzana é um bom exemplo de mulher que não merece alguém que se dedique.

As duas silenciaram em concordância.

— Estava indo te chamar pra levar ela pra casa. — Milena olhou para mim, preocupada. 

— Eu disse que não queria. — Karla retrucou, saindo do aconchego de minhas mãos.

— Ainda bem que minha irmã tem juízo.

— Tá querendo dizer que eu não?

— Tô querendo dizer que para certas coisas, não vou te dar escolha. E isso inclui quando a sua segurança está em jogo.

Arrogante meu tom? Talvez! Mas agora que o caminho estava livre novamente, eu não a deixaria escapar. Daria a ela alguns dias apenas, para assimilar o que houve, se recuperar e deixar no passado. E isso me deu uma ideia.

— Se eu conseguir reservar um lugar para o réveillon, longe daqui, vocês vêm comigo? — Olhei para as duas.

— Em cima da hora? — Milena duvidou. — Difícil encontrar alguma coisa, Nic.

— Mas se eu achar? Posso contar com a companhia de vocês? Incluindo o Gael, é claro.

— Essa época é uma pequena fortuna, mano. Você sabe que ele não tem cacife pra isso.

— Eu pago — falei depressa, pedindo com o olhar para que minha irmã fizesse uma forcinha para que aquilo acontecesse. Tinha a impressão de que comigo, sozinha, Karla não aceitaria. — Melhor, presente de Natal pra vocês. Não sabia o que dar mesmo. Acho que seria bom para todos nós respirar um ar diferente, mesmo que só por dois dias.

A piscadela e um sorriso malicioso de Milena me diziam que ela pescou minha intenção.

— Acho que consigo convencer meu gato!

— Tá podendo, hein? — Karla ironizou, sem responder ao meu convite.

— Mais de um ano sem namorada. Deu pra fazer uma poupança gorda.

— Cretino! — Ela me deu um leve empurrão.

— Imbecil! — Milena completou.

— É sério! Vocês mulheres custam caro. Jantares, flores, presentes, motel.

— Algumas mulheres valem o preço! — Karla retrucou, parecendo mais relaxada.

— Por isso mesmo tô chamando duas delas para virem comigo — revidei, olhando diretamente para ela. E acho que vislumbrei uma expressão fascinada.

— Nossa Nic. — Milena suspirou. — Não é à toa que as minhas amigas babam por você.

— Todas elas? — Eu ainda tinha Karla sob a minha mira.

— Tenho a impressão de que não escapa uma!

***

— Obrigada, Nic. — Karla murmurou quando estacionei em frente ao prédio.

— Espera que vou te acompanhar — avisei, vendo-a desafivelar o cinto de segurança.

— Não precisa. E depois, se meus pais virem você, vão…

— Você precisa contar a eles, Ka — Interrompi.

— Claro que vou. Amanhã, na primeira hora. — Olhei fixo para ela. — Prometo, Nic!

— Tudo bem. De qualquer forma, vou com você até a porta, ok? — Afirmei, incapaz de ignorar a sua segurança e a minha preocupação.

Ela acabou cedendo, e eu a conduzi até o apartamento, trocando poucas palavras pelo caminho. Aliás, todo ele, da minha casa até ali, foi um pouco estranho. Um estranho gostoso, eu diria, com aquela tensão estimulante.

— Obrigada mais uma vez! — Sussurrou à porta, desconfortável ainda com tudo o que houve.

— Fica bem! E me chama pra qualquer coisa, a qualquer hora, entendeu?

Ela sorriu e dei um beijo em sua testa, controlando-me para não descer para a sua boca.

Só mais alguns dias. E eu sei que a terei para mim!

E pensando nisso, mal entrei no carro novamente, digitei uma mensagem para ela.

N – Que tal praia amanhã? Só nós quatro?

K – Tá querendo me distrair?

N – Te mimar. Porque você merece.

Um vácuo de um minuto. Mas eu sabia que ela estava lá, considerando minhas palavras, minha sutil sedução.

K – Você anda lendo romances Nic?

N – Duvido você encontrar um mocinho como eu nesses livros que lê.

K – E eu não perco a mania de alimentar seu ego, não é mesmo?

Comecei a digitar que ela alimentava meu coração, mas achei que era precipitado, então apaguei e digitei novamente.

N – Passo para te pegar às onze. E me promete que vai contar aos seus pais.

K – Prometo! Até amanhã, Nic!

***

— Como ela está? — Perguntei ao tio Davi e a tia Alice, quando Karla foi buscar suas coisas no quarto. Eu queria saber a verdade, e não aquela fachada que ela apresentou quando cheguei ali e conversamos rapidamente sobre o ocorrido. Claro que eu me certifiquei de que ela havia contado o episódio aos pais, quando enviei uma mensagem logo cedo.

— Melhor do que eu esperava. — A professora me entregou uma caneca com café preto. — Karla é forte, mas meu medo é que ela se feche, por vergonha ou sei lá o quê, e acabe transformando isso em algo mais sério.

— Continuo não concordando em não registrar ocorrência. — Tio Davi recriminou, o semblante fechado, preocupado.

Não toquei naquele ponto ontem à noite, mas pensei sobre.

— Você sabe que infelizmente ela tem razão. — A esposa sussurrou, olhando rapidamente na direção do quarto da filha. — Não há evidências físicas. Não há testemunhas. Ele era o namorado. Ela é negra! Quer que eu enumere mais algum item para que nossa filha seja submetida a uma humilhação, sem nenhuma consequência para o cara?

— E vai ficar tudo por isso mesmo?

— Vai! E nós vamos agradecer a Deus que ele não conseguiu o que queria.

Eu entendia a revolta do tio Davi, mas também entendia o medo da tia Alice. E sinceramente, acho que concordava com ela, mesmo que aquilo me destruísse um pouco.

— Ela nos falou a respeito do seu convite para o Ano Novo. — Ele comentou, um pouco menos tenso.

— Desculpe se estou estragando a programação de vocês. Só achei que seria bom pra ela. Para todos na verdade. Foi um ano complicado. E como vocês viajam só alguns dias depois…

— Tá tudo bem, Nic. — Tia Alice sorriu, aprovando a ideia.

— Vou cuidar bem dela, fiquem tranquilos — assegurei.

— Sabemos que sim. — Tio Davi também sorriu, mas de um jeito diferente. Meio cismado, eu acho. — Às vezes me pergunto se você não cuida dela melhor do que nós.

— Que isso! — Pigarreei, um tanto desconfortável com aquela incisiva dele.

— Pelo menos você passa muito mais tempo ao lado dela.

Ele não deixava de ter razão, mas colocado daquela maneira, parecia quase errado. Por sorte, Karla voltou, me livrando de ter que fazer qualquer comentário.

— Pronta? — Olhei para ela, tentando ser discreto na frente de seus pais, mesmo que sua figura, lindamente vestida em uma saída de banho, me causasse aquele habitual comichão.

Ela assentiu, se despedindo dos pais com um beijo.

— Eu estou bem. De verdade. E Nic não vai tirar os olhos de mim, fiquem tranquilos.

Nisso ela tinha razão. Mesmo que eu quisesse, não conseguiria.

— Conseguiu dormir? — perguntei, já a caminho da praia.

— Demorei um pouco — disse apenas, parecendo levemente constrangida.

Eu não queria forçá-la a nada, muito menos a falar sobre o ocorrido, mas queria que ela soubesse que podia contar comigo.

— Sinto muito, Ka. De verdade. Nenhuma mulher merece isso, muito menos você!

Ela esboçou um sorriso desgostoso, olhando para fora.

— No final ele só queria o que todos querem. Um corpo! Dessa vez, o meu.

O reconhecimento daquele fato fez meu sangue ferver. O filho da puta só fez reforçar algo que, para ela em especial, era relativamente complexo, com o qual ela lidava com bastante dificuldade.

— O idiota não faz ideia do que perdeu — resmunguei, e ela virou para me olhar, intrigada. — Você é muito mais do que um belo corpo, Karla.

— Obrigada, Nic! — Aceitou o elogio, tocando minha mão sobre o console, que me apressei em segurar.

Eu queria dizer mais coisas a ela. Como eu a valorizava como pessoa, como amiga, como mulher. Como eu amava seu sorriso, nossas brigas bobas, e todos os momentos que passávamos juntos. Porém, queria fazer isso do jeito certo. E a virada do ano, e o que eu estava planejando, me parecia a oportunidade perfeita. Só por isso estava me segurando. Para tornar aquele momento, algo especial na sua vida. Nas nossas vidas!

Brasilera – Dvicio

Se todas as pessoas pensassem o mesmo

Eles tiram sarro de você por ser diferente e se sentir diferente

Você nasceu brava, você nunca viveu

Pendente para ser como todo mundo

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Espero que tenham gostado! ♥

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Os capítulos serão postados às sextas-feiras, podendo haver capítulo bônus na semana dependendo da interação de vocês.

Então chamem as amigas para curtir essa história!

Boa diversão e até a semana que vem! ♥

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