Nossa Razão / Capítulo 18

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Capítulo 18

Karla

Por que eu não estava nem um pouco empolgada em uma comemoração particular com o meu namorado?

Você bem sabe, Karla!

Tudo que tentei frear em relação a Nic, desde o beijo que aconteceu em sua sala, veio à tona ontem à noite.

Por que ele tinha que ser tão atencioso, tão presente, tão lindo? E beijar daquele jeito? Eu ainda conseguia sentir seus lábios, suas mãos, e a massa disforme em que me transformei depois daquele beijo. E culpa também, é claro.

Acusei Nic de me colocar em uma situação constrangedora, mas como eu poderia recriminá-lo se sucumbi a ele? Ao desejo, à vontade de sentir seu gosto, de ser totalmente dele?

Passei vários dias tentando entender por que ele fez o que fez. O que o motivou a me beijar daquele jeito, sabendo que eu tinha um namorado? E tudo o que vinha em justificativa eram suas palavras: Não pensei! Como se aquilo dissesse alguma coisa! Mas sei o que senti, como também sei o que Nic sentiu. E acho que foi o que mais me assustou. O ímpeto, a urgência, a entrega, me deixando confusa, esperançosa e com medo.

Sabia que devia esquecer que aquilo aconteceu. Eu tinha um namorado, porra! Era injusto fazer aquilo com Toni. Era injusto que Nic tivesse feito aquilo comigo. Por que agora? Por que não antes? Talvez lá atrás eu me permitisse arriscar nossa amizade.

Balancei a cabeça, como que para afastar aqueles pensamentos inconvenientes, tratando de me arrumar, buscando um entusiasmo que não sentia. Toni disse que ia me levar em um lugar onde também pudéssemos dançar, e isso ajudava bastante para que eu depositasse um sorriso no rosto e me mostrasse satisfeita.

Não estava querendo chamar a atenção, então escolhi um vestido preto, de decote redondo, que cobria minhas pernas até um pouco acima do joelho. Caprichei nos acessórios, para quebrar um pouco da seriedade da roupa, e não dispensei um salto alto. Estava discreta, mas bonita. E o resultado parece tê-lo agradado, pois seu olhar se acendeu de imediato, assim que me viu.

— Tá linda! — disse, beijando-me demoradamente assim que entrei no carro.

Nosso destino ficava no centro da cidade. Era um lugar frequentado por muita gente bonita, com um espaço gastronômico delicioso A programação principal era marcada por rock, blues e reggae, o estilo de música que eu gostava bastante.

Apesar da cara fechada ontem, particularmente depois de Nic tocar a minha música, hoje Toni estava amável e sorridente. E acho que eu nem podia julgá-lo muito, afinal, qual homem se sentiria confortável ao escutar outro cantando para a sua namorada, algo que parecia tão íntimo?

Sorri quando ele indicou a nossa mesa, tratando de esquecer aquela pulga atrás da orelha que me importunou pelo resto da noite de ontem: Nic demonstrando coisas que não só não condiziam com a nossa amizade, mas que também me faziam repensar tudo o que vivemos até aqui.

Pedimos uma bebida, e assim que o garçom se afastou, Toni trouxe o corpo mais para perto, no pequeno sofá.

— Então, gostou do presente? — falou junto ao meu ouvido antes de depositar um beijo leve no meu pescoço.

— Adorei! — respondi, virando o rosto para ganhar um beijo na boca. — Era muita comida!

A cesta de café da manhã que ele me enviou era recheada de gostosuras, que claro, não dei conta de comer de uma vez só. O acompanhamento — um robe branco, de cetim — era lindo, mas talvez meio prematuro para a nossa relação.

— Era para duas pessoas — esclareceu.

— Ah! — sorri, me fazendo de boba para a indireta.

— E o outro presente? Chegou a provar? — Deslizou um dedo pelo meu braço nu.

— Sim, lindo!

— Imagino que tenha ficado perfeito em você. Aliás, poderia ter me enviado uma foto, só para confirmar.

Não soube o que responder àquele apelo, e dei graças que nossas bebidas chegaram para me dar tempo para pensar.

Não tínhamos ainda essa intimidade que Toni estava sugerindo, e eu não sabia realmente como dizer a ele que não estava nesse estágio. Quer dizer, estávamos namorando, então os beijos aconteciam a todo momento e suas mãos frequentemente ensaiavam carícias cada vez mais ousadas, porém eu ainda não me sentia pronta, se é que algum dia estaria. Faltava conexão e um pouco de confiança, eu acho. E não é como se eu não tivesse o direito de fazer as coisas no meu tempo, bem como lutar por isso, mas a maioria das garotas se entregar já no primeiro encontro, não facilitava muito minha defesa.

— Gostou do encontro ontem? — perguntei, tentando direcionar a conversa para algo mais trivial.

— Não fazia ideia de que a família da Milena fosse tão chegada à sua — respondeu, tomando um pouco de distância para dar um gole na sua bebida.

— Eu disse a você que a gente se conhece desde criança. É quase como uma família só.

— Deu para perceber. — Fitou-me com a expressão um tanto contrariada. — Quase me senti deslocado, me perguntando se não estava sendo demais ali.

— Não fale assim! — Beijei-o levemente, a culpa me assolando. — É só uma questão de tempo até você se sentir em casa.

Toni ensaiou um sorriso, pegando minha mão. Ele era um cara legal, carinhoso e parecia gostar mesmo de mim. O problema era que o que eu sentia por ele, não evoluía.

— Adoro essa música — comentei ao ouvir um sucesso antigo tocar.

— Vem, vamos dançar. — Puxou-me pela mão e o segui.

Dançamos algumas músicas, pedimos mais bebida e petiscos, alternando tudo isso com conversa e beijos, os quais foram se tornando mais exigentes, e suas mãos, mais entusiasmadas, conforme a noite avançava.

Para tentar frear um pouco daquele ímpeto de Toni, disse que eu precisava ir ao banheiro. E, deixa eu dizer para vocês: Às vezes, essa pode ser uma boa desculpa para interromper ou fugir de alguma coisa, em outras, pode ser sua condenação.

Toni quis me acompanhar, e até aí tudo bem. Um gesto gentil, cuidadoso. E sabe aquele momento nos livros, em que a mocinha deixa o recinto e o mocinho está lá esperando por ela, para prensá-la contra a parede e roubar aquele beijo que nós leitoras tanto esperamos? Foi mais ou menos o que aconteceu. O detalhe é que eu não era a mocinha ansiosa por aquilo. Nem Toni, o mocinho dos livros.

— Fiquei sonhando com você vestida só com aquele robe. E eu a despindo dele. — Sussurrou quando seus lábios deixaram os meus, depois de um beijo tomado de impaciência.

— Toni. Por que não voltamos para a mesa? — Pedi em um tom delicado, tentando impor alguns centímetros de distância.

— Ah, você tem um cheiro maravilhoso. — Inspirou junto ao meu ombro, correndo os lábios pelo meu pescoço. — Tô louco pra ter você, gata. Vamos pro meu apartamento?

— Não Toni…

— Ah, essa pele macia. Quero beijar você todinha.

— Toni, por favor…

Suas mãos apertaram minha cintura antes que uma delas descesse para o quadril, apalpando a lateral da minha bunda.

— Gostosa! — Gemeu, segurando-me junto a parede, esfregando-se em mim enquanto a mão descia e se infiltrava por baixo da saia.

Apertei as pernas, uma contra a outra, em uma tentativa de impedi-lo de seguir adiante naquele contato.

— Toni, não! Eu não quero! — falei alto e claro, não me importando se alguém ouviria. Na verdade, eu torcia para que isso acontecesse.

— Quer sim. — Segurou meus braços com força, dificultando meus movimentos. — Aposto que tá molhadinha. Deixa eu sentir, vai.

— Toni, para! — Virei o rosto quando ele tentou me beijar. — Me solta! Você tá me machucando!

— Diz que vai dar pra mim. — Insistiu, forçando com o joelho na tentativa de me fazer abrir as pernas. 

— Já disse que não! — Gritei, mas sem esperança de que alguém me escutasse com a música alta tocando.

Toni me encarou ofegante e enfurecido, certamente com o ego ferido ao ouvir um não bem sonoro.

— Tá guardando pra quem? — Sorriu maldoso, apertando-me mais, e eu desconfiava que ficaria com os braços marcados. — Para o seu amiguinho? Pensa que não percebi o jeito que olha pra ele? Acha que ele vai te tratar como você quer? Vai é te usar, como usou aquelas duas.

Aproveitei a distração dele, enquanto despejava sua inveja de Nic, e mirei meu joelho no meio de suas pernas, com toda a força que consegui.

O urro de dor veio junto de seu tronco se dobrando, até que ele estivesse ajoelhado, se contorcendo.

Não me pergunte de onde veio a coragem para aquele gesto, mas estava feliz por tê-lo feito, por ter me defendido. E perceber aquilo me fez ir em frente e demonstrar toda a minha indignação.

— E você tá querendo fazer o quê comigo? Acha que porque estamos namorando, sou obrigada a transar com você? Aliás, você era meu namorado. — Despejei, enquanto ele ainda estava no chão. — E não que eu precise explicar alguma coisa a você, mas Nic nunca me trataria desse jeito.

Ainda tremendo, pelo medo de me ver em uma situação como aquela, e de raiva por não ter percebido antes que ele era esse tipo de homem, deixei-o, caminhando apressada para a saída, querendo me ver longe dali o mais rápido possível.

A visão de um táxi de cooperativa estacionado do outro lado da rua resolveu meu problema imediato: tirar-me daquele lugar. Só que eu não queria ir direto para casa. Não podia aparecer daquele jeito na frente dos meus pais. Ainda que eles estivessem dormindo àquela hora, eu não arriscaria cruzar com a minha mãe no caminho para o meu quarto, como normalmente acontecia quando chegava mais tarde em casa e ela se levantava para ver se estava tudo bem.

Só que também não ia ficar vagando no carro de um desconhecido, por sabe-se lá quanto tempo. Então apelei para a pessoa que não me negaria apoio naquela hora.

K – Tá acordada?

Milena respondeu minha mensagem de imediato.

M – Esperando o intervalo do Gael para dizer boa noite. Pq vc tá on-line quando deveria estar aproveitando a noite com o Toni?

K – Posso ir aí?

M – Ah, merda!

Digitou, obviamente entendo tudo.

M – Claro que pode. Nem precisa perguntar. Onde vc tá?

K – Dentro do táxi. A caminho.

M – Quanto tempo até chegar?

K – Uns dez minutos, acho.

M – Te espero na porta.

K – Não quero acordar ninguém, Mi.

E com isso eu me referia principalmente a Nic.

M – Fica tranquila.

Ela devia estar na janela, espiando, pois assim que o táxi estacionou, vi a porta abrir e ela surgir, caminhando em passos rápidos para abrir o portão.

Eu ainda estava inteira, acho. As lágrimas foram engolidas durante todo o trajeto, mas quando vi minha amiga, não fiz mais força para segurá-las.

— Ah, Ka! — Abraçou-me, sussurrando. — O que esse merda fez?

— Lá dentro! — Funguei, andando ao seu lado, agradecendo o silêncio no interior da casa, sinal de que éramos só nós duas acordadas.

Quando Milena fechou a porta do quarto e me abraçou, eu me permiti soluçar. Ela sabia que eu precisava de uns minutos antes de começar a falar.

Minha amiga me ouviu em silêncio, sentada ao meu lado na beirada da cama, deixando que eu contasse tudo antes de fazer qualquer comentário.

— Sinto muito, amiga! — Lamentou, enxugando meu rosto com a ponta do lençol.

— Nunca me imaginei passando por esse tipo de coisa.

— Ninguém imagina. E isso tem se mostrado tão comum que nos faz questionar essa coisa toda de relacionamento.

— Desculpe vir aqui, mas eu precisava me acalmar antes de voltar para casa.

— Fez bem. — Apertou minhas mãos e me olhou de um jeito conspirador, como quando éramos meninas bolando alguma coisa. — Quer dormir aqui?

Quase sorri.

— Não posso. Eu disse aos meus pais que estaria de volta até as duas. Se não aparecer vou ter que dizer o motivo. E não quero estragar a noite deles com isso.

— Mas você precisa contar o que aconteceu! — Seu alerta era quase uma ordem.

— Amanhã, com calma.

— Certo. — Assentiu, abraçando-me mais uma vez antes de se levantar. — Então vou chamar o Nic pra te levar embora.

— Nem pense nisso. — Adverti. — Vou chamar um táxi.

Ela se voltou para mim com aquele ar de deboche, já abrindo a porta.

— E sujeitar nós duas ao sermão dele?

— Nic nem precisa saber que eu estive aqui.

— Ah, amiga, até parece que você não o conhece. Ele sempre sabe!

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Os capítulos serão postados às sextas-feiras, podendo haver capítulo bônus na semana dependendo da interação de vocês.

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Boa diversão e até a semana que vem! ♥

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