Nossa Razão / Capítulo 17

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Capítulo 17

Nic

Não, não foi apenas um beijo. Foi a consumação de algo que eu desejava tanto, que realmente não pensei nas consequências. Ok, não era nada tão sério se pensarmos que estávamos completamente vestidos e só nossas bocas se tocaram. Tudo bem, houve minhas mãos apertando sua cintura e meu corpo pressionando o seu contra a parede, assim como seus braços enlaçando meu pescoço. Mas tudo aquilo era uma ínfima parte do que eu queria. E cá entre nós, ela também.

Karla poderia negar até a morte, mas eu sabia que não tinha sido o único a sentir aquela conexão, aquele arroubo de paixão. Ela se entregou ao beijo, mesmo que por um breve momento, só até, provavelmente, se tocar de como aquilo poderia parecer errado, já que havia um namorado naquela história.

E não é como se eu não quisesse convencê-la de que não havia nada de errado em se render à atração que obviamente existia ali, entre nós, mas eu não podia. Justamente por conhecê-la tão bem e saber de todos os seus princípios é que eu precisava dar a ela essa decisão. Talvez com qualquer outra mulher eu não agisse assim, mas Karla era especial demais para que eu simplesmente ignorasse todas as suas vontades.

Quem sabe eu devesse pedir desculpas pelo que fiz. Ao mesmo tempo, me parecia ridículo fazer aquilo. Seria quase como confessar que estava arrependido, certo? E depois, o que eu justificaria? Que a discussão acalorada me excitou? Que perceber seu ciúme em relação àquelas duas mulheres inflou meu ego ao ponto de eu querer provar a ela o que estava perdendo? Que eu a queria para mim, e que se danasse o tal namorado?

Não! Eu seria um cretino se confessasse tudo aquilo, só agora.

Os dias seguintes àquele episódio em minha sala foram realmente estranhos. Não tocamos no assunto, mas ele estava lá, pairando entre os olhares furtivos e sem graça. Era quase como se tivéssemos combinado que aquilo não aconteceu.

Diante das circunstâncias, confesso que me surpreendi quando ela me convidou para o seu aniversário.

— Sexta à noite, lá em casa — Explicou, não muito confortável.

— Por que não no sábado? — Questionei, afinal aquele era o dia do seu aniversário.

— Vou comemorar com o Toni.

Foi quase como se tivesse recebido um tapa na cara.

Respirei fundo e sustentei seu olhar.

— Quer mesmo que eu vá?

Seus lábios se distenderam alguns milímetros, em um ensaio de sorriso inseguro.

— Gostaria muito de ter meu amigo comigo.

Era a deixa para uma trégua, eu acho. Um acordo de paz, que eu iria aceitar e dar o meu melhor para tê-lo, bem como minha amiga de volta.

— Já disse que eu odeio quando a gente briga?

— Eu também! Mas parece que não faz muita diferença, não é?

***

Não era exatamente uma festa. Mais uma reunião para poucos amigos e a pequena família de Karla.

Milena e Gael insistiram para que eu fosse com eles. Meus pais também. Eu queria chegar sozinho, ter um minuto que fosse só eu e a aniversariante. E acho que consegui, quando ela foi me receber à porta do salão de festas.

— Ei! — murmurei assim que a vi, tentando ser discreto ao admirá-la em um vestido rosa claro, que realçava suas curvas de forma sutil. — Ouvi dizer que tem uma gata completando vinte e um aninhos aqui.

— Sério? Vamos procurá-la então.

Apesar da brincadeira, o sorriso era tímido, constrangido.

— Parabéns, Ka! — Estendi-lhe uma pequena caixa.

— Obrigada, Nic!

Ela se deixou abraçar, mas eu pude notar certa relutância quanto ao contato. Claro que eu não avançaria para qualquer coisa diferente do nosso habitual, mesmo que fosse difícil tê-la em meus braços, perceber o contorno suave do seu corpo, sentir seu perfume, e manter a farsa de melhor amigo.

Depositei um beijo em sua bochecha, e ela baixou rapidamente os olhos, abrindo o embrulho.

— Oh Nic! É lindo!

— Brilha, brilha, estrelinha! — Cantarolei, enquanto ela admirava o pingente no formato de uma bailarina segurando uma estrela na mão. — Que a sua vida seja uma sucessão de momentos felizes, Ka!

— Nunca vi um pingente igual a esse. — Ergueu-o em frente ao rosto.

— Eu bem que procurei. Aí tive a ideia de mandar fazer.

— Sério?

O brilho em seus olhos se ampliou diante da revelação.

A pequena bailarina tinha a saia coberta por minúsculas pedras brilhantes, que contrastavam com a silhueta preta da dançarina.

— O joalheiro gostou tanto que disse que ia replicar. Claro que eu falei que os royalties seriam meus. — Brinquei.

— Amei! — Exultou, abraçando-me novamente, agora menos insegura. 

— Posso ver o que te deixou tão alegre?

Toni deu a graça da sua presença, estragando o momento. Mas eu havia prometido a mim mesmo que seria o mais polido possível.

— Como vai, Toni? — Estendi a mão, para a qual ele olhou rapidamente antes de apertar.

— Olha que lindo! — Karla mostrou o presente, radiante.

— Uma bailarina. — Ele certamente não compartilhava do mesmo entusiasmo.

— Pra relembrar meus momentos. — Piscou, segurando o pingente junto ao peito.

— Você dançava?

Então ele não sabia desse detalhe?

— Dos cinco aos quatorze anos. Karla se destacava. — Fiz questão de exibir a minha participação na vida dela.

— Porque eu era a única menina negra em uma turma de “bonecas de porcelana”.

— Também! — Concordei. — Mas não foi esse o motivo de ser a única a ter uma apresentação solo na turma de dois mil e onze. Foi o seu talento que a fez brilhar sozinha naquele palco.

Karla nada falou, mas sua expressão era o suficiente para que eu entendesse sua surpresa por me lembrar tão bem dos fatos.

— Você trouxe o violão! — Mudou de assunto, apontando o instrumento pendurado em minhas costas. — O que vai aprontar?

— Sua tia pediu. — Dei de ombros. — Não sei o que ela tem em mente.

— Hum, na certa, te fazer pagar mico.

— Não sozinho. Carrego ela junto.

Toni pigarreou, chamando a atenção para a sua presença ali, e, em consideração a Karla, pedi licença, dizendo que precisava cumprimentar os demais convidados.

Tia Alice me encontrou no caminho, calorosa como sempre.

— Nic querido! — Abraçou-me, direcionando em seguida o olhar para a filha. — Ela não está linda?

— Ela é linda! — corrigi, recebendo um sorriso orgulhoso.

— Ah, o tempo passou tão rápido. — Enganchou a mão no meu braço, enquanto caminhávamos até o grupo que reunia os convidados mais experientes. — Lembro como se fosse ontem, vocês três, crianças, correndo pra lá e pra cá. E olha só… Adultos, donos de suas vidas.

— O privilégio de amadurecer não é só seu.

Ela me olhou divertida, então depositou um beijo no meu rosto.

— Jeito bonito de dizer que estamos ficando velhos. — Piscou. — Como você está? Karla não tem tocado muito no seu nome.

Aquela informação atingiu-me como um golpe. E é claro que eu não mencionaria a situação, mas achava certo tranquilizá-la.

— Andei pisando na bola.

Minha confissão interrompeu seus passos, o que me fez parar ao seu lado.

— Você? Com a Karla? — Estudou-me desconfiada.

— Pois é.

— Por que não consigo visualizar isso?

Baixei o olhar, culpado.

— Às vezes a gente se perde entre o certo e o errado, entre o querer e o poder.

Balançou a cabeça, acredito que em compreensão.

— Somos humanos, Nic.

— Já me desculpei. — Apressei-me em explicar.

— Tenho certeza que sim. Bem como ela já relevou, o que quer que seja. — Deu um tapinha no meu braço, e seguimos para o grupo.

Conversei com a turma, ri com as aventuras de Tobias e tentei não olhar muito na direção de Karla. Não que eu não desejasse fazer isso o tempo todo, mas Toni estar praticamente grudado a ela tornava minha adoração inconveniente. Porém, no momento de cantar parabéns, eu me permiti admirá-la.

O sorriso de criança ainda estava lá. Os olhos brilhantes, a expressão leve e feliz, praticamente igual ao dia em que a conheci. Mas os anos acrescentaram à sua beleza, força, equilíbrio e personalidade. E ainda que eu pudesse ser considerado um bunda mole, jamais deixaria de respeitar sua vontade.

— Queria que ela estivesse apaixonada por ele.

As palavras diretas de Jade, que se aproximou sem que eu notasse, me pegaram de surpresa. Talvez, mais pela desconfiança de ela ter visto aquele sentimento em meu rosto, enquanto eu olhava para a sobrinha.

— E não está? — Fiz-me de bobo, enquanto ela seguia observando Karla.

— Conheço minha afilhada — disse apenas, desviando o olhar para mim.

— Então por que ela está com o cara?

Acho que eu já tinha aquela resposta, mas isso não me impediu de querer saber sua versão da história.

— Porque é teimosa. Porque acha que não pode mudar de opinião, rever seus conceitos.

— Não sei se entendi.

— A decisão que ela tomou na festa de quinze anos?

Ah, isso!

— Ela se apegou a essa ideia. — Continuou. — Não se dá conta de que o que importa de verdade, é o que ela quer, não o que a sociedade tenta impor.

— Ela só quer se proteger.

— Sabotando a própria felicidade por medo de se machucar? Só espero que ela não perceba isso tarde demais, quando tiver perdido a chance de fazer a escolha certa.

— Quem disse que ela não está fazendo isso?

— Você sabe que não, Nic!

Não duvidava da preocupação de Jade com a sobrinha, mas algo me dizia que aquela conversa toda era uma pegadinha, para tentar arrancar algo de mim. Algo que pelo visto eu não conseguia mais esconder tão bem. A não ser de Karla.

As vozes, dizendo a aniversariante para fazer um pedido na hora de apagar as velinhas, chamaram nossa atenção. E eu vi seu olhar cruzar com o meu rapidamente antes que ela fechasse os olhos e soprasse forte.

Jade não perdeu tempo, e só esperou aquela bagunça terminar para me colocar na berlinda.

— Nic, cadê o violão? — falou alto, atraindo os olhares para mim.

— Tá a fim de mostrar seu talento?

— Vamos, a aniversariante merece uma música.

Creio que não era uma coisa tão comprometedora, dadas as circunstâncias, eu tocar algo para a Karla. Acontece que só me vinha à mente, músicas que provavelmente delatariam meus sentimentos.

— No que você está pensando? — perguntei, esperando por alguma coisa menos romântica. E me surpreendi quando a sugestão veio do tio Davi.

— Acho que a música dela seria perfeita!

Eu sabia do que ele estava falando.

Lembro-me bem de quando ouvimos aquela música pela primeira vez, no carro do pai de Karla, em uma manhã de domingo, quando íamos para a praia. Eu tinha dezesseis anos e já arranhava no violão. Era um sucesso dos anos oitenta, mas o fato de a letra mencionar o nome da minha amiga, era o bastante para que a cantássemos sem parar. Tornou-se praticamente um Hit nosso. Um tempo depois eu a cantava porque ela também dizia um pouco sobre como me sentia.

— Nesse caso, preciso que as duas me acompanhem. — Apontei para Karla e Milena, que rapidamente negaram. — Deixem de ser chatas e venham aqui. — Indiquei duas cadeiras ao meu lado, e um incentivo quase coletivo — Toni não se incluía ali — acabou por convencê-las.

Um silêncio se instalou para que eu desse início a breve apresentação, e talvez eu tenha sido um tanto atrevido ao olhar diretamente para Karla, quando cantávamos o refrão da música.

Karla With A K – The Hooters

E você sabe, quando eu fecho meus olhos

Você é a única que eu vejo

Oh, Karla, nós podemos fazer isso dar certo se tentarmos

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Espero que tenham gostado! ♥

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Os capítulos serão postados às sextas-feiras, podendo haver capítulo bônus na semana dependendo da interação de vocês.

Então chamem as amigas para curtir essa história!

Boa diversão e até a semana que vem! ♥

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