Nossa Razão / Capítulo 16

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Capítulo 16

Karla

Meu estômago estava embrulhado. E nada tinha a ver com algo que comi. Aliás, desde ontem, ainda no restaurante, eu não colocava nada sólido na boca. E não havia por que me preocupar com uma suspeita de gravidez, já que tinha um bom tempo que não fazia sexo. Mas sim, tinha relação com a atitude daquele que eu esperava nunca me magoar. Ele fez isso ontem, quando saiu abraçado com aquelas duas, tornando a coisa ainda mais dolorida quando me encarou daquele jeito, como se quisesse esfregar algo na minha cara.

Mas o que eu queria? Nic era livre e desimpedido, como afirmou há alguns dias, quando meu ciúme extrapolou e fui rude, insinuando coisas com a Sofia. O que me fez assumir Toni como namorado, mesmo que no fundo eu não estivesse muito certa sobre aquilo. Só queria afrontar meu amigo, e de certa forma me enganar, achando que ter alguém ao meu lado me ajudaria a esquecê-lo.

Ele tinha todo o direito de sair com quem quisesse, fazer o que lhe desse na telha. O que me deixava puta! Puta por não ser eu a escolhida! Puta por não ter coragem de me declarar! Puta porque certamente confundi as coisas, achando que existia algo depois daquele dia em que ele cuidou de mim. Puta porque estava com raiva! De mim e dele. Resumindo, Nic era um idiota! Um idiota culpado pelo meu mau humor.

Ter que cruzar com ele pela empresa, falar com ele, olhar para ele, só tornava tudo mais difícil. Lembra quando disse que um envolvimento com um amigo tornava as coisas complicadas? Acrescente trabalhar com esse amigo.

Mas eu precisava ser adulta e não misturar as estações, certo? Então tomei alguns minutos para respirar profundamente e estabilizar minha mente antes de entrar em sua sala para discutir um assunto da empresa.

— Tem um minutinho?

A forma como Nic ergueu os olhos para mim, foi o start para que eu me tocasse. Minha pergunta era praticamente igual à da piranha que se ofereceu para ele ontem.

Juro que não foi intencional eu falar parecido com aquela vaca. Ainda assim, queria que ele me desse a mesma resposta. Melhor, que dissesse que tinha não apenas um minuto, mas a vida inteira para mim.

Esperei que ele terminasse de me medir de cima a baixo, com uma expressão incompreensível, até que se manifestou.

— Claro!

— O Juarez perguntou se dá tempo de cancelar as férias dele. Parece que a namorada arrumou um emprego e não vai poder folgar.

— Ele não tem férias vencidas? — Quis saber, largando a caneta e se concentrando em mim de um jeito que me levou a desviar o olhar para o papel que eu tinha em mãos. Não que houvesse algo ali para eu ler ou anotar. Era só um pretexto para me sentir menos exposta, eu acho.

— Sim, mas ainda temos tempo até a próxima — respondi, ciente de que ele me estudava.

— Sendo assim, não vejo problema.

— Ok! — Assenti, me encaminhando para a porta.

— Então, você e o Toni, é pra valer!

Wow! De onde veio isso?

Não precisava ser muito esperta para perceber que Nic não gostou de Toni. E vice-versa. A apresentação foi o suficiente para expor isso. O mais engraçado é que lá atrás, ele me incentivou a dar uma chance ao cara.

— Isso é uma pergunta? — Virei-me, tensa, e por que não dizer, confusa.

— Uma vez que você não me contou que era sério, acho que estou querendo confirmar.

Sua dúvida não deixava de ter fundamento. Em outra época, ele seria o primeiro a saber.

— Pensei que tivesse ficado claro, ontem. — Não consegui evitar o tom debochado.

— Ficou. Muita coisa ficou clara — falou devagar, e não sei se entendi a que se referia. — Espero que ele te trate bem.

— Coisa que você duvida que possa acontecer, certo? — Questionei amarga, um tanto cansada com aquela sua arrogância.

— A contar pela forma como fui recebido, não vou negar que tenho um pé atrás.

— Sair com aquelas duas foi só pra se vingar dele, não é?

Arrependi-me antes mesmo de terminar a frase, notando um sorriso convencido se formar nos lábios de Nic. Obviamente fez bem ao seu ego o fato de eu mencionar a diversão a três.

— Na boa, Karla, a última coisa que me veio à mente ao ver aquelas duas beldades, foi o seu namorado.

Cretino!

— Você não precisava falar daquele jeito com o Toni! — Critiquei, mais para desviar a atenção da minha fraqueza emocional.

Nic se levantou, andando até mim com passos precisos, parando bem perto e olhando nos meus olhos.

— De que jeito, Karla?

— Você sabe! — disse, buscando argumentos.

— O que eu sei, é que sim, eu o adverti para que cuide de você, porque não quero te ver machucada. Assim como fiz com Gael, quando se aproximou da Milena. — Seu tom era cauteloso. — Desculpe se me importo com as pessoas que fazem parte da minha vida. E sinto muito que ele seja o tipo de pessoa que recebe tudo com quatro pedras na mão.

— Ele certamente tem seus motivos para ficar na defensiva.

— Acontece que eu não o ataquei.

— Mas deu a entender que…

— O quê, Karla? — interrompeu.

— Que ele não é bom o suficiente como você, porque é negro!

Mal terminei de falar, me dei conta de como soei ridícula.

Seu rosto ganhou um tom rubro que destacava ainda mais os olhos azuis, e sua voz saiu exasperada quando me confrontou.

— É sério que você tá me acusando de preconceituoso? Justo você, que me conhece uma vida? O que é, ele já tá colocando minhocas na sua cabeça, é isso? Chegou agora e tá se achando no direito de julgar pessoas que convivem com você há anos, que te protegem e te defendem?

— Só estou dizendo que você poderia ter dado o seu aviso de outra forma — esclareci, vendo a irritação crescer nele.

Nic levou as mãos ao cabelo, a indignação borbulhando em seu semblante, enquanto ele andava de um lado para o outro da sala, indo e voltando para perto de mim. 

— E de que outra forma você queria que eu dissesse a ele, que se fizer merda com você, vou caçá-lo no inferno? O que ele é? Um homem ou um moleque mimado?

— Você é muito presunçoso mesmo, achando que é o único sobre a face da terra que sabe como tratar uma mulher.

Sua postura mudou, adquirindo aquela autoridade típica quando ele deu mais um passo na minha direção, me fazendo andar para trás instintivamente.

— Posso não ser o único, mas estou entre poucos, e você sabe disso!

— Sei que você bancou o escroto ao deixar claro o que ia rolar, quando saiu do restaurante com aquelas duas. 

Nic se calou por alguns segundos. Então sua expressão suavizou um pouco, e seus olhos ganharam um brilho divertido e vitorioso.

Merda! Por que diabos eu tinha que trazer aquilo de volta para a discussão?

— Hum, então esse é o ponto, Karla! Por que isso tá te incomodando tanto? — Apontou, envaidecido. — Eu me divertir com duas mulheres? Dar e receber prazer?

— Não seja ridículo! — Cuspi, odiando a inveja que bagunçava minha cabeça.

— Tá com ciúmes de que eu possa ter dado a elas a mesma atenção que dou a você? Ou, que elas tiveram de mim o que você nunca teve?

Antes que eu tivesse tempo de me fazer de boba e perguntar sobre o que ele estava falando, Nic se adiantou a me mostrar, ao menos uma prova do que nunca tive, fazendo o impensado, e o muito sonhado por mim.

Sua boca veio à minha ao mesmo tempo em que suas mãos firmaram minha cintura e me empurraram contra a parede, encurralando-me entre ela e seu corpo. Eu tentei, juro que tentei não entreabrir os lábios, porque sabia que se fizesse isso, estaria perdida, mas sua língua foi tão deliciosamente insistente que não resisti, deixando-a adentrar minha boca e explorá-la com maestria.

Seu gosto era divino, uma mistura de algo muito conhecido com um quê de raridade, que eu não conseguia deixar de saborear. Café e canela, talvez!

Senti meu coração acelerar ao ponto de quase escutá-lo bater dentro do peito, enquanto uma espécie de vertigem me deixava mole, obrigando-me a me apoiar nos ombros de Nic. Mas não pude fazer apenas isso. Precisei enlaçar seu pescoço e puxá-lo mais para perto, me perdendo naquele beijo.

Uma energia fora do comum se alastrou pelo meu corpo, arrepiando-me por inteira, me aquecendo de um jeito excitante e ao mesmo tempo, acolhedor. Nada, absolutamente nada comparado ao que eu sentia com os beijos de Toni.

Aquele pensamento fora de hora, porém apropriado, junto de um gemido baixo de Nic, foi como uma campainha soando e me alertando para o errado da situação.

E por mais difícil que fosse, interrompi o contato, empurrando seu corpo com força para longe de mim.

Levei uma mão automaticamente à boca, tocando os lábios inchados, tentando afastar a sensação de vazio que, de repente, se tornava maior do que qualquer ilusão. Enquanto isso, Nic me olhava estranhamente calado, aturdido.

— Por que você fez isso?

Questioná-lo me parecia a forma mais lógica de me livrar de qualquer participação naquilo.

— Karla…

Acontece que o meu nome, sendo pronunciado numa espécie de lamento, trouxe ainda mais remorso para algo que não podia ter acontecido.

— Que merda, Nic! — reclamei, engolindo o nó amargurado que a qualquer momento se transformaria em lágrimas. — Quer me tornar o tipo de mulher que trai o namorado?

— Não, eu… — Deu um passo na minha direção, e ergui as mãos, em sinal para que não avançasse.

— Você queria provar alguma coisa com isso? Queria mostrar que é melhor do que ele?

— Desculpa! Eu… Merda! — Passou a mão na nuca, incomodado. — Me perdoa! Eu não pensei, só…

— É claro que você não pensou. Não em mim! — Reprovei-o, fugindo dele, de sua sala, e da dor de ter provado algo que eu muito queria, mas que não tinha esperança de um dia possuir.

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Espero que tenham gostado! ♥

Não esqueçam de me dizer o que vocês estão achando nos comentários, e de convidar as amigas! Quanto mais vocês interagirem, maior a probabilidade de eu liberar capítulo bônus!!

Os capítulos serão postados às sextas-feiras, podendo haver capítulo bônus na semana dependendo da interação de vocês.

Então chamem as amigas para curtir essa história!

Boa diversão e até a semana que vem! ♥

1 comentário

  1. Esses dois estão me matando!!!

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