Nossa Razão / Capítulo 13

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Capítulo 13

Nic

Não sei quanto tempo fiquei ali, parado à porta do seu quarto, olhando-a dormir. Já tive oportunidade de fazer isso algumas vezes, quando viajei com ela e Milena para alguns lugares. Coisa de uma noite, onde os três dividimos um quarto.

Porém, hoje era diferente. Eu me permiti enxergá-la com outros olhos. Não de irmão ou amigo, mas de homem que deseja uma mulher ardentemente.

Eu queria fazer coisas pervertidas com ela, até porque sabia que ela gostava disso. E coisas fofas, como algumas das que fiz na tarde de hoje. Queria mimá-la e ser o homem que sabia que ela precisava. Mas tinha medo de que talvez tivesse demorado demais para isso.

Quando os meus sentimentos por Karla despontaram, lá na minha adolescência, eu tentei barrá-los, afinal, convivíamos como se fôssemos todos da mesma família, portanto, me parecia errado pensar nela de outra forma.

O fato de os meus hormônios estarem em ebulição, de ela ser quatro anos mais nova, e de eu estar em outra fase, ajudaram a frear aqueles pensamentos, fazendo-me apostar em outras meninas, apenas para satisfazer minhas necessidades como homem. Mas o desejo por ela sempre esteve lá.

O tempo foi passando, e a ideia de que um envolvimento com ela não pudesse acontecer, ou, acontecer, mas não vingar por qualquer motivo, continuava me podando. Porque não importava apenas o que eu sentia, mas o que as nossas famílias sentiam. A relação de amizade e companheirismo que existia entre os Ventura e os Lopes não podia ser simplesmente ignorada em detrimento de, talvez, um capricho meu.

Karla contribuiu para me desencorajar, em sua festa de quinze anos, quando determinou que não se envolveria com um homem branco, crendo na ideia de que isso a protegeria de decepções, ao não ser respeitada e amada como merecia. Era só mais um fator que se somava aos que eu tentava driblar. E eu bem que tentei respeitar sua vontade e tirá-la do meu sistema, mas falhei miseravelmente.

Nada, naquela lista de condições, foi o bastante para que o meu sentimento desaparecesse, sequer diminuísse. Pelo contrário. Eu gostava cada dia mais, desejava cada vez mais, e sonhava com mais intensidade em tê-la para mim. Então, estava disposto a enfrentar aqueles obstáculos com sutileza.

Só que agora existia um homem. Um do tipo que Karla apreciava. E se antes de Toni eu não fui corajoso o suficiente para me declarar, como o faria agora? Não me parecia justo com ela. Ao mesmo tempo, percebia que ela não estava a fim do cara como acho que deveria, e isso pesava na minha decisão de deixá-la seguir ou ir em frente e tentar conquistá-la.

Saber que ainda não tinha transado com o Toni era um alívio. Eu não a queria transando com ninguém. Não suportava imaginar outro cara tendo o privilégio de sentir sua pele macia, de tocá-la sem saber como ela realmente gostava. Porque ele simplesmente não sabia! Não tinha com ela a intimidade, confiança e descontração que era preciso para que ela se abrisse completamente. Eu tinha!

Pensei no quanto fui idiota nas últimas semanas. Por ciúme, por covardia. E por raiva de mim mesmo, ao ter sido tão incompetente na arte da conquista. Eu a evitei, temeroso de ver em seus olhos uma felicidade que não era eu quem oferecia. E ela estava lá, somente usufruindo da vida a que tinha direito, da escolha que julgava ser a melhor para si.

Quando ouvi Milena conversando com nossa mãe, a respeito da indisposição de Karla, vi ali a oportunidade de tentar me redimir por meu comportamento inadequado. Não só isso, é claro. Também estava preocupado com ela, e a melhor forma de ter certeza sobre a sua situação, era estar ao seu lado. Eu sabia que ela não me dispensaria. Quer dizer, até tentaria, mas não teria sucesso.

— Nic?

Meu nome, pronunciado por ela em um sussurro rouco, me trouxe de volta daqueles pensamentos.

Merda!

— Oi! — Aproximei-me da cama, cuidadoso — Levantei tomar água e passei aqui pra ver se você estava bem.

— Ah!

— Volte a dormir. — Dei um beijo em sua testa, desejando mais do que tudo me juntar a ela naquela cama. Abraçá-la e me deixar ficar daquele jeito, aninhado junto ao seu corpo.

Então a ouvi suspirar, adormecendo imediatamente.

Voltei para o sofá, demorando a pegar no sono. A conversa do dia veio à mente, fazendo-me rir sozinho e pensar como era gostosa aquela descontração e naturalidade que havia entre nós. E como foi prazeroso compartilhar com Karla o momento quente — e meio constrangedor para ela — daquele filme erótico. Como também foi difícil me manter indiferente ao perceber sua respiração mais acelerada, sua pele mais quente e seus olhos mais vidrados, quando tudo o que eu mais desejava era jogá-la sobre aquele sofá e fazê-la gritar meu nome ao gozar.

Ótimo! Agora, além de não conseguir dormir, eu tinha uma ereção para controlar.

Ah, minha bailarina! Eu ainda hei de te pegar de jeito e te deixar molinha nas minhas mãos!

***

Não sei se foi o cheiro de café que me despertou, mas certamente foi ele que me fez sorrir ao imaginar Karla o preparando para nós dois.

Espreguicei-me e me levantei do sofá, lembrando-me de deixá-lo mais ou menos em ordem antes de seguir aquele aroma convidativo. Ele me levou até a cozinha, onde me deparei com uma bancada caprichosamente preparada para um desjejum completo, além de uma mulher vestida em uma calça de ginástica deliciosamente colada no corpo, de costas para mim. Sua bunda estava exageradamente apetitosa.

— Eu que deveria estar fazendo isso! — murmurei, minha voz saindo levemente rouca.

— Sabemos que você não daria conta. — Debochou, conhecedora das minhas não habilidades domésticas.

— Talvez eu não seja um exímio cozinheiro, mas compenso em outras áreas — rebati, roubando um dos iogurtes e abrindo-o devagar antes de levar a tampa de alumínio à boca, aguardando que Karla se virasse para mim.

Quando isso aconteceu, dediquei-me a lambê-la — a tampa, não a mulher que me admirava com água na boca — demoradamente.

— Bom dia! — Cumprimentei, guardando o sorriso convencido diante de seu olhar cobiçoso, que parecia indeciso entre focar no meu gesto insinuante, no meu peito nu, ou no volume que ficava evidenciado sob a calça de pijama, que pendia na minha cintura. Acho que era certo dizer que eu estava em meia bomba.

— Algumas pessoas acham isso nojento! — Declarou afetada, desviando o olhar e colocando mais alguma coisa sobre a bancada, que eu não reparei, pois estava concentrado em suas reações.

— O quê? Uma ereção matinal ou lamber a tampa do iogurte?

— Tão engraçadinho, você! — Semicerrou os olhos, irônica.

— Sempre achei um desperdício não fazer isso! — Dei de ombros, optando por dar destaque ao meu gesto. — Olha, limpinha!

Ela só arqueou a sobrancelha, mas eu sabia que a tinha deixado instigada.

— Dormiu bem? — Desconversou, sentando-se em uma das banquetas, enquanto eu fazia o mesmo.

— Muito! E você? Ainda teve dor?

— Um pouco de desconforto, mas nem dá pra reclamar. — Passou manteiga em uma torrada com um cuidado excessivo, como quem toma tempo antes de falar. — Eu sonhei ou você esteve no meu quarto?

— Os dois talvez? — Provoquei, recebendo um olhar enviesado. — Sim, passei lá pra ver se você estava bem. Você mal respondeu e desmaiou novamente.

— Hum…

— Mas se lembra de qualquer outra coisa, deve ter sido sonho. E se quiser compartilhar, sou todo ouvidos.

— Só me lembro mesmo de ter a impressão de você estar parado na porta do meu quarto.

Sim! Te admirando, te desejando, te querendo pra mim!

Servi-me de café, pegando um dos pães quentinhos em uma cesta, notando um prato com ovos mexidos.

— Acho que vou te convidar todos os dias para o café da manhã, quando for morar sozinho.

— Isso é um elogio para mim, ou uma reclamação para a tia Renata? — Mordeu a torrada, mastigando devagar enquanto me observava.

— Uma admissão da minha incompetência culinária, talvez?

— Você pretende mesmo ir morar sozinho?

Eu me fazia a mesma pergunta frequentemente. Por enquanto, era fácil justificar não sair da barra da saia dos pais. O apartamento, que comprei ainda na planta, há quase três anos, seguia em construção.

— Acho que tá na hora. — Dei uma garfada generosa nos ovos. — Vai ser difícil abrir mão das mordomias que tenho em casa, mas uma hora é preciso cortar o cordão umbilical.

— E quando será isso?

— A previsão de entrega do apartamento é para o início de dezembro. Até mobiliar… Meio do ano que vem, quem sabe?

Ela assentiu, abrindo um meio sorriso cínico.

— Até lá dá tempo de aprender alguma coisa na arte da culinária. Ou de achar alguém que preencha esse papel.

— Uma namorada, quem sabe? — Pisquei, imaginando-a ocupando aquele posto.

— Pra cozinhar pra você? Já tenho dó da coitada. — Desdenhou e não pude deixar passar.

— Ela seria bem recompensada. 

— Aham!

— Massagens, jantares especiais, flores em datas comemorativas… — Continuei.

— Como se os homens se ligassem em datas.

Tinha que concordar que a maioria não se atém mesmo a isso. O que não quer dizer que não existam aqueles que guardam alguns momentos na memória.

Limpei a boca antes de provar a ela que estava errada. Ao menos quanto a mim.

— Véspera de Natal de dois mil e nove, quando você encontrou um filhotinho na rua e o adotou, dizendo que era um presente do Papai Noel. Mesmo tendo dez anos, você insistia em dizer que o bom velhinho existia. Uma pena que o cachorro morreu três meses depois. Você pediu para os meus pais se podia enterrá-lo no quintal lá de casa, e se eu e a Milena podíamos te ajudar. — Tomei um gole de café. — Quinze de outubro de dois mil e treze, sua última apresentação de ballet. Você segurou o choro de emoção até o último minuto, e quando todos se afastaram, escondeu o rosto no meu peito e pediu pra eu te abraçar. Dez de janeiro de dois mil e dezenove, quando você passou no vestibular e foi toda arrumada para o trote, lamentando depois ter que jogar a roupa fora, porque estava cheia de tinta e lama.

— Você…

— Trinta de março de dois mil e seis — Prossegui. — Você usava um short branco e uma blusa dessas que amarra no pescoço e deixa as costas de fora….

— Frente única! — Interrompeu, meio boba.

— Era colorida. Seu cabelo estava preso em duas maria-chiquinha e você corria junto com a Milena pelo jardim lá de casa. Seu sorriso era o mais radiante que eu lembrava de ter visto em uma menina.

— Eu estava tão feliz por ter uma amiga que apesar de diferente, não me tratava diferente — murmurou, e acho que senti um tom emocionado em sua voz. — Você lembra!

— Como esquecer o dia em que te conheci?

Talvez fosse exagero dizer que me apaixonei naquele dia, mas certamente o Nic daquela época ficou fascinado pela menina preta. Pela alegria que ela irradiava, pela beleza que o cativava.

O silêncio entre nós e os seus olhos marejados, diziam que eu a surpreendi com a lembrança de momentos que sei que foram especiais para ela, e consequentemente, para mim.

Karla desviou o olhar, e seus lábios tremeram um pouco quando disse meu nome.

— Nic…— Vi o movimento de sua garganta, engolindo em seco. — Eu…

Sua voz estava embargada, e eu esperei, nem sei bem o quê. Uma pista, quem sabe, de que eu poderia avançar? Dizer mais coisas?

Só que ela recuou. Se fechou novamente.

— Então? — Quebrei o encanto. — Teremos você no encontro da turma, hoje?

Ela respirou fundo, piscou rápido e tentou sorrir.

— Acho que não.

— Imaginei — disse, me perguntando se haveria alguma programação com o tal do Toni.

Outro gole de café demorado, antes que ela voltasse a olhar para mim.

— Sei que disse ontem que não precisava ficar, mas gostei de ter você aqui — confessou, sorrindo quase timidamente.

— Gostei de ficar e cuidar de você. De conversar sério, falar besteiras, rir. E de assistir putaria com você!

Ela cobriu o rosto com as mãos rapidamente, um pouco constrangida.

— Você nunca vai esquecer, não é?

— Vinte e três de outubro de dois mil e vinte. O dia em que…

— Ok, já entendi! — Fez um gesto com as mãos, para que eu parasse por ali. Então baixou o olhar e deu uma tossidinha nervosa. — Quanto à sua presença aqui, podemos manter isso só entre nós?

Obviamente ela não queria que aquilo chegasse até o ouvido do namorado. Aquele com quem ela não tinha intimidade. O mesmo que não estava transando com ela — graças a Deus!

— Se isso lhe parece tão inadequado.

— Não é nada disso, Nic — Corrigiu rapidamente. — Só que meus pais vão saber que eu menti, e apesar de não ser nada tão sério, não queria magoá-los.

— Fica tranquila. Nosso segredo. — Dispensei uma piscadela, mais aliviado com aquele motivo.

Aproveitamos com calma o momento do café para seguir com um papo descontraído. Então ajudei-a com a organização da cozinha e segui para um banho, sabendo que estava na hora de deixá-la sozinha, mesmo que não fosse minha vontade.

— Você não precisa ir trabalhar amanhã, se não se sentir disposta — falei, pegando minha mochila e me encaminhando para a porta de saída, com Karla ao meu lado.

— Eu tô bem, Nic. E amanhã estarei melhor ainda.

— Tá, me avisa se a situação mudar.

— Pode deixar. — Ficou na ponta dos pés para me dar um beijo. — Obrigada mais uma vez!

Retribui o beijo, um pouco mais demorado, enquanto abraçava sua cintura. Ela enlaçou meus ombros, e nos deixamos ficar assim, amparados um no outro, seu rosto afundado no meu pescoço, minha boca muito perto da sua orelha, seu perfume me deixando levemente tonto de paixão.

— Tudo bem? — murmurei contra os seus cachos, alisando suas costas com movimentos leves.

Ela acenou um sim, se afastando devagar, as mãos escorregando pelo meu peito, o olhar preso na altura do meu queixo. Se ela subisse dois centímetros, pararia com os olhos na minha boca. E aí, meu amor… Já era!

Inspirei fundo, mas me arrependi na mesma hora, pois parece que aquilo a trouxe de volta de um mundo paralelo.

— Te vejo amanhã! — falou rouca, soltando-se sutilmente do meu abraço e dando um passo atrás.

Idiota! Não ela, eu! Por que lhe dei tempo para pensar?

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