Nossa Razão / Capítulo 12

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Capítulo 12

Karla

Havia programado minha agenda, dentro daquilo que era possível, para que eu pudesse fazer o procedimento médico com tranquilidade, contando com o apoio de minha mãe, que queria me acompanhar tanto no durante como no depois. Os exames necessários tinham sido feitos previamente, e todas as dúvidas sanadas com a ginecologista.

Acontece que o meu corpo não pensava o mesmo, e, uma semana antes do previsto, me presenteou com a minha menstruação, período mais indicado para colocar o DIU. Menos mal que eu consegui que minha médica estivesse disponível naquela sexta-feira.

Só que dona Alice e o senhor Davi tinham programado uma viagem a dois — respeitando o meu compromisso — justamente naquele fim de semana, então, eu menti, dizendo a eles que estava bem, e que eles poderiam viajar tranquilos.

Como disse, menti! Porque é claro que eu tinha que estar naquele percentual de mulheres que têm a adaptação mais desconfortável, para não dizer dolorosa.

E eu achando que toda a dor seria a que senti ontem, no consultório!

Com muito custo consegui convencer meus pais a viajarem.

— Vou falar para a Jade vir ficar com você. — Insistiu dona Alice.

— Não, mãe. Adoro a tia Jade, mas estou querendo ficar quietinha, coisa que ela não vai deixar. — Minha madrinha gostava de um papo e de inventar programas. Olhei pela janela, vendo a chuva bater contra o vidro. — Só quero tirar proveito desse repouso forçado. O tempo tá perfeito pra assistir série, dormir, ler um livro.

— Promete que vai chamá-la se precisar?

— Mãe, não sou mais criança!

— O procedimento que você fez atesta bem isso! — O senhor Davi resmungou ali perto, antenado na conversa.

Meu pai, como qualquer outro, imagino, não estava lá muito satisfeito com a minha decisão de colocar o DIU.

Como se eu já não usasse um método contraceptivo antes.

Ignorei o comentário dele, ciente de que era besteira tentar convencê-lo dos benefícios que, a princípio, o dispositivo me traria. Eu tinha esperança de que meu fluxo menstrual realmente diminuísse, assim como minhas cólicas.

Quando eles finalmente saíram de casa, eu pude manifestar minha dor com caretas e um pouco de contorcionismo, ao buscar uma posição que me deixasse mais confortável, se é que ela existia.

A chuva mantinha um ritmo leve e constante, dando ao sábado aquela configuração que descrevi para a minha mãe. Eu tinha à mão um livro para começar, daqueles clichês que a gente ama, bem propício para o meu estado de espírito. O controle da TV estava à mão, assim como meu celular, que decidi deixar no silencioso. Não estava muito a fim de papo, só de curtir minha dor em silêncio. Porém, não recusei a chamada de Milena quando vi a notificação. Sabia que ela ficaria preocupada se eu não a atendesse.

— Oi!

— Hum, só aí já deu pra sentir que você não tá legal.

— Dor! — Reclamei. — Daquelas que você tem vontade de bater em alguém.

— Puta merda! Tem alguma coisa pra você tomar?

Olhei para a mesa de centro, vendo os dois medicamentos e um copo d’água me encarando.

— Tudo o que a médica me receitou. Ela disse que é normal, que algumas mulheres são mais sensíveis. — Suspirei. — Claro que eu precisava ser uma delas.

— Tadinha! Tia Alice tá aí?

— Não! Eu não pude deixar os dois perderem o fim de semana.

Milena sabia da programação dos meus pais.

— Então você mentiu, eu presumo. — Bufou do outro lado. — Chamou o Toni?

— Claro que não! A gente não tá nesse nível ainda.

— Então vou aí te fazer companhia.

— Não vem não! — falei depressa. — Você vai é transar com o Gael, já que eu não posso.

Ouvi uma risada debochada do outro lado da linha.

— Você quer transar com o meu namorado?

— Queria transar, amiga! — esclareci. — Só isso. Se bem que transar, na atual conjuntura, não é só isso.

Fazia um tempo que eu não tinha um orgasmo proporcionado por outra pessoa, que não eu mesma.

— Espera passar tudo isso e pega o Toni de jeito — Sugeriu, maliciosa.

Puxei um fio do meu pijama, lamentando quase sem perceber.

— Hum, sei não.

— Você não tá na dele, né?

— Não como acho que deveria.

— Então esquece. — Decidiu, imprimindo uma facilidade à situação, que eu não sentia. — Vamos pensar em outro boy pra te tirar dessa seca.

— Não hoje. Nesse exato momento eu esganaria um, só pelo fato de estar aqui passando dor quando eles seguem belos e formosos, sem precisar se preocupar com nada disso.

— A vida é tão injusta…

— É! Agora vai pegar seu namorado.

Ela riu, mas ainda insistiu na preocupação.

— Tem certeza de que vai ficar bem? Me liga se precisar de alguma coisa?

— Ligo, mas fique tranquila que tô bem acompanhada: Netflix e livro.

— Serve de consolo!

— Não, esse tá guardado lá na minha mesinha de cabeceira.

— Safada! — Milena acusou entre risos.

— É o que tem pra hoje. Aliás, pra quando terminar minha menstruação. — Suspirei.

— Fica bem! Te amo!

— Também te amo, amiga!

Sorri, pensando no quanto ela me distraiu só naquela breve conversa, mesmo que eu não quisesse falar com ninguém. Bem, Milena não só me compreendia, como era minha cúmplice naquelas dores. Nós duas sofríamos com cólicas horrorosas desde a adolescência — como milhares de mulheres — que diminuíram mais tarde, com o uso do anticoncepcional.

Coloquei o celular de lado e me ajeitei no sofá, entre travesseiros e almofadas, encontrando finalmente uma posição mais cômoda. O som da chuva pareceu ajudar no relaxamento, e este, na diminuição da cólica, o que fez com que eu conseguisse cochilar. Só até o interfone me despertar.

Praguejei, não querendo deixar o conforto daquele ninho que me fez adormecer. Quase duas horas, aliás, quando conferi meu celular.

Levantei-me, e me arrastei até a cozinha, tentando imaginar quem eu esmurraria.

— Quem é?

— O amor da sua vida!

— Nic?

Não apenas pensei, como falei.

Merda!

— Viu! Eu sabia que você me amava!

— O que você tá fazendo aí? — Ignorei a quase declaração que acabei de lhe dar, sabendo que ele estava brincando.

— Me pergunto o mesmo, já que eu poderia estar aí dentro, se você me deixasse entrar pra cuidar de você.

— Cuidar de mim?

— Abre de uma vez, Ka.

Abri por puro instinto, pois uma náusea resolveu fazer companhia à cólica, que dava mostras de voltar.

Nic, aqui? Por quê?

Eu não queria que ele me visse naquele estado. Meu cabelo estava uma bagunça, eu tinha olheiras pela noite mal dormida e meu pijama todo amarrotado tinha um furo perto da bunda — eu me recusava a abandonar aquele tecido molinho com estampa de bailarina.

Segui para a entrada do apartamento, colocando a mão na frente da boca para conferir meu hálito — não que eu fosse chegar tão perto do rosto de Nic para que ele percebesse — e quando abri a porta, ele já estava lá.

— Você tá péssima! — Declarou, depois de me olhar de cima a baixo.

— Vai embora! — Fiz menção de fechar a porta, mas seu pé me impediu.

— Não tô falando da aparência, e sim da dor, que sei que tá sentindo.

E eu bato ou dou um beijo neste homem?

— Vou fazer de conta que acredito. — Dei passagem a ele, só então reparando na mochila pendurada em um ombro, e em uma sacola de papel que ele trazia na mão. — O que significa tudo isso?

Ele olhou para onde eu apontava, já largando a mochila no chão e indo em direção à cozinha.

— Já falei. Vim cuidar de você!

— Quem disse que preciso de cuidados? — Segui-o, vendo-o bem à vontade ao tirar algumas coisas da sacola e depositar na bancada. Só guloseimas, devo frisar, daquelas que a gente quer se afundar quando está na TPM.

— Sua conversa com a Milena algumas horas atrás.

— Que você estava ouvindo.

— Na verdade, ouvi ela comentando com a minha mãe o quanto você estava mal, e mesmo assim preferia ficar sozinha.

— Essa última parte você não deve ter entendido então, já que está aqui.

— Entendi sim. Só não concordei — Sentenciou, enchendo a chaleira de água e colocando no fogo.

— Nic, eu agradeço a sua boa vontade, mas não sou boa companhia hoje.

— Você sempre é boa companhia.

— Não quando estou com dor.

Ele finalmente voltou a atenção para mim, e um brilho alvoroçado tomou seus olhos azuis.

— Vou fazer você se sentir melhor, quer apostar?

Acabei por rir da sua pretensão.

— Nem as drogas conseguiram fazer isso.

— Quem precisa de drogas quando tem a mim? — Balançou as sobrancelhas daquele jeito arrogante, que nele, ficava tão fofo.

— Meu Deus! Quem pode com a sua modéstia?

Ele riu e deu um beijo na minha bochecha, antes de me empurrar sutilmente em direção à sala e me fazer deitar no sofá.

— Fica aí quietinha que eu já volto. Nem vai dar tempo de sentir a minha falta.

E eu fiquei. Desisti de tentar convencê-lo a ir embora e me deixar sozinha, porque sabia que perderia aquela batalha. Nic, quando colocava algo na cabeça, era difícil de tirar. Não impossível, mas difícil. E eu não estava com disposição para discussões.

Ouvi seu assobio musical misturar-se ao barulho de utensílios domésticos sendo manipulados, e tentei não visualizar a bagunça que eu teria para arrumar a hora que ele fosse embora. Acabei por rir sozinha. O que era uma arrumação diante da companhia dele, naquela situação?

Pensei em como ele estava diferente. Nem parecia o mesmo cara mal-humorado que até dois dias atrás vinha me tratando com frieza. Meu amigo estava de volta. Atencioso, brincalhão! Do jeito que eu tanto amava!

— O que é isso? — perguntei quando o vi voltar para a sala com duas bolsas de água quente.

— Você sabe o que é isso — Criticou com um olhar enviesado.

— Claro que sei, mas…

— Se existe confirmação científica não sei, mas mal não deve fazer — Afirmou, ajeitando uma das bolsas nos meus pés, outra sobre a minha barriga.

— Você falou com a tia Renata? — Observei-o todo cuidadoso, enquanto eu me apaixonava ainda mais por ele.

— Não, mas vi várias vezes ela tentando amenizar as cólicas de vocês com essas compressas.

Era verdade. Chás e compressas quentes dividiam espaço com os analgésicos, quando eu e Milena chorávamos de dor, fosse na casa dela, ou na minha. Como ele disse, não dava para saber a eficácia, mas o gesto de carinho certamente tinha uma participação importante naquele processo de cura, e saber que Nic, que estava sempre por perto, prestava atenção naquilo, só o tornava ainda mais especial.

— O processo deveria ser inverso — resmunguei, vendo-o se acomodar ao meu lado no sofá, com uma caixa de bombom nas mãos, da qual rapidamente escolhi um. — A gente deveria ter que tomar algo apenas quando quer engravidar, e a menstruação poderia durar apenas um dia. Meio-dia! Uma hora, no máximo! — reclamei, não me importando de estar falando daquilo com ele. — Tem cabimento as mulheres passarem por isso todo mês? Ou ter que se sujeitar a essas dores, e todas as alterações hormonais? Além de todo o resto que cabe a nós?

— Sinto por vocês, de verdade. E digo que se houvesse outro método anticoncepcional além da camisinha, eu usaria sem problema.

— Tá bom! — Concordei irônica, dando uma mordida no meu chocolate.

— É sério! Quando eu e a minha mulher decidirmos não ter filhos, faço a vasectomia na boa. — Esclareceu, colocando um bombom inteiro na boca.

Tentei não visualizar aquilo. Não a vasectomia, mas Nic casado, com uma mulher que não era eu, com filhos que não eram meus.

Balancei a cabeça como que para dissolver a imagem.

— Você diz isso agora. Depois, vem toda aquela conversa de “Ai, vai afetar a minha masculinidade”!

— O homem que diz isso é porque não se garante.

— Certo!

Puxei a caixa do colo dele, escolhendo outro bombom, usando a velha desculpa de estar sensível para extrapolar no doce.

— Então? — Voltou a falar, lambendo os dedos sujos de chocolate. — Essa coisa do DIU. Como funciona? Dá pra sentir ele lá dentro?

— Não sinto nada. Neste momento, apenas dor.

— Tô falando do cara — Esclareceu, fazendo-me olhar diretamente em seus olhos. — Lá, na hora…

Achei engraçada a pergunta, apesar de pertinente.

— Dizem que é possível sentir o fio. Mas acho que depende do tamanho do cara.

— Hummm… Eu sentiria, com certeza.

Gargalhei. Com gosto!

— Sério, Nic. Eu admiro sua autoestima e confiança.

— Quer ver como tenho razão? — Afastou minimamente o elástico da calça.

— Nic, seu palhaço! — Dei um soco, delicado, em seu braço. — Já te vi de sunga inúmeras vezes, esqueceu?

— Hum, isso quer dizer que você reparou, hein!

— Como não reparar em uma coisa que está bem diante dos seus olhos?

Ok, isso soou estranho. Excitante, mas estranho.

Esperei pelo comentário malicioso dele a respeito da minha fala, mas por incrível que pareça, não veio.

— Pois é. Até em repouso o bicho é …

— Ah, não! Não vai me dizer que acha ele bonito.

— Bonito sou eu. Ele é robusto. Eficiente. Nunca me deixou na mão, já a minha mão nele… — Novamente aquele olhar safado, e porque não dizer, gostoso.

— Nic, seu nojento!

— Ah, não vem de frescura pra cima de mim. Você é uma mulher moderna, atualizada, inteligente. Masturbação é uma coisa super natural. Como dormir, comer, beber. Só traz benefícios ao nosso corpo.

— Como você tá filosófico hoje.

— Previne câncer de próstata, melhora o humor e proporciona conhecimento do próprio corpo. — Enumerou. — Acrescente para vocês, mulheres, a melhora da lubrificação e diminuição dos sintomas da TPM. — Ele arqueou uma sobrancelha e eu esperei pela pérola. — O que me faz pensar que você não deve exercitar muito o ato.

— Olha só quem fala! Para quem conhece tanto assim os benefícios, não deve ter praticado nas últimas semanas.

— Menos do que o normal, confesso. — Olhou para o próprio pau. — Tem certeza de que não quer conferir?

— Deixa de ser oferecido!

Ele deu de ombros, tranquilo e divertido, como se todo aquele papo fosse a coisa mais natural do mundo. E era. Entre nós, era sempre assim. Nossa liberdade e intimidade permitia que qualquer assunto viesse à tona e fosse debatido.

— Você tinha razão. — Ajeitei-me de forma mais confortável ao seu lado, percebendo o quanto aquela conversa, regada a muito riso, tinha me feito bem. — Estou me sentindo bem melhor.

— Eu disse que era melhor do que as drogas — Reconheceu, dando um tapinha na minha coxa.

Claro que eu não estava descartando o efeito dos medicamentos. Mas quem sabe se aquele carinho, em forma de compressas quentes, chocolate e atenção, também não tivessem sua importância no processo?

— E você me privou disso nas últimas semanas.

— Disso o quê? — Manteve a mão sobre a minha perna, o toque quente me trazendo mais do que um simples conforto.

— Desse tipo de conversa, em que a gente pode falar o que quiser. — Sua expressão se transformou, um pouco incomodada. — Tem certeza de que não quer me contar o que houve?

— Vai ver era a minha TPM.

— Aham. Como se vocês soubessem o que é isso — Ironizei, e arrisquei a hipótese que me ocorreu quando tivemos aquela discussão em sua sala, na quinta-feira. — Algo a ver com a Suzana?

— Suzana? — Pareceu não entender.

— Sei lá. De repente ela te procurou. Você ficou balançado.

— Suzana é passado. — Ergueu a cabeça e suspirou

— Você ainda pensa nela? — perguntei, temendo a resposta. Ela tinha sido o relacionamento mais longo de Nic.

— Como um erro que cometi, nada mais.

Levei minha mão à dele, dando um aperto leve, confortando-o.

— Você não tinha como saber, como adivinhar.

— Será que não? — Encontrou meu olhar, o seu, desgostoso, por certamente relembrar algo que tanto o machucou. — Será que não estava bem lá na minha cara, o tempo todo, e eu só não enxerguei? Ou não quis enxergar?

Como não enxerga o meu amor por você, talvez?

— Não se culpe por isso. — Tentei amenizar. — Acho que é comum não percebermos o que está na nossa frente, porque normalmente estamos atentos ao todo, deixando passar os detalhes, que é onde se concentram as verdades.

Ele riu sem humor.

— Às vezes a gente até repara nos detalhes, mas eles nos confundem.

— E acabamos dando crédito à parte que, por alguma razão, nos convém!

A tela do meu celular brilhou em cima da mesa, e eu o peguei, por pura covardia em seguir com aquela conversa séria demais, real demais.

— É o namorado, querendo saber como você está?

Não sei se a configuração do que estava rolando entre mim e o Toni dava para chamar de namoro. Ao menos, oficialmente. Mas preferi deixar daquele jeito.

— Ele não sabe nada sobre isso aqui — Confessei, sem olhar para Nic. Aquilo pareceu chamar sua atenção de forma especial.

— Sério? Por quê?

— Ainda não temos intimidade para tanto.

— Hum.

Perguntei-me se aquele murmúrio era em entendimento ou desconfiança. De qualquer forma, eu tinha acabado de admitir que tinha com Nic, algo que ainda não desfrutava com o meu namorado.

— Eu disse que ia viajar com meus pais. — Acrescentei, enquanto respondia a mensagem. — Era a Mi, querendo se certificar de como estou. — Coloquei o celular de lado. — Alguém sabe que você tá aqui?

Deu de ombros.

— Não. Mas fique à vontade para anunciar nas redes sociais ou colocar em um outdoor, que seu melhor amigo está lhe fazendo companhia. — Piscou e se remexeu. — Então, que tal um filme?

— Nic, eu tô bem. Pode ir pra casa.

Ele me olhou atento.

— Tá vendo aquela mochila? — Apontou para o chão. — Vou dormir aqui.

— O quê?

— É isso aí. E não adianta vir com nenhum discurso pra cima de mim, que você não vai me impedir de ficar. — Pegou o controle da TV.

— Se não me engano, eu moro aqui — Salientei, mas ele parecia imperturbável.

— Seus pais também. E se eu disser que você mentiu ao não falar da dor que estava sentindo quando eles saíram daqui, não só vão me dar o aval, como você vai ficar mal na fita, bailarina!

Meu queixo caiu ligeiramente com a chantagem nada dissimulada que ele fazia.

— Oh, que cretino, Nic! — Cerrei os olhos quando ele me dispensou um sorriso malandro. — Isso tudo é porque não consegue ficar longe de mim?

— Exatamente! — Afirmou, mantendo o olhar preso ao meu.

Meu coração ensaiou uma daquelas taquicardias, que comprimem o peito e te causam uma repentina falta de ar.

Como eu queria que aquilo fosse verdade. Mas acho que era só Nic sendo o irmão cuidadoso que sempre foi comigo e com Milena. O amigo atencioso que me colocava sempre em primeiro lugar.

— Não tem quarto de hóspedes. — Insisti, covardemente, em tentar convencê-lo a não ficar.

— Esse sofá é perfeito! — Bateu no assento fofo. — Tem o tamanho de uma cama de casal. Aliás, se quiser dividi-lo comigo…

— Vai sonhando!

Ele apenas riu, indiferente.

— Vamos ver o que você tem nos seus favoritos.

Ah, merda!

— Nic, não…

Antes que eu tentasse tomar o controle de sua mão, a tela brilhou, mostrando o que eu não queria que ele visse.

— Sério? — Sua voz soou baixa, surpresa e maliciosa. — Putaria, Ka?

— Não é putaria! — Contestei, remexendo-me no sofá. — É um romance que contém cenas picantes.

Eu já tinha visto parte delas, que vazaram nas redes sociais, quando o filme foi lançado na plataforma de streaming. E definitivamente não queria vê-las, na íntegra, na companhia de Nic.

— Tá aí, agora fiquei curioso com essa descrição. — Instigou, colocando o filme para rodar.

— Não vou assistir isso com você!

— Ah, qual é? A gente estava agora mesmo falando de pau e masturbação.

— É diferente. — Protestei. Nossa conversa certamente era muito mais leve do que as cenas que logo surgiriam na tela.

— Olha aí o que estávamos falando. — Nic apontou, alguns minutos depois, quando a mocinha interpretava uma cena se masturbando com um vibrador. — Você tem um desses?

— Fala com a minha mão! — Retruquei, esticando o braço na direção dele.

Talvez, se eu não sentisse nada por Nic, se eu nunca tivesse fantasiado com ele, assistir aquelas cenas não fosse tão difícil. Mas era!

— Isso aí não me parece atuação, hein! Pra mim que ela tá chupando o cara de verdade. — Pontuou ao meu lado, e eu estava prestes a concordar com ele, mas a sequência da cena era interessante demais para que eu falasse alguma coisa.

Queria que Nic diminuísse o som, e com isso, os gemidos do casal, que preenchiam a sala e pareciam se infiltrar em meu cérebro como uma droga. Só que eu não tinha coragem de falar, sequer de me mexer ao seu lado e eventualmente esbarrar em seu corpo, dando a ele a ciência de como o meu estava pegando fogo.

— Tá aí a nossa má reputação. — Seu tom era debochado e quente ao se referir à cena em que o mocinho cuspia entre as pernas da mocinha. — Se o cara precisa fazer isso é porque não dá conta do recado, não acha?

Ele estava mesmo perguntando aquilo para mim?

— Às vezes é só pra dar uma ideia mais pervertida à coisa — falei por impulso, sentindo meu rosto incendiar quando notei que meu comentário tinha chamado sua atenção para mim.

— Anotado, bailarina!

— O quê?

Virei-me para olhar para ele, me arrependendo instantaneamente. Devia ser efeito do filme, das cenas, dos gemidos, porque ele parecia tão, tão… indecente, perverso, apetitoso.

— Sua sugestão.

— Quem disse que era uma sugestão? Só estou…

— Dando voz às suas fantasias.

— Nada a ver Nic. — Tentei, disfarçadamente, tomar mais distância dele, que ainda mantinha os olhos fixos em mim.

— Você tem ideia do tanto de conversa que já ouvi de você com a Milena?

A referência me fez encará-lo, estarrecida.

— Nic, seu bisbilhoteiro!

— Pense no quanto vocês ajudaram outras mulheres?

Eu queria odiar o quanto sua voz soava insinuante e maliciosa.

— Outras mulheres?

— Usei informações em benefício próprio, consequentemente, as fiz muito mais felizes.

Eu deveria repreendê-lo por ficar ouvindo minhas conversas com sua irmã, mas só conseguia pensar no quanto ele deveria satisfazer uma mulher!

Sem saber o que dizer, virei para a frente, tentando me concentrar no filme.

Tarefa praticamente impossível.

As cenas eróticas, para não dizer explícitas, continuaram a preencher a tela.

— Caralho! — Nic soltou baixinho, puxando uma almofada para o colo.

Merda!

Ele estava mesmo com uma ereção, ali, ao meu lado?

Respirei fundo e alto, decidida a levantar e fugir daquela armadilha. Mas talvez eu devesse ter pensado melhor antes de fazer aquilo.

Na, na, ni, na, não! — Nic segurou meu braço, fazendo eu cair sentada novamente no sofá. — Nem pense que vai se aliviar. Vai sofrer aqui, comigo.

— Aliviar? Ficou doido? Vou pegar um copo d’água.

— Tem um bem aqui na sua frente. — Apontou para a mesa.

Tentando me fazer de sonsa, peguei o copo, e acabei com o que restava da água, puxando as pernas para cima do sofá.

Nic me lançou um olhar divertido e ao mesmo tempo, excitado.

Puta merda!

— Romance com cenas picantes, hein?

— Era o que dizia a sinopse. — Voltei a olhar para a TV.

Ele não respondeu ao meu comentário. Só ficou ali, me olhando, enquanto os gemidos do casal ecoavam entre nós!

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Espero que tenham gostado! ♥

Não esqueçam de me dizer o que vocês estão achando nos comentários, e de convidar as amigas! Quanto mais vocês interagirem, maior a probabilidade de eu liberar capítulo bônus!!

Os capítulos serão postados às sextas-feiras, podendo haver capítulo bônus na semana dependendo da interação de vocês.

Então chamem as amigas para curtir essa história!

Boa diversão e até a semana que vem! ♥

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