Nossa Razão / Capítulo 11

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Capítulo 11

Karla

— Uau! Que delícia de chocolate hein, Karla? — Elisa assobiou.

Eu e minhas colegas de trabalho estávamos concentradas em um grupinho de quatro, com meu celular aberto no perfil de Toni em uma rede social, onde ele exibia muitas fotos. Algumas sem camisa, várias apenas de sunga, na praia. Sim, ele era um pedaço de homem. E eu queria gostar dele, desejá-lo como acho que seria natural, dada sua aparência e jeito de me tratar.

— Dá pra se lambuzar! — Milena complementou de um jeito safado.

Antes que eu fizesse algum comentário a respeito da impressão delas, Nic nos surpreendeu.

— É isso aí! Vamos parar o trabalho para apreciar as redes sociais!

Suas palavras até não eram tão ofensivas. Se ditas em um tom brincalhão, eu até poderia deixar passar. Aliás, em um dia normal de Nic, era bem capaz que ele se juntasse a nós para se divertir. Não era o caso hoje.

— Nic! — Milena chamou sua atenção, estranhando a aspereza do irmão, mas ele já não estava mais ali para ouvir.

— Gente! O patrãozinho tá virado esses últimos dias. — Alice murmurou, voltando para a sua mesa. — Será que é TPM?

Não havia quem não tivesse reparado na mudança de humor de Nic. De fato, ele estava beirando o insuportável nos últimos dias.

Milena fez menção de ir tirar satisfações da grosseria dele, mas eu a impedi, tomando para mim aquela tarefa. Por alguma razão, achei que deveria.

Bati à sua porta, ouvindo um resmungo do outro lado, e entrei.

Nic não se dignou a erguer a cabeça. Mas se ele achava que eu falaria para as paredes, estava enganado. Mantive-me ali, em pé, à frente de sua mesa, até que ele não tivesse uma alternativa, a não ser olhar para mim.

O que não demorou muito para acontecer.

— Do que você precisa? — O tom era comedido, e seu semblante sério demais, coisa que não combinava em nada com ele.

— O que foi aquilo, Nic?

— Aquilo o quê?

— Seu showzinho lá fora, chamando nossa atenção como se estivéssemos cometendo um crime. Você nunca falou assim com ninguém aqui.

— Assim como?

— Como se fosse um… patrão arrogante.

— Acho que sou um dos patrões, então, creio que posso chamar a atenção das minhas funcionárias quando acho que estão se excedendo no ambiente de trabalho.

— Se excedendo? Meu Deus, você está sendo patético, Nic! Sério! — Ri sem humor. — Para sua informação, estávamos no nosso intervalo de dez minutos para o cafezinho, o que nos dá o direito de falar sobre outros assuntos que não trabalho.

Não era um pedido de desculpas. Tampouco uma justificativa. Estava apenas lembrando-o de algo que era nosso direito. Até porque eu seria a primeira pessoa a chamar a atenção das meninas, caso estivessem se aproveitando de alguma situação.

— Mais alguma coisa?

Bufei. Parecia um caso perdido.

— Sim. Só para relembrar que amanhã não venho trabalhar.

— Ah, virou festa, agora! — Ironizou, jogando-se contra o espaldar da cadeira. — Gael precisa de um dia para cuidar da papelada referente a compra do apartamento, você precisa de folga para…

— Para ir ao médico — interrompi, decepcionada com a falta de consideração que ele demonstrava ali. Nunca usei da prerrogativa de ser praticamente da família para me beneficiar em qualquer circunstância, e Nic sabia disso, mas por algum motivo, decidiu despejar sua raiva nos funcionários. Em mim particularmente. — Falei pra você, há pouco mais de um mês, que eu precisaria de um dia todo por conta de alguns exames, e que dependia da disponibilidade da minha médica, entre outras coisas. Esse dia é amanhã, e não vou desmarcar, simplesmente porque você esqueceu.

Talvez eu estivesse sendo arrogante agora, mas minha paciência havia atingido o limite. Não tinha faltado um dia sequer no ano, nem mesmo chegado atrasada. Eu tinha esse direito, e Nic, novamente, sabia. Só estava sendo estúpido.

Ele jogou a caneta de forma displicente sobre a mesa, olhando-me petulante.

— Karla, vamos deixar claro que eu estou aqui pra fazer vocês não esquecerem do trabalho, e não para lembrar dos compromissozinhos de cada um! — falou de forma insolente. — O médico é pra quê? Não me diga que já está precisando de terapia com o namoradinho!

Senti o sangue subir ao meu rosto.

— Se você não estivesse tão longe, eu lhe daria um belo tapa na cara, Nic.

— Não seja por isso. — Levantou-se e parou à minha frente, encarando-me em desafio. — Tô perto o suficiente agora?

Sim, ele estava bem perto. O bastante para que eu pudesse ver os pelos da barba despontando e criando uma leve sombra sobre seu rosto tão lindo, e hoje tão contraído. Perto o bastante para eu sentir seu perfume. Não somente o que ele costumava borrifar sobre seu corpo, e sim a mistura entre a fragrância importada e o cheiro natural da sua pele. Perto o bastante para ver algo em seus olhos que me intimidava, mas também me excitava.

— Creio que sim — respondi, tentando não me deixar afetar. — Mas como falou há pouco, você é o patrão, e lhe dar o que está merecendo, poderia me render uma justa causa.

— Fica tranquila. É o amigo que está aqui.

Olhei-o com mais atenção, procurando pela pessoa que ele citava, e vi, triste e decepcionada, que ela não estava ali.

— Não, não é. O meu amigo não dá as caras faz dias. Tem me evitado por algum motivo que ainda não descobri. E o pior, tenho certeza de que não fiz nada para que isso acontecesse, então, pela primeira vez desde que nos conhecemos, ele está sendo injusto comigo.

Vi minhas palavras o derrubarem conforme eu as pronunciava, levando embora a arrogância e a aspereza. Ele sabia que eu tinha razão, e tudo o que fez foi abaixar a cabeça, entregando os pontos, derrotado.

— O que está acontecendo? — Amaciei a voz, tentando me aproximar dele, não só fisicamente. — Sei que você está abarrotado de serviço, mas é só isso mesmo? Por que não divide comigo? O trabalho e o que quer que esteja te incomodando?

Ele não falou nada. Só ficou ali, talvez assimilando tudo o que eu tinha dito.

— Nic? — Ergui a mão, tocando seu rosto, infiltrando os dedos em seu cabelo macio, massageando suavemente o couro cabeludo, o que o fez fechar os olhos e suspirar, aceitando o carinho.

Antes que eu interrompesse o gesto, ele me puxou para um abraço. Apertado, ansioso, quase sofrido, o que me deixou ainda mais inquieta. Só me lembro de tê-lo visto assim, ou parecido, quando terminou com Suzana. Será que ela o tinha procurado? Será que ele, apesar de tudo, ainda sentia algo por ela?

— Desculpe! — sussurrou junto ao meu pescoço.

— Que bicho te mordeu? — perguntei, envolvendo seus ombros, sabendo que estava trazendo meu amigo de volta.

— Sei lá! Um pouco de tudo — desabafou, ainda contra o meu pescoço. E a quentura da sua voz abafada em minha pele começou a me incomodar de um jeito nada conveniente para a situação. — Confesso que nem eu tenho me aguentado esses dias.

— No que eu posso te ajudar? — Afastei-me um pouco, para poder olhá-lo de frente, mas isso não o fez desenroscar os braços da minha cintura.

— Acho que já fez isso, ao me dar um esporro.

— Sempre que precisar! — Brinquei e ele sorriu, um pouco constrangido. — Não esqueça que tô aqui.

— Obrigado! E por favor, esquece as merdas que eu falei. Você pode tirar quantos dias precisar.  Lembre-se que te dei privilégios. — Tocou a ponta do meu nariz e eu sorri com a menção da brincadeira. — Tá tudo bem com você? Pode me contar quais exames são esses, que levarão um dia todo?

Baixei o olhar, não tão confortável com o assunto, mas ciente de que podia tratar daquilo com ele.

— Na verdade, vou colocar o DIU. O procedimento é de manhã, mas a recomendação é para que se faça repouso depois.

Nic me estudou com cuidado, e suas palavras soaram um tanto angustiadas.

— Isso tem a ver com o… Como é mesmo o nome dele?

— Toni. Não, não tem nada a ver com ele, já que esta decisão estava tomada há mais de um mês, quando te avisei da minha ausência na empresa. — Relembrei-o e ele fez uma careta culpada. — E não que eu te deva satisfações, mas não estou transando com o Toni — reprimi um sorriso modesto. — Não que ele não queira.

— Só se ele não gostasse da fruta, pra não querer você dessa forma.

A voz de Nic saiu grossa e um pouco rouca, e tentei não fantasiar a respeito do seu comentário.

— A gente está indo devagar, se conhecendo — expliquei, sentindo necessidade de fazer aquilo.

— Ele tá te tratando bem?

— Aham!

Nic inclinou um pouco o rosto para poder encontrar meus olhos.

— Tem certeza? Você não me parece muito entusiasmada.

— Tá falando do quê? — Fiz-me de boba, surpresa por ele notar aquilo.

— Poucas coisas você consegue esconder de mim.

Verdade. O meu amor por ele era uma delas! E tá aí o motivo da falta de entusiasmo com o Toni.

— Só estou mais cuidadosa do que o normal — justifiquei, o que não era mentira.

— É bom respeitar o seu tempo. — Brincou com alguns dos meus cachos, o azul dos seus olhos voltando a ganhar aquele brilho que eu tanto amava. — Senti a sua falta!

— E eu a sua — disparei baixinho, engolindo o nó que surgiu com a suavidade que Nic deu à voz e à carícia. — Não faz mais isso! Não me afaste de você desse jeito.

— Não vou! Apesar de que é natural que a gente não se fale tanto quanto antes. — Soltou meu cabelo e baixou o olhar. — Você agora anda ocupada com o namorado.

Não era possível que esse fosse o motivo para o seu mau humor!

Por que neste pouco mais de um ano, desde que ele terminou com Suzana, eu estava sempre perto, muito perto, e de repente… Ele estava mesmo sentindo a minha falta neste nível?

— O fato de eu estar com o Toni não muda nada. Sempre terei tempo para os meus amigos. Principalmente para o meu melhor amigo! — Fiz questão de frisar.

— Que bom!

Nic me puxou para outro abraço, do qual eu não gostaria de sair nunca. Então me afastou, tentando exibir um bom humor que ainda não tinha retornado por completo.

— Acho que devo pedir desculpas para as meninas.

— Seria gentil de sua parte — concordei, dando um tapinha em seu peito.

Ele assentiu, e eu o deixei com seus pensamentos e voltei para a minha mesa.

Mais tarde, pouco antes do fim do expediente, Nic surgiu no escritório com quatro embalagens. O sorriso ainda não era o habitual. Estava um pouco constrangido, eu diria, mas já era alguma coisa.

— Sei que isso não apaga minha rabugice dos últimos dias, mas espero que ajude a desfazer a impressão de chefe carrasco, que vocês sabem, eu não sou — explicou, colocando um pacote na mão de cada uma de nós.

— Todos temos momentos ruins, Nic. — Elisa murmurou.

— Mas isso não nos dá o direito de sair distribuindo patada. Me desculpem, meninas! — Piscou para mim e saiu.

— Gente, quando quiser aumento de salário vou pedir pra Karla falar com o patrãozinho. — Alice caçoou, enquanto abria a embalagem.

Milena me encarou com uma expressão cheia de curiosidade e divertimento, e apenas fiz sinal de que mais tarde conversávamos. Talvez não tudo…

Nic nos deu trufas, e suspeito que apenas no meu pacote havia um cartão.

“Desculpe! E obrigado!”

Sorri! Aquelas palavras eram suficientes para mim. Eu poderia até jogar as trufas fora. Acontece que elas eram de doce de leite!

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Espero que tenham gostado! ♥

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Os capítulos serão postados às sextas-feiras, podendo haver capítulo bônus na semana dependendo da interação de vocês.

Então chamem as amigas para curtir essa história!

Boa diversão e até a semana que vem! ♥

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