Nossa Razão / Capítulo 10

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Capítulo 10

Nic

A entrevista com Lívia, colega de faculdade de Milena, foi rápida. Ela era a primeira de três candidatas que eu avaliaria hoje, e o fato de ter disponibilidade para conversar comigo antes do início do expediente na transportadora, facilitou bastante a minha vida.

A garota mostrou-se bem interessada em ocupar a vaga oferecida. O curso de Tecnologia em Logística – o mesmo de minha irmã – contava pontos a seu favor. Apesar de outros itens precisarem ser avaliados, os quais fiz questão de deixá-la ciente.

— Serei bem franco com você, Lívia. Tenho mais duas candidatas para entrevistar, que também foram indicadas por conhecidos. Como você, elas têm disponibilidade para início imediato, então preciso que entenda que vou optar por quem se mostrar mais apta para o cargo.

— Claro!

— Ainda esta semana defino isso e te aviso, independentemente do resultado.

— Obrigada!

Acompanhei-a até a porta, vendo-a se despedir de Milena de forma discreta.

— Então, o que achou dela? — perguntou curiosa, assim que a colega desceu as escadas.

— Gostei, mas quero conversar com as outras duas meninas. — Olhei para Karla, a única outra pessoa no escritório àquela hora. — Elas confirmaram para hoje, certo?

— Aham! — resmungou, mais quieta que o habitual.

Bem, nós andávamos mesmo mais calados um com o outro. Porque eu estava impondo um pouco de distância ao não saber lidar com algo que a encorajei a fazer. Dar bola para o tal do Toni.

— Sofia teceu altos elogios para você. — Milena murmurou, mudando de assunto de repente. — Disse que gostou bastante da turma, mas que o meu irmão era o mais adorável.

A menina realmente era interessante. Certamente ainda tinha coisas a serem resolvidas com ela mesma, decorrentes do relacionamento, no mínimo estranho, que teve com o tal do Bernardo.

— Sério? — Karla sorriu com deboche, sem olhar para qualquer um de nós. — Se ela não tivesse dito, ninguém teria reparado! — completou, fechando uma gaveta com mais força do que o necessário.

— Tá falando do quê? — perguntei, interessado naquele arroubo inesperado.

— Ah, Nic, por favor. — Olhou-me com hostilidade. — Não se faça de tonto. A garota não tirava os olhos de você. Só faltou babar.

Claro que eu reparei. E talvez, só talvez, eu tenha usado Sofia ontem para reavivar minha autoconfiança. O que era ainda mais ridículo! Aproveitar-me da fragilidade de uma garota que tinha saído de um relacionamento abusivo há pouco tempo, para reforçar minha autoestima e tentar provar a Karla de que eu podia seguir em frente. Não que ela fizesse a mínima ideia a respeito daquilo.

— E há algum problema nisso? — perguntei, estranhando seu tom. — Em uma mulher me notar?

— Não fale como se não acontecesse o tempo todo!

— Que eu me lembre, sou livre e desimpedido — continuei, ignorando a alfinetada. — Ela também!

— Ótimo! — decretou com ironia. — Está esperando o quê? Vocês realmente formam um belo casal!

Olhei para ela, incrédulo. Que porra estava acontecendo? O que foi que eu fiz, afinal, para que ela destilasse tanta agressividade? Tudo bem, eu a estava tratando com um pouco de frieza, mas não seria esse o motivo para aquela explosão, seria?

— Tem razão! — afirmei, aproveitando a deixa. — Ela é linda, inteligente e, ao que parece, não é cega!

— Que bom! Talvez você aprenda algo com ela, então!

— Vocês podem continuar essa conversa esclarecedora na privacidade da sua sala, Nic? — Milena interveio, um meio sorriso cauteloso. — Alice e Elisa devem estar chegando.

— Tenho mais o que fazer! — esclareci, voltando ao trabalho, ainda sem entender o que aconteceu ali.

Fiz as outras duas entrevistas, e ao que tudo indicava, Lívia era a mais indicada à vaga, o que agradou muito Milena.

— Acho que não vamos nos arrepender — afirmou entusiasmada, quando passou pela minha sala. 

— Assim espero — resmunguei, sentindo um desgaste incomum para uma segunda-feira.

— O que foi aquilo com a Karla?

Eu já deveria esperar pela pergunta, para a qual não tinha uma resposta, apenas uma suposição.

— E eu é que sei? Vai ver que não ganhou do namoradinho ontem.

É, ao que parece, eles estavam namorando mesmo. Ouvi a conversa dela com minha irmã, falando do cinema, de quando ele a procurou na faculdade, e do final de semana, onde parece que as coisas se tornaram mais entusiasmadas.

— Não acredito que você fez um comentário machista desses! — censurou, e dei de ombros, pouco me importando para o que ela achava sobre a minha opinião. — E ela ainda não tá nesse nível com o Toni.

Gostei da informação. Apesar de não ser o bastante para me acalmar.

— O que explica o chilique de agora há pouco — falei, as palavras saindo amargas da minha boca.

Tentei não pensar em Karla com aquele cara, daquele jeito, e quanto mais eu lutava contra, mais a cena se desenhava na minha mente. Desde sábado à noite, quando ela disse que sairia com o tal sujeito, dando a entender que o programa seria extenso, eu me atormentei com a imagem dela nos braços dele.

— Você sabe que a Karla não é assim.  — Milena chamou minha atenção.

— As pessoas mudam.

— Às vezes acho que eu deveria falar e facilitar a vida de vocês. Ao mesmo tempo é meio divertido vê-los se enganando.

Voltei a olhar para ela, parada em frente à minha mesa. Milena sempre foi linda, mas depois que Gael entrou em sua vida, ela ganhou um ar mais leve, trazendo sempre um sorriso satisfeito no rosto.

— Maninha, não tô bom pra charadas hoje. Então, ou você desembucha, ou me deixa trabalhar, ok?

— Cabeça dura! — Despejou, saindo da minha sala, me deixando sozinho com os meus pensamentos, com a minha raiva e o meu ciúme.

Merda!

Não sabia o que era mais irritante naquela situação. Saber que Karla estava com aquele cara, ou reconhecer que eu tinha participação naquilo.

Que porra eu tinha que incentivá-la a dar uma chance a ele? Não que ela tenha sido influenciada pela minha opinião, mas imagino que a ajudei a se decidir.

Agora estava ali, remoendo, pensando que ele tinha tudo aquilo que eu queria. E pior, estava deixando a dor de cotovelo e o arrependimento por ser tão idiota, influenciar no meu estado de espírito, no meu trabalho, na minha relação com ela. Sim, meio que me afastei, tentando me proteger de vê-la satisfeita com alguém que não era eu. E o reconhecimento de tudo isso, só alimentava a vontade de querer descontar minha raiva em alguém!

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Espero que tenham gostado! ♥

Não esqueçam de me dizer o que vocês estão achando nos comentários, e de convidar as amigas! Quanto mais vocês interagirem, maior a probabilidade de eu liberar capítulo bônus!!

Os capítulos serão postados às sextas-feiras, podendo haver capítulo bônus na semana dependendo da interação de vocês.

Então chamem as amigas para curtir essa história!

Boa diversão e até a semana que vem! ♥

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