Nossa Razão / Capítulo 9

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Capítulo 9

Karla

Ele pediu para que eu o chamasse de Toni, diminutivo de Antônio. Formado em Ciência da Computação, trabalhava em uma renomada empresa de comunicação. Tinha vinte e seis anos e morava sozinho. E era ainda mais bonito de perto. Também era gentil, inteligente e direto, não escondendo o quanto chamei sua atenção ou como queria me conhecer melhor. Claro, tudo isso naquela quase meia hora em que ficamos conversando na pizzaria. Mas talvez o que mais tenha me surpreendido naquele domingo à noite, foi que quando retornei para a mesa – depois de trocarmos número de telefone – Nic não estava mais lá. Segundo Milena, por conta da tequila que tomou enquanto eu estava fora, o que ele confirmou em uma mensagem sucinta, mais tarde.

N – Foi mal não me despedir. Não quis interromper.

Isso foi há quase duas semanas. Desde lá, pouco conversei com Nic. Ele parecia mais atarefado do que o normal e talvez esse fosse o motivo do seu mau humor e da cara fechada. Até o encontro da turma, no domingo anterior, foi feito sem a sua presença. Tudo bem que eu não podia querer que ele estivesse o tempo todo ao meu lado, o que praticamente já acontecia, uma vez que trabalhávamos juntos, mas eu estava tão habituada com a sua companhia, que era estranho não ter um tempo com ele para conversar sobre qualquer assunto que não fosse trabalho.

Toni me chamou para ir ao cinema, no sábado. Foi divertido, e de certa forma romântico. Acabei não resistindo ao beijo de despedida que ele roubou de mim. Era muito bom me sentir querida e desejada, além de que fazia um tempo que eu não era beijada. Tudo bem que não senti fagulhas incendiarem meu corpo, tampouco arrepios, ao menos como eu imaginava que deveria sentir. Talvez fosse uma questão de tempo até me acostumar. Ele era legal e merecia meu empenho.

Deus! Que pensamento mais infeliz era aquele? Se empenhar em um relacionamento de anos pode até ser admitido, mas para gostar de alguém? Não rola, né?

Acontece que ele parecia bem interessado em levar adiante aquilo que começamos, que sinceramente eu não sabia nomear. Para mim, estávamos ficando, o que significava que não havia exatamente um compromisso.

Mas, certamente Toni pensava diferente, pois me surpreendeu no meio da semana, na faculdade.

A segunda aula estava terminando quando meu celular anunciou uma mensagem, a qual visualizei assim que o professor se despediu da turma.

T – Oi, linda! Tem cinco minutinhos?

K – Oi! Tô no intervalo. Pode falar.

T – Então desce. Tô aqui na entrada do seu bloco.

Parei, me situando com aquela visita inesperada.

Imagino que em uma situação comum, qualquer garota gostaria daquele gesto surpreendente. Já eu, não sabia dizer. Por um lado, era fofo ele passar por ali para me dar um oi. Ao mesmo tempo, um tanto invasivo.

Se fosse um cara que você gosta de verdade, estaria dando pulos de alegria!

Sim, minha consciência tinha toda a razão. Toni estava só fazendo aquilo que homens interessados em uma mulher – não necessariamente no plano afetivo – fazem. Cercando, seduzindo.

Desci, e não demorei a encontrá-lo. Seu sorriso se abriu facilmente ao me ver e tentei ser tão receptiva quanto ele.

— Desculpe o atrevimento em aparecer sem ser convidado, mas queria muito te ver.

— Gostei disso.

Por que eu estava mentindo?

— Mesmo? — Duvidou, quem sabe percebendo minha hesitação.

— Me pegou de surpresa.

— Era a intenção. — Puxou-me delicadamente para um beijo, que tratei de tornar discreto. Havia uma plateia muito grande para demonstrações mais íntimas. — Então, há alguma possibilidade de a gente sair esse final de semana?

— Hum, Gael vai para o apartamento novo e eu prometi ajudar ele e a Milena na mudança.

Eu até que estava bem empolgada por aquele programa nada comum. Será que era porque a companhia era a melhor que eu poderia querer?

— O final de semana todo?

— Não exatamente — tentei pensar rápido. — Que tal almoço no domingo? — propus, antes que ele sugerisse algo que tomasse todo o dia.

— Jantar, sem chance? — Encarou-me decepcionado.

Eu até poderia chamá-lo para o encontro dos meus amigos, mas não tinha certeza se já era hora. Levá-lo para a turma traria uma seriedade à relação que eu ainda não sabia se queria.

— Tenho compromisso à noite. Mas se você não puder…

— Almoço está ótimo.

Sorri, satisfeita em ter as rédeas da situação, e com isso, me sentir mais segura.

Olhei para o celular, conferindo as horas.

— Desculpe Toni, mas preciso ir. Minha aula já vai começar.

— Claro! A gente tira o atraso no domingo! — Tocou minha bochecha com carinho.

Não sei o que ele queria dizer com aquilo. Ou talvez soubesse, só não quisesse pensar a respeito.

Sorri e retribui o beijo, discreto novamente, me despedindo dele enquanto me perguntava por quais motivos eu não conseguia me entusiasmar com um cara bonito, inteligente e gentil.

Porque ele não é o Nic!

***

Não menti para Toni quando disse que me comprometi em ajudar na mudança de Gael e Diana, o que tomou todo o sábado. Preciso confessar que foi um pouco cansativo, principalmente para quem não está acostumada com esse tipo de coisa. Carregar caixas, ainda que não tão pesadas, e ajudar na arrumação de uma casa não estava dentro das minhas tarefas diárias. Claro que tinha por hábito ajudar minha mãe, mas meu tempo era bem reduzido, o que acabava por deixar coisas mais tranquilas para fazer somente aos finais de semana.

Diana se mostrou mais relaxada e comunicativa, em comparação ao dia em que nos conhecemos, no aniversário de Nic. Ela era tranquila, bastante observadora e adorava mimar o filho, e porque não dizer, todos nós?

Achei inusitado ela insinuar que via a mim e Nic como um casal, quando fez o convite a ele, para almoçar ou jantar outras vezes. Aquilo me pegou de surpresa, e esperei por um dos habituais comentários bem-humorados e insinuantes de meu amigo, que para minha decepção, não veio. Assim como nada do tipo, quando ganhei carona naquela noite.

— Quer que eu passe te pegar amanhã à noite? — Nic perguntou, quando estacionou em frente ao meu prédio.

Seu olhar sorridente para mim quase me fez aceitar a oferta. Quase!

— Não precisa. Vou almoçar com o Toni, e como não sei que horas estarei de volta, melhor eu ir com o meu carro.

— Programa demorado! — observou, desviando o olhar para a rua à nossa frente. — Vai apresentar ele pra turma?

— Não sei.

Nic assentiu, calando-se um instante, o que me levou a fazer o mesmo. De repente, o silêncio era incômodo.

— Obrigada pela carona — murmurei, desafivelando o cinto de segurança.

— Divirta-se amanhã!

Sorri sem vontade, dei um beijo rápido em sua bochecha e desci, caminhando sem olhar para trás.

***

Sabia que a maioria das garotas não se preocupava muito com o fato de conhecer um cara e já levá-lo para casa. Tampouco para a cama. Bruna era assim. Muito mais aventureira, costumava me criticar, dizendo que eu era quase neurótica com essa coisa de saber com quem estava me envolvendo antes de tornar as coisas mais quentes. Mas eu preferia assim, e se me sentia mais tranquila fazendo isso, a opinião dela e de tantas outras pessoas não fariam eu mudar meu jeito de ser, só para tentar me encaixar em um padrão. A vida, apesar de curta até aqui, me ensinou a ser mais criteriosa com as coisas e as pessoas. Sim, eu preferia manter um pé atrás, por questão de segurança mesmo. Poucas pessoas tinham cem por cento de mim.

Por esse motivo, disse a Toni que nos encontrávamos no restaurante, coisa que ele parecia achar estranho.

— Você é uma mulher ocupada mesmo ou só está me evitando? — perguntou assim que nos acomodamos em uma das mesas dispostas no deck do restaurante escolhido por ele, que ficava no Lado Sul da Lagoa da Conceição.

— Trabalho e faculdade me mantêm bem ocupada durante a semana. E os finais dela precisam ser administrados para todas as outras coisas e pessoas.

— Está querendo me dizer que um namorado não cabe na sua vida?

— É claro que cabe. Só…

— Não me quer oficialmente para o posto!

Suspirei, decidindo ser franca com ele.

— Prefiro ir devagar, Toni.

— Bem, parece que estamos fazendo isso. — Apontou para nós, não se preocupando em disfarçar o tom irônico em sua voz.

Perceber seu descontentamento me deixava lisonjeada. Era sinal de que ele não me considerava apenas para passar tempo, eu acho. Mas isso não me faria apressar as coisas. 

— Sinto muito se não é o que você esperava, e se preferir parar por aqui…

— Desculpe! — interrompeu, buscando minha mão. — Só, digamos que não estou acostumado com isso.

— Imagino.

— Mas acho que posso experimentar essa coisa de ir devagar.

— Que bom!

Fizemos o pedido ao garçom, e Toni se recostou, olhando-me com interesse.

— Então, como foi a mudança ontem?

— Meio cansativo, mas divertido. E só em ver a alegria de Gael e da mãe com a casa nova, já valeu a pena.

— Ele estava naquela turma, naquele domingo?

Sua curiosidade era genuína, uma vez que eu não tinha falado quase nada a respeito deles.

— Sim! É o namorado da Milena, minha melhor amiga.

— Parecia uma turma legal.

— Alguns são amigos de infância. Outros, vieram depois, mas são muito especiais — resumi.

— Bem, talvez eu possa confirmar isso quando os conhecer.

Óbvio que ele estava se convidando!

— Parece que você não acredita na minha palavra!

— Apenas sou meio desconfiado.

— Entendo!

Nossas bebidas chegaram, e eu dei uma atenção demorada à minha limonada.

— Quem era o cara ao seu lado naquele dia?

Por que ele tinha que lembrar exatamente de Nic? Era algum tipo de castigo?

— O irmão da Milena — murmurei, imaginando se naquelas poucas palavras era possível perceber meus sentimentos.

— Eu o peguei me encarando algumas vezes. Qual é a dele?

— Nic? Ah, ele é super gente boa. — Sorri instintivamente, como sempre acontecia pelo simples fato de tocar em seu nome. — É como um irmão mais velho. Nossas mães se conheciam antes de nascermos. A convivência próxima deu essa configuração pra nossa amizade. Ele é só meio exagerado nessa coisa de proteção.

Toni assentiu, mesmo não parecendo muito certo do que eu dizia. De qualquer forma, não podia julgá-lo. Sabe-se lá as experiências dele em outras relações.

O almoço foi tranquilo, com um clima leve e descontraído, mas ganhou outra conotação depois que deixamos o restaurante e fomos dar uma volta a pé. Em determinada altura, Toni buscou minha mão, e eu permiti que ele a segurasse durante todo o passeio. Também me beijou, quando atingimos uma área gramada, protegida pela sombra de algumas árvores, e apesar de afirmar há pouco que poderia experimentar ir devagar, seus gestos o contradiziam. 

— O que acha de irmos para um lugar mais tranquilo?

— Acho que aqui está ótimo!

Ele apenas sorriu e voltou a me beijar, insinuando suas mãos no alto da minha cintura.

Tentei prestar atenção na reação do meu corpo quando seus lábios avançaram em direção ao meu pescoço e ombros, e, um tanto frustrada, percebi que apesar de gostosos, não me despertaram aquelas labaredas ardentes.

Esquece o Nic! Abra seu coração para outra pessoa! Se permita ser feliz!

Era o que dizia a minha consciência, quando nos despedimos e Toni disse que sentiria saudade.

E eu realmente não deveria descartar a ideia de seguir em frente quanto a deixá-lo entrar na minha vida. Principalmente quando encontrei a turma, horas mais tarde.

Admirei a iniciativa de Milena de trazer Sofia, a garota que namorou Bernardo, amigo de Cauã, para o encontro daquele domingo. Ela parecia mesmo precisar de novas amizades, ainda que fôssemos um pouco distantes do padrão a que ela estava acostumada.

Sofia aparentava ser a típica patricinha. Rica, linda, um tanto mimada. Mas eu sabia que precisava dar um voto de confiança ao esforço dela em tentar se enquadrar, se misturar a novas pessoas, principalmente diante do que já tinha passado nas mãos de um cara tóxico.

Porém, era difícil fazer isso quando notei que o alvo principal de seus olhares e sorrisos, era o Nic. E mais, quando ele parecia retribuir.

Podia até ser neura minha, mas eu o sentia diferente comigo. Um pouco distante, talvez, e sua atenção para a nova integrante da turma só intensificava aquela impressão. Acho que estava na hora de eu rever minha decisão de não dar uma chance real a Toni.

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Os capítulos serão postados às sextas-feiras, podendo haver capítulo bônus na semana dependendo da interação de vocês.

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Boa diversão e até a semana que vem! ♥

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