Nossa Razão / Capítulo 8

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Capítulo 8

Nic

Ninguém recusou o encontro daquele domingo que, a princípio, parecia dentro do normal. A não ser por Lia, que eu sentia mais reticente. Apesar de me cumprimentar como de costume, percebi que evitava me olhar, trocando poucas palavras, apenas as necessárias. Já eu, não tinha muito o que fazer a respeito, a não ser tratá-la da forma habitual, trazendo-a sempre para a conversa.

Não vou negar que era uma questão que me deixava um pouco desconfortável. Não tanto quanto uma atenção desmedida para a nossa mesa, mais especificamente para Karla, ao meu lado.

Os olhares nada furtivos para a minha amiga vinham de um integrante de outra mesa, não muito distante da nossa. Desde que chegamos, percebi a mudança em sua postura, concentrado no que acontecia do lado de cá, certamente investigando se o foco do seu interesse estava disponível.

Não, não estava!

Pensar que aquilo não era verdade me fez fechar a cara momentaneamente. Quem era eu para determinar se Karla estava livre e desimpedida?

Só o cara que a quer para si, mas que até agora não promoveu nada para que isso aconteça.

Bem, talvez não seja bem assim.

As últimas conversas acabaram por me alertar para o fato de que, enquanto eu a tratasse como amiga, era só assim que ela me veria: como amigo. E eu nunca deixaria de ser, mas queria mais, muito mais, e precisava mostrar isso a ela. Independentemente de todas as determinações que ela tivesse tomado para si, nada deveria ser considerado como definitivo, certo?

E não foi impressão minha a reação que presenciei perante uma sutil mudança na minha postura. Sua surpresa diante de algumas de minhas palavras, sua incerteza frente ao meu comportamento, e o mais gratificante, o arrepio que a percorreu quando imprimi um pouco de ansiedade quando a ajudei com o biquíni, ou quando a beijei ontem, inocentemente, quando a deixei em casa.

Karla gostava de mim. Nunca tive dúvida quanto a isso, mas agora percebia que não era só uma coisa fraternal. Havia atração física! E isso é bastante coisa quando já há intimidade. Eu só precisava encontrar um jeito de entrar no coração e na cabeça dura dela.

— Você não percebeu mesmo, ou só está se fazendo de desentendida? — A voz de Lia chamou minha atenção. Sua pergunta era direcionada a Karla, que se remexeu ao meu lado.

Bem, parece que não fui o único a notar que ela era alvo de uma atenção incomum.

— Perceber é uma coisa, dar bandeira é outra. — Karla justificou, sorrindo para ninguém em específico.

Claro que ela tinha notado. Só era discreta demais para fazer alarde a respeito. E essa era mais uma coisa que eu admirava muito nela. Sua modéstia. Às vezes me perguntava se ela tinha noção do quanto era linda.

Ergui o olhar, e preciso admitir: o cara era confiante, pois não desviava os olhos dela.

Não espere que eu diga que ele era bonito. Não acho homens bonitos, ok? Mas sabia que ele fazia o estilo da mulherada. Sarado, como elas dizem. Do tipo que elas cobiçam e sonham para si. Ainda assim, não era páreo para mim.

Quando me dei conta de que seguia encarando o sujeito, virei o rosto para frente, encontrando Gael e Milena me observando com um sorriso divertido no rosto.

O que deu nesses dois? Ontem, durante o almoço, senti mais de uma vez olhares específicos para mim, quando o assunto se referia à nossa amiga e suas escolhas.

Vi quando Karla ergueu o olhar e deu uma conferida sutil em quem eu já considerava meu adversário.

Mas quem disse que eu estava no páreo?

A percepção disso caiu como uma bomba em meu colo. Eu ainda não tinha outro lugar em sua vida, que não o de amigo.

— Parece ser o seu número. — Sussurrei. E eu não estava falando do fato de ele ser negro e não ser um amigo, mas dos modelos que ela normalmente se interessava. — Vai lá! Tá dentro do seu padrão.

E sim, eu fiz isso. Incentivei-a a dar corda para o cara. A flertar com ele. Por que sou masoquista? Não, porque queria testá-la, observar sua reação, ver se ela faria aquilo enquanto estava ali comigo, enquanto ainda não era minha. Porque é óbvio que ela seria! Era só uma questão de tempo. E não, não estou sendo arrogante ao pensar assim, apenas realista.

Quando se convive com duas mulheres, você escuta e aprende coisas que farão de você um homem diferenciado. Se for inteligente e atento, é claro. E eu era tudo isso. Então, eu tinha alguns pontos a meu favor. Como o que Milena citou ontem mesmo, a respeito de elas gostarem de uma pegada mais depravada. Tá, creio que a maioria dos homens sabe disso, mas só a minoria consegue encontrar o equilíbrio entre a safadeza e a atenção que elas querem e merecem.

Certo, não era um bom momento para imaginar Karla daquela forma.

Senti que ela me encarava de um jeito estranho. Confusa, quem sabe? Não sei se ela queria algum tipo de aprovação, apoio, ou o quê.

— Talvez — Respondeu minha sugestão em um murmúrio sem entusiasmo.

— Ei! — Apertei sua mão sobre a mesa em um gesto de conforto. — Não é porque ele tá te secando, ou porque seus amigos apontaram isso, que você tem que se jogar. Você não é obrigada a nada, tá lembrada?

Seus olhos brilharam com minha referência às suas palavras do dia anterior.

Tá vendo! Eu conheço você, bailarina!

— Ele é bonito — Observou, dando um gole na sua bebida.

— Se quer que alguém concorde com você, pergunte para as meninas, não para mim — Esclareci, levando um pedaço de pizza à boca.

— Nic!

Usei o guardanapo e fiz questão de olhar para ela quando falei.

— O que importa é ele ser atencioso e te tratar com respeito. Em todos os sentidos.

Ainda assim, não será como eu!

— Eu sei.

Um gole de cerveja, um olhar na direção do cara, e o arrastar de sua cadeira, me disseram o que estava para acontecer.

— Já volto!

Karla saiu da mesa em direção ao deck lateral. Dava para ir aos banheiros por ali, mas eu sabia que não era essa sua intenção. Ela ainda não tinha chegado ao seu destino quando o sujeito levantou da mesa e a seguiu.

Eu chamei o garçom e pedi uma dose de tequila.

Cagada, né Nic? Agora aguenta!

— Nic! Você tá dirigindo! — alertou Milena, enquanto os demais pareciam distraídos com outro assunto.

— Quem bom que hoje não sou responsável por levar ninguém pra casa.

Eu estava de costas para o deck, portanto não conseguia ver a interação de Karla com o sujeito, mas a julgar pelos olhares e sorrisos dos meus amigos à mesa, imagino que estava sendo produtivo.

Duas doses de tequila e ela ainda não tinha retornado para a mesa. E toda aquela merda de autoconfiança que eu demonstrava antes, estava me abandonando covardemente. Antes que ela sumisse de vez, decidi ir embora.

— Nic, você está bem? — Lia finalmente olhou para mim com mais atenção, talvez preocupada. Normalmente eu era o último a sair.

— A tequila não me caiu bem — menti. — Boa semana pra todos. A gente se fala!

Milena me parou quando eu já estava alguns passos longe da mesa.

— Deixa o seu carro aí e vem com a gente — pediu, o semblante apreensivo.

— Tá tudo bem, maninha. — Sorri, acariciando seu cabelo. — Só tô a fim de ir pra casa. Acerta a minha parte na conta. Depois te pago.

Ela balançou a cabeça, contrariada.

— Vocês são dois cabeças duras!

Do que ela estava falando?

Dei um beijo em sua bochecha e segui em direção a saída.

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Espero que tenham gostado! ♥

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Os capítulos serão postados às sextas-feiras, podendo haver capítulo bônus na semana dependendo da interação de vocês.

Então chamem as amigas para curtir essa história!

Boa diversão e até a semana que vem! ♥

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