Nossa Razão / Capítulo 6

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Capítulo 6

Nic

Cheguei do almoço e subi direto para a minha sala, imaginando que não encontraria ninguém pelo escritório, já que ainda faltavam bons minutos para o início do expediente. Só que Karla já estava lá, sozinha, concentrada em algo, de costas para a entrada.

Fiquei parado um tempo, admirando-a sem que ela percebesse. A semana foi corrida, com minha atenção toda direcionada ao novo contrato, deixando-me pouco tempo para outros assuntos, ainda que eles não abandonassem completamente minha cabeça. Estavam apenas relegados a outro momento.

Sorri, lembrando-me da nossa conversa no domingo. De como Karla se colocou na defensiva, como de costume, mas também, de como se mostrou confusa com tudo o que falei a respeito daquele sentimento, que parecia ganhar força e dimensão a cada dia dentro de mim.

A conversa também serviu para confirmar que minha melhor amiga não acreditava que um relacionamento pudesse surgir de uma amizade, pior ainda se fosse com um homem branco. Eu tinha dois itens para expurgar de sua mente. Ela podia ser cabeça dura e alheia ao que eu tentava mostrar, mas eu era persistente e paciente.

Aproximei-me em silêncio, sem deixar de reparar em suas curvas, que a cada sonho que invadia minhas noites, eram mais tentadoras.

— Entregou seu trabalho? — perguntei baixinho, bem perto de seu ouvido, o que a fez estremecer sobressaltada.

— Nic! Que susto! — Levou a mão ao peito, os olhos arregalados.

— Desculpe! — Pedi, mas não escondi o riso de satisfação por surpreendê-la daquela forma.

— Você fez de propósito! — Cerrou os olhos, furiosa e um pouco divertida, dando-me um leve empurrão.

— Eu? Imagina. — Pisquei. — E então, deu tudo certo?

— Sim. — Virou-se totalmente de frente para mim, apoiando os quadris na beirada de sua mesa. — Agora é esperar a nota.

— Tem dúvida de que será um dez?

— Estou contando com isso. — Suspirou, um tanto ansiosa. — O Jorge é bem acessível, então talvez eu consiga saber da nota antes do fechamento do bimestre.

— O Jorge? — perguntei, surpreso com a informalidade dirigida a quem eu presumia ser o professor.

— O professor — Confirmou, esboçando um meio sorriso atrevido. — Ele não deve ter muito mais do que a sua idade, e disse que se sente mais próximo dos alunos, se o chamarem pelo primeiro nome apenas.

— Dos alunos? Ou das alunas? — Contestei, sabendo que as rugas em minha testa davam ainda mais ênfase à minha desconfiança.

— Aff Nic! — Bufou, quase ofendida. — Ele é super respeitoso.

— Tá bom! — Antes que ela argumentasse, mudei de assunto, vendo de canto de olho minha irmã já se aproximando. — Escuta, precisamos conversar sobre a escala de férias. Infelizmente, sem condições de fazer coletivas aqui no administrativo esse ano.

— Gael vai trabalhar normalmente, então, não se preocupem comigo. — Milena se inseriu na conversa, parando ao nosso lado. — Não faz sentido eu sair e ele ficar.

— Ano passado isso não era uma preocupação pra você. — Comentei, lembrando-me de que ela não fez muita questão de folgar no mesmo período que Cauã.

— Ano passado eu não tinha um namorado pelo qual era loucamente apaixonada — Declarou com aquela expressão arrebatada que não abandonava seu rosto. — O amor faz a gente pensar de forma diferente. Coisas que antes não pareciam ter tanta importância, agora tem demais.

— Um tanto piegas — Debochei.

— Muito fofo! — Karla rebateu.

— Quero ver você queimar a língua quando encontrar a mulher da sua vida! — Milena disparou e eu quase, quase olhei diretamente para aquela referência.

Karla riu e mostrou a língua para mim, voltando-se para a amiga.

— Mi, sabe aquela loja de moda praia, que a gente segue no insta? Acabei de ver que a coleção de verão já chegou. Podíamos dar um pulinho lá no sábado, o que acha? — Sugeriu cheia de entusiasmo.

— Algum problema se o Gael for junto?

— Não. Por que haveria?

— É que talvez seja o último sábado livre dele. No próximo é bem provável que ele e Diana voltem para a areia

— Podemos deixar para outro dia, então. Vai curtir seu namorado.

— Não, vai ser legal ter ele conosco.

Não sei se elas faziam de propósito ou realmente esqueceram da minha presença.

— Não se preocupem comigo aqui. Muito menos em me incluir no programa — anunciei, entre ofendido e irônico.

— Você não tem nada melhor para fazer? — Milena sorriu debochada.

— Sua sutileza em me tirar do passeio é admirável, maninha.

— Homens não costumam gostar desse tipo de programa. Compras femininas — justificou.

— Nesse caso, preciso confirmar a masculinidade do seu namorado — adverti.

— Engraçadinho. — Um brilho malicioso iluminou seus olhos. — Ele é parte interessada. Quero a opinião dele.

— Pensei que você tivesse superado essa coisa de se vestir com base na opinião do namorado.

Era algo que me incomodava quando ela estava com Cauã, e de forma sutil, eu tentava fazê-la perceber o quanto se deixava manipular, cedendo às vontades do cara. Ainda bem que ela acordou a tempo!

— Situação totalmente diferente. O Gael não julga minhas escolhas. Isso não quer dizer que eu não aprecie a avaliação dele depois de eu ter determinado algumas opções.

— Acho que você tá dando bola fora hoje, Nic. — Karla alfinetou e só pude balançar a cabeça.

— Difícil entender vocês mulheres.

— Não tanto quanto vocês, homens.

— Aham! Claro!

Vozes e passos soando na escada anunciaram que estava na hora de voltar ao trabalho.

— Quer ir com a gente então? — Milena perguntou quando fiz menção de voltar para a minha sala.

— Só se eu não for atrapalhar o trio.

— Para de fazer drama Nic. — Karla criticou às minhas costas. — Combinamos a logística depois?

— Claro! — Virei-me para ela. — Eu te pego. Você me pega… — Dei de ombros e deixei escapar, junto de uma piscadela e um sorriso malicioso. — A gente se pega…

Ainda tive tempo de ver a surpresa estampada no rosto das duas, antes que eu entrasse e fechasse a porta da sala.

Karla

— O que foi isso?

Ouvi a voz de Milena soar admirada, enquanto eu me perguntava o mesmo.

Estava imaginando coisas ou aquilo foi uma espécie de…

Não, não tinha nada de cantada. Era só uma brincadeira, como tantas outras que Nic distribuía aleatoriamente.

— Seu irmão deu de fazer gracinhas ultimamente — Expliquei de forma sucinta, tomando meu lugar à mesa para voltar a trabalhar. Acontece que minha amiga não se satisfez com aquelas palavras.

— Ele sempre fez gracinhas, Karla. Só não deste tipo. — Acrescentou e senti seu olhar me estudando.

Eu não tinha comentado com a minha melhor amiga, as ideias e conceitos que Nic andava disparando em minha direção. Primeiro, porque eu ainda não entendia o que elas realmente significavam. Segundo que, mesmo que tivéssemos por hábito confidenciar nossas incertezas e inseguranças, bem como debatermos sobre nossas opiniões acerca de qualquer assunto, eu simplesmente não o podia fazer nesse caso. Não quando eu não tinha coragem de falar a verdade a ela.

Desconfiava que Milena ficaria extremamente feliz ao saber dos meus sentimentos pelo irmão, mas também sabia como ela podia ser incansável ao tentar me convencer de algo, neste caso, de me declarar. E eu não estava pronta para isso. O medo da rejeição me rondava dia e noite. Pensar em ouvir um fora, como aconteceu com Lia, embrulhava meu estômago. Sim, eu era covarde nesse quesito. Preferia a dúvida, se é que assim poderia nomear algo que nunca tive sequer um indício, do que a certeza de não ser boa o bastante para ele.

— Karla?

Milena me chamou, e quando ergui os olhos, vi a pergunta ainda lá, pairando em seu semblante.

— Nic só está tirando sarro porque contei a ele sobre o papo do Lucca no domingo, quando me deu carona.

Sobre isso, eu tinha conversado com minha amiga.

— Ah! Acho que tô ficando meio lerda, porque não entendi o que uma coisa tem a ver com a outra, mas tudo bem. Se é o que quer me contar.

— Não tem nada mais para contar, Mi.

— Ok! — Ergueu as mãos em sinal de rendição, e seguiu para a sua mesa.

Merda! Eu detestava não poder me abrir com ela. Ah, o que estava dizendo, é claro que eu podia, só não queria. Por mais que Milena compreendesse todas as minhas inseguranças, ela de fato não as conhecia, não as sentia. E isso nada tinha a ver com má vontade. Era uma coisa de pele, literalmente.

***

Era meio da tarde quando Taís interfonou, informando que havia uma visita para Nic. Não era incomum ela me avisar, quando não conseguia contato com o patrão.

Bati à porta, e dei dois segundos antes de abri-la. Nic estava ao telefone e rapidamente colocou a mão sobre o aparelho, me dando permissão para falar.

— Você tem visita. Estela!

Pela sua expressão, acho que não era algo previamente marcado.

— Pode recebê-la pra mim, por favor? Já estou finalizando aqui.

Assenti e desci as escadas, deparando-me com uma jovem mulher que fez com que imediatamente a inveja despontasse em mim.

Ela não era apenas bonita, em seus quase um metro e oitenta de altura, imagino, e suas curvas de parar o trânsito, como se diz por aí. Ela tinha uma postura segura, confiante, quase desafiadora.

O vestido de tom off white contrastava com a pele negra, e as tranças box braids[1] por toda a cabeça, alcançavam a altura do peito, deixando-a estilosa.

Aproximei-me, quase acanhada diante de sua presença marcante.

— Boa tarde. Senhora Estela, certo?

Ela virou para me olhar, e sua beleza me atingiu novamente. Uma maquiagem discreta realçava o que já era magnífico, e o sorriso, brilhante e sincero, completava um pacote que certamente chamava a atenção por onde passava.

— Por favor, falta muito para eu carregar o título de senhora. — Sorriu, sem parecer ofendida. — Sou a Estela sim, e você? — Estendeu a mão para apertar a minha.

— Karla! Muito prazer!

— O prazer é todo meu, Karla! — Olhou-me com atenção, parecendo aprovar o que via, o que não era nem perto da aparência que ela ostentava.

Meu jeans preto de corte reto dava mais formalidade à peça, e combinado com um sapato de salto médio e blusa cereja, promovia o tom adequado ao estilo profissional que eu tentava manter no escritório.

— Nic está encerrando uma ligação, e pediu que eu a acompanhasse até a sala dele. — Indiquei a escada, pela qual ela seguiu ao meu lado.

— Eu deveria ter avisado, mas estava por perto e decidi entrar, conhecer as instalações de quem cuidará da nossa logística agora.

O novo contrato das Indústrias Ricci?

— Fizeram a escolha certa. O senhor Henrique e o Nic primam por excelência para os clientes e funcionários.

— Pude perceber em nossas reuniões. — Afirmou, dispensando um sorriso às meninas do escritório, antes que chegássemos à porta da sala de Nic.

Bati, como de costume, e entreabri, vendo-o livre.

— Obrigado Karla! — Agradeceu, já vindo ao nosso encontro. — Estela! Que ótima surpresa.

— Espero não estar atrapalhando. — Desculpou-se, não apenas esticando a mão para ele, mas também se inclinando para receber um beijo na bochecha.

Por que um formigamento estranho tomou conta de mim ao ver aquilo? Nic sempre beijava as amigas!

Estela não é amiga! É uma mulher relativamente desconhecida, linda e segura de si.

— De forma alguma. Você já conheceu a Karla. — Ele apontou para mim. — Ela é praticamente o meu braço direito aqui dentro.

— Hum, espero que isso não signifique que você se aproveita da boa vontade dela. — Discursou, em um tom quase acusatório.

— Ok, talvez às vezes eu passe do ponto e a sobrecarregue. — Ele confessou.

— Só me diga que ela não te serve cafezinho. — Estela o encarou desafiadora, e acho que entendi o que ela estava querendo dizer nas entrelinhas.

— Sou eu quem a serve. — Nic voltou-se para mim, e aquele sorriso, cheio de um carinho implícito, se desenhou em seus lábios.

— Isso é verdade, Karla?

Olhei para Estela, que esperava minha confirmação.

— Sim. Com exceção de quando chego mais cedo, ele não me deixa colocar a mão na garrafa.

E só ali eu captei o gesto de Nic. Ele não fazia aquilo apenas por gentileza, mas para que não restasse dúvida do meu papel ali dentro da empresa. Eu era uma assistente administrativa, e nunca deveria ser confundida com a moça do cafezinho, para ninguém. E por que eu não me surpreendia com aquilo?

— Você acabou de ganhar pontos comigo. — Estela demonstrou seu contentamento, piscando para ele, que apenas curvou a cabeça em entendimento.

— E o senhor Giovanni, como está? Por que não veio com você? — Nic indicou uma cadeira para que ela se acomodasse.

— Ah, foi uma coisa meio impulsiva minha. E o papai adora ficar enfurnado no escritório. Acho que ele declinaria do meu convite.

Papai? Ah, ela era o pacote completo, definitivamente!

— Bem, se vocês me dão licença, tenho trabalho me esperando. — Interrompi, querendo colocar meus pensamentos em ordem, longe dali.

— Adorei te conhecer, Karla. — Estela abriu um sorriso caloroso e sincero. — E não permita que ele abuse da sua dedicação.

Ela não parecia íntima demais não?

— Pode deixar — assegurei-a. — Se precisar de alguma coisa, Nic…

— Obrigado, Karla!

Deixei a sala surpresa, confusa, e porque não dizer, enciumada.

Surpresa, pela notícia de que ela era nada mais, nada menos, do que a filha do senhor Giovanni, um italiano que se estabeleceu no Brasil ainda jovem, e colocou seu conhecimento culinário montando uma indústria alimentícia. Confusa, por ver que ela não compartilhava dos mesmos genes que o pai, um homem branco. Não que isso fosse algo improvável. Era só uma questão genética. E enciumada? Bem, porque ela parecia íntima demais de Nic para uma quase desconhecida.

Depois de mais de meia hora, Estela e Nic deixaram a sala para que ele a levasse a um tour pela empresa. Ela foi apresentada à Milena, e novamente se mostrou mais simpática e atenciosa do que eu gostaria.

Ah, que horror! Agora eu estava desejando que a mulher fosse repugnante, por puro capricho meu?

Só posso dizer que o meu trabalho não teve o mesmo gosto habitual, e quando, mais tarde, Nic me chamou à sua sala para conversarmos a respeito da programação de férias, eu estava meio azeda, confesso.

— Estela gostou de você — disse ele, de repente, interrompendo o esboço que traçávamos.

— Estranho, já que nem conversamos direito. — Esquivei-me, focada em minhas anotações.

— Identificação, talvez?

— Talvez! — Dei de ombros, quase indiferente. — Muito bonita ela. — Acrescentei.

— Uma gata!

Seu tom de voz, ao emitir o elogio, me fez erguer os olhos imediatamente. Nic me encarava, como se quisesse me fazer enxergar alguma coisa.

— Não fazia ideia de que fosse filha do senhor Giovanni até ela mencionar isso — expus minha surpresa, e nem sei por quê.

— Ela é a cara da mãe, que aliás, também trabalha na empresa, como diretora financeira. Já o irmão, é uma cópia fiel do pai.

— Branco? — Não contive a pergunta, que saiu em um timbre impressionado.

— Como leite!

— Uau! E ela preta como café! — Soltei sem pensar.

— Quer combinação mais saborosa do que café com leite?

Por que a brincadeira de Nic soou excitante para mim?

Simplesmente porque ele deu esse tom à pergunta, por algum motivo que eu não fazia questão de decifrar agora, apenas contestar.

— Você não toma café com leite!

— Tem razão. Prefiro o meu puro!

Do que estávamos falando, meu Deus? Por que Nic parecia mais… atrevido?

Pigarreei, voltando para as minhas anotações.

— Podemos fechar assim a escala de férias?

— Tem certeza de que você não quer o período das festas?

— Você está me dando privilégios, Nic?

— Não conta pra ninguém! — Piscou, e me apressei em levantar, antes que eu dissesse quais eu queria.

— Vou passar para o Gael o que determinamos aqui. Se eventualmente ele tiver algo a acrescentar em relação ao pessoal do pátio, eu te aviso.

— Obrigado, Ka.

Forcei um sorriso diante da tensão que enrijecia meus ombros, e voltei para a minha mesa.

Eu precisava entender, e principalmente saber lidar com aquela nova faceta de Nic.


[1] Tranças individuais feitas em toda a extensão do cabelo e que tem como papel unir os fios naturais aos fios sintéticos.

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Espero que tenham gostado! ♥

Não esqueçam de me dizer o que vocês estão achando nos comentários, e de convidar as amigas! Quanto mais vocês interagirem, maior a probabilidade de eu liberar capítulo bônus!!

Os capítulos serão postados às sextas-feiras, podendo haver capítulo bônus na semana dependendo da interação de vocês.

Então chamem as amigas para curtir essa história!

Boa diversão e até a semana que vem! ♥

2 comentários

  1. Cada dia mais ansiosa pelo livro todo este casal promete e muito

  2. Meus Deus a cada capítulo minha ansiedade aumenta 🙈.
    Que venha logo o lançamento ❤️

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