Nossa Razão / Capítulo 5

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Capítulo 5

Karla

— Como prometido! A sua preferida!

Nic ergueu uma pequena sacola diante do meu rosto, e seu sorriso e uma piscadela fizeram meus lábios se distenderem de um canto a outro da face. Deus, ele era tão lindo, tão fofo!

— Isso quer dizer que você colocou a tia Renata para trabalhar! — Observei, dando um beijo em sua bochecha e fechando a porta atrás de nós.

— Não me julgue tão ineficiente — Defendeu-se, me seguindo até a cozinha. — Tudo bem que eu perdi uma lata porque passou do ponto, mas na segunda tentativa, acertei.

— Uau! Quase um chef! — Caçoei, tirando da sacola uma lata de leite condensado cozido.

Nic tinha razão. Não havia sobremesa que eu gostasse mais do que doce de leite. E nada daqueles prontos. Tinha que ser o original, cozido na panela de pressão, com gostinho de infância.

Coloquei a lata sobre a bancada de granito, mas meu amigo me impediu de me mover, colocando-se à minha frente de braços cruzados e uma expressão questionadora.

— O quê? Você quer comer agora?

— Diante do que tenho pra contar, acho que vamos precisar — Informou em um tom quase sinistro.

— Hum, normalmente isso pede álcool. — Voltei para abrir a lata, enquanto ele pegava duas colheres.

— Eu sei! Mas temos trabalho, então o doce há de servir.

Ri da seriedade que ele tentava imprimir, mas não conseguia.

— Para de fazer suspense e me fala de uma vez.

Nic me empurrou em direção à sacada, ocupando sem demora uma ponta da rede, esperando que eu tomasse meu lugar na outra ponta.

— Cadê seus pais?

— Foram ao shopping. Minha mãe precisava comprar alguma coisa.

Peguei uma colherada do doce e passei a lata para ele.

— Lucca te deixou direitinho em casa ontem? — perguntou, concentrado em sua porção. Não era surpresa alguma que ele já soubesse disso.

— Aham.

— Te cantou?

— O que… — Quase me engasguei diante da pergunta direta. — Como… Por que você acha que ele me cantaria?

Nic deu de ombros e me devolveu o doce.

— Por qual outro motivo ele te daria carona?

— Por ser meu amigo? Como você?

— Você está mesmo comparando a amizade dele com a minha?

Fiquei em dúvida se o seu tom era ofendido ou debochado.

Eu o conhecia desde os meus sete anos, e desde lá, ele era mesmo quase um irmão. Já Lucca e Kaique entraram para a turma quando eu e Milena estávamos no Ensino Médio, portanto, tínhamos bem menos tempo de convivência, e consequentemente de intimidade. Claro que isso não era parâmetro para qualificar o relacionamento, mas nunca, nenhuma amizade, poderia ser comparada com o que eu tinha com Nic. A gente se conhecia pelo olhar, pelo tom de voz. Ok, algumas vezes ele me enganava, e eu a ele.

— Ele não me cantou — expliquei. — Só… trouxe à tona o que aconteceu aquela vez.

— Ah, ele achou que relembrando o beijo ia rolar alguma coisa?

— Não sei. — Dei de ombros, sem querer dar mais importância ao assunto do que ele merecia. — Eu cortei antes que ele se prolongasse.

— Hum.

Um minuto de silêncio para saborearmos o doce, até que resolvi falar.

— E ontem? Tudo bem com a Lia?

Nic se ajeitou na rede e eu tive certeza de que estava ali o que ele precisava me contar.

— Tudo. — Limpou a garganta. — Até ela me beijar.

Deixei a colher cair no meu colo, e quem sabe um pouco de doce escorrer da minha boca.

— Beijar, tipo, na boca?

— Sem língua. — Piscou, malicioso.

— Nic!

— Só tô esclarecendo os fatos, para o caso de você ficar com ciúme.

O quê? Como ele… Argh! Nic e suas pegadinhas!

— E daí?

— Em seguida ela disse que gosta de mim, como mais do que um amigo.

Puta merda! Que cachorra! Não! Quer dizer… Eu não podia xingá-la só porque ela fez aquilo que eu deveria fazer.

Karla, sua covarde!

— Então ela decidiu falar! — Sussurrei mais para mim mesma.

— Decidiu? — Nic me olhou desconfiado. — Como assim?

Boca grande hein, Karla?

Suspirei, contando a verdade.

— No seu aniversário, quando você estava tocando, ela disse que estava pensando em dizer o que sentia. Pediu conselhos a mim e a Bruna.

— E você a incentivou?

— Não! Mas talvez a Bruna tenha feito isso quando disse que acha que você gosta de alguém.

Ok, quem sabe eu tenha falado demais, de novo. Mas valeu a pena, só para ver meu amigo calado, pensativo, quase se entregando. Será que a Bruna estava certa?

— Ela acha é? — Ele tentou se fazer de indiferente, brincando com a colher na boca.

Tarde demais, Nic!

— Aham. Tipo, um amor platônico.

Mais uma pausa dele para degustar o doce, longa demais eu diria.

— Interessante. — Estalou a língua e ergueu aqueles olhos azuis cristalinos e travessos para mim. — E você, pensa como ela?

Puxei uma respiração um pouco mais funda.

— Acho que você me diria.

— Bem colocado. — Aprovou, sem realmente dizer nada. — Você acha que de alguma forma incentivei a Lia?

A sutil mudança no rumo da conversa só reforçava a teoria de nossa amiga. Eu até poderia insistir, mas sabia que não arrancaria mais nada de Nic. Não dessa forma. Então optei por seguir o curso que ele dava. Eu ainda poderia tirar algo dali.

— Não deliberadamente, mas …

Interrompi minha fala, pensando se deveria dizer que Nic sendo ele, era o suficiente para despertar a paixão em uma mulher.

— Mas?

— Você é atencioso, Nic, protetor, inteligente, bem-humorado, prestativo.

Fez um gesto com a mão e acrescentou.

— Pode continuar.

— Ah! E convencido! — Acrescentei, adorando apreciar seu sorriso. — Garotas mais carentes podem confundir essa atenção toda com amor.

O sorriso foi murchando devagar, enquanto sua expressão ia ganhando seriedade e intensidade.

— E será que o amor é muito diferente de tudo isso que você enumerou?

Certamente não o meu amor por ele!

— Não! — Firmei a voz — Mas tudo isso seria focado com mais intensidade, com mais relevância, em uma pessoa apenas.

— Tratamento diferenciado?

— Por aí!

Não consegui desviar do olhar de Nic, de repente tão quente e abundante, tão intenso e analítico, como se quisesse ir além, descobrir algo.

Roubei a lata de sua mão, para ter algo em que me concentrar que não fosse ele, e voltei para o início da conversa.

— Fiquei chateada pela Lia. No fundo, ela foi corajosa.

Coisa que você deveria ser, não é Karla?

— Tem razão, mas ficou um clima estranho.

Não pude deixar passar.

— Quando eu digo isso, você não acredita. Tá aí!

— É diferente.

— Não tem nada de diferente, Nic. Vocês são amigos, ela te beijou, se declarou. Você disse que não corresponde ao sentimento dela, e agora cada vez que olharem um pro outro, vão lembrar da situação embaraçosa.

Descrevi o medo que me impedia de alimentar aquele sentimento por ele.

— Daqui a pouco tudo volta ao normal.

— Não se o que ela sentir por você for algo forte, amor de verdade.

— E o que você sugere que eu faça? — Ergueu a voz, impaciente.

— Nada. Só estou dizendo que esse negócio não dá certo — Reforcei.

— Você nunca tentou, pra saber — Rebateu.

Não sei exatamente o que ele queria dizer com aquilo, mas arrisquei a pergunta.

— Tá sugerindo que eu dê uma chance ao Lucca?

Eu gostaria de dizer que o que vi em seu rosto foi uma expressão de raiva misturada a decepção, mas era somente um dos meus devaneios.

Nic se inclinou para perto de mim, e sua voz soou baixa e ao mesmo tempo profunda.

— E se ele te amasse, de verdade?

Aonde ele queria chegar com aquilo?

— Assim como talvez a Lia te ame?

— E se você o amasse? — Prosseguiu, ignorando minha réplica. Bufei uma risada sem humor.

— Quantas suposições, Nic. Essa coisa com a Lia mexeu mesmo com você.

— Se você e ele se amassem, ia importar essa coisa de amizade?

— Não! — disse em um ímpeto. — Se o sentimento fosse recíproco, nada mais importaria.

— É só uma questão de ele fazer você se apaixonar, então.

Que merda era aquela? Eu já não conseguia identificar o quê daquilo tudo era verdadeiro ou suposição.

— O Lucca não me ama, Nic — esclareci. — É só físico. E quanto a fazer a outra pessoa se apaixonar por você? Sinceramente, não acredito que seja possível. Sentimento não se força, ele só acontece.

— Já ouviu falar em conquista? Sedução? Alimentar algo que pode já estar semeado, não faz mal algum.

Acho que ele estava falando do tal amor platônico, que Bruna sugeriu.

Bem, parece que nossa conversa abriu essa porta para ele. Sortuda da mulher que tivesse não só Nic, mas o empenho dele em despertar seu amor.

Todo Azul do Mar – 14 Bis

Foi assim

Como ver o mar

A primeira vez

Que meus olhos

Se viram no seu olhar

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Espero que tenham gostado! ♥

Não esqueçam de me dizer o que vocês estão achando nos comentários, e de convidar as amigas! Quanto mais vocês interagirem, maior a probabilidade de eu liberar capítulo bônus!!

Os capítulos serão postados às sextas-feiras, podendo haver capítulo bônus na semana dependendo da interação de vocês.

Então chamem as amigas para curtir essa história!

Boa diversão e até a semana que vem! ♥

4 comentários

  1. Nossa! Nic cada dia chegando mais perto e dando mais bandeira, como a Karla é lenta hehehe
    Super curiosa pelos próximos capítulos

  2. Sinceramente não sei se Karla se faz de burra ou realmente o medo está cegando,por que mais indireta que o Nick lança impossível .
    Que chegue logo o lançamento.

  3. Será que agora o Nic vai investir na conquista de vez

  4. Ele é muito fofo e ela muito medrosa.

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