Nossa Razão / Capítulo 4

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Capítulo 4

Nic

Enquanto esperava Lia fazer o RX, eu tentava me lembrar se tive alguma participação naquele acidente. Só esperava que não fosse nada grave e que ela não entendesse minha preocupação como algo a mais.

Não pude deixar de notar os olhares, a voz macia, e, talvez — não quero ser inadequado em meu julgamento — um exagero no lamento da dor. Não queria supor que Lia estivesse se aproveitando da situação para tentar criar um clima, mas tudo levava a crer que sim. E que eu teria que ter manejo com a situação.

Karla me alertar de que nossa amiga tinha esperanças quanto a mim, foi só a reafirmação do que eu já sabia. É claro que eu já tinha notado os sinais, mas era mais sábio me fazer de desentendido. Talvez ela esquecesse. E nem queria pensar a respeito de como soaria quando eu e Karla… Merda! Não existia ainda eu e Karla. Nem a curto prazo, eu diria. Cada vez que eu tentava dar um passo à frente, uma insinuação, ela recuava.

Enviei uma mensagem ao grupo da nossa turma, avisando que ainda estávamos no PS, e outra a Milena, reforçando o pedido para que levasse Karla para casa. 

M – Ela foi com o Lucca.

N – Por que o Lucca?

M – Porque ele ia para os lados da casa dela. Algum problema?

N – Não.

Merda!

Ok, Lucca não era uma ameaça para mim. Não que ele não fosse um cara boa pinta, mas não fazia o estilo da Karla. Ele era muito atirado, afoito, e eu sabia que ela não curtia esse tipo de abordagem. Além de que já havia levado um fora dela. Quer dizer, ela não reconsideraria caso ele insistisse, certo?

A porta de um dos consultórios se abriu, e Lia saiu de lá com a ajuda de uma médica.

— Ei! Como você tá? — Fui encontrá-la, e ela não demorou a se apoiar em mim.

— Com dor. 

— O RX revelou uma contusão — explicou a médica, trazendo alívio para a minha apreensão. — Ela deve manter o pé elevado para evitar o inchaço. Fazer compressas de gelo e, dentro do que for possível, alongamentos leves, para melhorar a circulação sanguínea e a amplitude de movimentos. O remédio vai ajudar a aliviar a dor. Em cinco dias deve estar melhor — instruiu, provavelmente me tomando como responsável pelos cuidados. 

— Ainda não consigo colocar o pé no chão. — Lia fez uma careta.

— Até amanhã você deve sentir uma melhora nesse aspecto — esclareceu a médica, estendendo um receituário.

— Obrigado! — Dispensei um sorriso à mulher e voltei a atenção para a minha amiga. 

— Vem, eu te ajudo.

Minha intenção era apoiá-la até o carro, mas Lia não perdeu tempo em enlaçar meu pescoço, o que indicava que ela tinha esperanças de que eu a carregasse no colo novamente. Foi o que fiz, para evitar constrangimento diante de outras pessoas. 

— Que bom que não foi nada mais grave — reconheci, colocando o carro em movimento logo depois de acomodá-la no banco do passageiro.

— Sim. E obrigada, Nic, por me trazer e esperar.

— Não tem que agradecer. Qualquer amigo que se preze, faria isso.

— Acabei estragando a diversão de todos — murmurou em um tom desanimado.

— Imprevistos acontecem, Lia. Poderia ter sido com qualquer um de nós. O importante é que você está bem agora.

Ela assentiu, e tentei trazer descontração para um silêncio que se instalou de repente, comentando a respeito daquela tarde com a turma.

Depois de passar na farmácia para comprar o medicamento receitado, estacionei em frente à sua casa, dando a volta no veículo para abrir a porta e ajudá-la a descer. E não posso negar que tenha sido tomado pela surpresa quando, já em pé ao lado do carro, mas ainda apoiada em mim, Lia avançou os poucos centímetros que nos separavam e encostou os lábios no canto da minha boca.

Tentei dar naturalidade ao contato, como se fosse um beijo de agradecimento que apenas tivesse escapado de lugar. Mas Lia repetiu, dessa vez, diretamente em meus lábios.

— Eu gosto de você, Nic — sussurrou, a expressão ansiosa. — Como mais do que amigo.

— Lia…

Não era o local mais apropriado para ter aquela conversa, mas eu precisava frear seu impulso e esclarecer a situação. Não era correto deixá-la alimentar ainda mais esperança. 

Interpus um espaço considerável entre nós, para que pudesse falar olhando diretamente em seus olhos, e fui em busca das palavras certas, pensando como eu poderia fazer isso sem magoá-la.

— Você é uma menina legal, Lia, e …

— Ok, não precisa continuar, Nic. — Baixou o olhar. — Já entendi.

— Talvez você esteja confundindo os sentimentos. Pelos anos de amizade, pela forma sempre descontraída e quase familiar com que nos tratamos…

— Não estou confundindo nada — interrompeu bruscamente. — O que sinto por você é bem diferente do que sinto pelo Lucca ou pelo Kaique. Eu gosto de você, Nic. De verdade. E achei que você deveria saber, mesmo que isso me coloque numa situação meio humilhante. 

— Não existe nada de humilhante em expor seus sentimentos, Lia. E eu gostaria de poder retribuir. Você é uma garota linda, inteligente, bem-humorada.

— Mas não faço seu coração bater mais forte — concluiu, a voz levemente embargada. 

Eu tinha receio de que ela começasse a chorar e eu não soubesse o que fazer. Abraçá-la obviamente não seria o mais indicado, mas também não podia simplesmente ignorá-la. Por que, de repente, me sentia meio culpado? Não lembro de ter incentivado ou insinuado qualquer coisa.

— Desculpe se eventualmente passei uma impressão errada. Não era a minha intenção. 

Ela ergueu o rosto, fixando o olhar no meu queixo, na minha boca.

— Não existe mesmo a possibilidade de quem sabe você vir a…

— Eu jamais faria isso, Lia. — Cortei-a, antes que a situação ficasse ainda mais constrangedora. — Brincar com o seu sentimento dessa forma, supondo que talvez eu pudesse corresponder. Além de ser desonesto, certamente comprometeria nossa amizade.

Imagino que não tinha como eu ser mais claro do que aquilo. E seu semblante se fechando dizia que o recado fora entendido.

— Certo!

— Vem, eu ajudo você a entrar. — Busquei seu braço para lhe dar apoio, dando por encerrado o assunto, mas ela se mostrou magoada, ou ofendida quem sabe, pois tentou se livrar do contato.

— Tá tudo bem, Nic. Eu me viro.

E parece que teríamos um climão dali em diante.

— Eu insisto. 

Não a peguei no colo, para evitar mais pensamentos inconvenientes, mas a amparei até dentro de casa, onde cumprimentei sua mãe e expliquei o ocorrido, colocando-me à disposição para qualquer coisa que ela precisasse.

— Obrigada, Nic. — O tom não era o mais amigável, mas pelo menos já não continha tanto rancor.

Despedi-me e, ainda no carro, passei uma mensagem no grupo, informando a situação, antes de concluir:

N – Em função disso, acho que podemos suspender o encontro de amanhã, concordam?

Não que Lia estivesse impossibilitada de participar, mas confesso que queria evitar um encontro depois daquela conversa no mínimo constrangedora.

Lucca – Concordo! Até porque preciso de um tempo da cara de vocês.

Bruna – Ou é só desculpa pra não ter que enfrentar o desafio que propus?

Kaique – Não sabia que ia rolar uma partida de vôlei na pizzaria.

Milena – Deixa só a Lia se recuperar que essa partida tá no papo.

Karla não se manifestou. E Lia… bem, já era esperado.

Assim que cheguei em casa, Milena veio ao meu encontro, querendo saber mais detalhes.

— Agora aqui, só entre nós, foi tudo o que ela fez parecer? — perguntou enquanto eu chutava o tênis para longe e me livrava da camiseta.

— Meio venenosa você, hein?

— Eu e a turma então, porque todos acharam o comportamento dela meio exagerado. 

— A escala de dor é diferente para cada um, Mi — esclareci, mesmo concordando em parte com eles.

— Claro! Mas que ela se aproveitou pra ganhar seu colo, não tenho dúvidas.

Eu até poderia contar à minha irmã o desenrolar daquele episódio. Sabia que ela manteria segredo. Porém, achei que Lia merecia privacidade.

— O que importa é que ela está bem. — Desconversei. — E agora, se você me dá licença, preciso de um banho.

— Hum, tem toda razão! — Abanou a mão em frente ao nariz e ameacei jogar a camiseta suada em cima dela.

Milena deixou meu quarto com um arfar de nojo, e antes de entrar no chuveiro, busquei o celular, digitando para Karla.

N – Que horas amanhã na sua casa?

Ela não demorou dois minutos para responder.

K – Achei que o encontro tinha sido cancelado.

N – Sim, mas o seu trabalho de custos precisa ser concluído.

K – Sério Nic, você não tem que me ajudar.

N – Que horas?

K – Aff… Por que eu insisto em discutir com você?

N – Porque é cabeça dura!

K – Só eu, né? Às 15h fica bom? Vou almoçar com a família em algum lugar novo que o tio Tobias descobriu.

N – Blz. Dispense a sobremesa. Vou levar e a gente come juntos.

Um arrepio de excitação me percorreu depois que escrevi aquilo. Um dia, eu ainda comeria a sobremesa não apenas com ela, mas nela

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Espero que tenham gostado! ♥

Não esqueçam de me dizer o que vocês estão achando nos comentários, e de convidar as amigas! Quanto mais vocês interagirem, maior a probabilidade de eu liberar capítulo bônus!!

Os capítulos serão postados às sextas-feiras, podendo haver capítulo bônus na semana dependendo da interação de vocês.

Então chamem as amigas para curtir essa história!

Boa diversão e até a semana que vem! ♥

4 comentários

  1. Eita que a Lia se deu mau . Adorei o jeito como o Nic a colocou no lugar dela falando que não ia rolar nada entre eles.

  2. Me dê papai!!! Eita menina cabeça dura, geralmente o medo é de não ser correspondida…ela entretanto…

  3. Lia se aproveitou do acontecido pra arma e se deu mal 😜
    Adorooooooo 🤭.

  4. Lia se aproveitou do acontecido pra arma e se deu mal 😜
    Adorooooooo 🤭.

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