Nossa Razão / Capítulo 2

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Capítulo 2

Karla

O cheiro vindo da cozinha estava ótimo, e fazia meu estômago reclamar com afinco. A fome esteve presente em boa parte da madrugada, manifestando-se a cada vez que eu acordava, inquieta. É claro que eu poderia levantar a qualquer momento, e vasculhar os armários ou a geladeira em busca de alguma coisa para comer, afinal, eu estava em casa. Era assim que sempre me sentia ali, naquele ambiente acolhedor que era o lar da família Ventura.

Desde que conheci Milena, a casa dela era uma extensão da minha. Até hoje chamava seus pais de tios, já que o sentimento por eles era tal qual o que eu nutria pelos meus tios de sangue. Quanto a Nic. Bem… posso dizer que ele ocupava vários postos na minha vida: irmão, melhor amigo, crush, amor platônico. E depois de ontem à noite, eu diria que a última qualificação talvez tivesse se intensificado.

De pé, em frente ao espelho do quarto de Milena, enquanto a esperava para nos juntarmos aos demais para o café da manhã, toquei meus lábios, que na minha loucura, pareciam mais inchados pelos beijos trocados com Nic. Em meus sonhos, é claro!

Eu ainda tentava entender aquele pedido! De onde surgiu? Por qual motivo? Será que ele cogitava mesmo que eu o beijaria? Como? De que forma eu poderia fazer aquilo sem revelar que era apaixonada por ele?

Nic tinha toda a razão ao dizer que eu estava com medo de que fosse bom demais. Certamente que seria! Beijá-lo seria a realização de um sonho de menina, pois lá, eu já cultivava um sentimento inexplicável por aquele que dizia estar sempre pronto para me defender, pelo meu “irmão”.

E exatamente por isso eu fiz o que pude, da forma que pude, para exterminar aquela paixão. Mas quem diz que consegui? Como você tira alguém do seu coração, quando ele está ao seu lado constantemente, em todos os momentos, nos mais alegres e nos mais difíceis? Como você deixa de gostar de alguém que só sabe dispensar gentilezas e momentos felizes, que te abraça como se tivesse o mundo junto ao seu peito?

Nic era assim. Acessível, risonho, brincalhão. Também era sério quando o momento pedia. Responsável, centrado. Qualidades que o tornavam o tipo de homem que toda mulher gostaria de ter ao lado. Ah, e claro, lindo! Deus, a cada dia ele parecia mais bonito, charmoso, sexy.

Bora tomar café?

Milena me chamou da porta, interrompendo a enxurrada de pensamentos que, ao invés de me deixarem mais tranquila, só aumentavam a minha expectativa para hoje. E nem sei por que, afinal, tudo voltou ao normal ontem mesmo.

Sorri para minha amiga e a segui em direção à cozinha, de onde as vozes pareciam apenas sussurradas.

O cheiro que inundava a casa se intensificou, e a informação de que Gael era o responsável trouxe uma divertida discussão ao grupo, com Nic aproveitando o momento para chamar a atenção para si de uma forma depreciativa.

Como se fosse verdade!

Debochei de sua observação, bagunçando ainda mais seus cabelos, antes de cumprimentá-lo mais uma vez pelo seu aniversário.

— Parabéns! — Dei um beijo em sua bochecha, mas ele me puxou para um abraço, apertando minha cintura e me tirando rapidamente do chão. Tal como ontem à noite, eu me deixei ficar, pois não havia nada melhor no mundo do que estar em seus braços.

— Obrigado, bailarina.

Sorri diante do apelido que ele ainda usava para mim em algumas ocasiões. Tudo porque nos meus áureos tempos de ballet, eu adorava rodopiar com meu tutu, imitando aquelas bonequinhas das caixinhas de música. A observação de uma de minhas coleguinhas de turma na época, de que nunca tinha visto uma bailarina preta, hoje era apenas uma vaga lembrança, que aos poucos foi substituída pela insistência de Nic em cantar para mim, enquanto arranhava a melodia no violão, quando eu retornava das aulas.

Ele me soltou devagar, observando meu rosto ainda meio amassado.

— Conseguiu dormir bem?

Menti, assentindo em confirmação. O sono foi agitado, tanto pelos acontecimentos que colocavam o namorado de minha amiga na berlinda de uma situação relativamente complicada, como pelo presente que Nic me pediu na pista de dança.

Ok, Karla, esquece isso!

Como se fosse fácil!

O estupro sofrido por uma menina na noite anterior veio à tona durante o café da manhã. Não me lembro da última vez em que vi Nic tão furioso e preocupado como naquela madrugada, o que fez aquele seu lado protetor e mandão emergir. Eu até me manifestei relativamente contrária à sua ideia, que era a de que não deveríamos mais frequentar aquela balada, mas não podia deixar de concordar com ele, em parte. Infelizmente continuava sendo difícil ser mulher nesse mundo, e o discurso de Nic, de certa forma, fazia sentido. Não dava para confiar na justiça, muito menos esperar que a sociedade, em sua maioria machista, nos respeitasse como deveria.

Depois de um desjejum demorado, os homens seguiram para a área da churrasqueira, enquanto eu e minha amiga ficamos para ajudar a tia Renata com a finalização de alguns itens para o churrasco. O assunto ainda foi comentado por alguns minutos, até que a mãe de Milena tocou em um ponto que me lembrou que eu precisava entregar o presente do aniversariante.

Depois de dar um trato no visual, antes que os demais convidados chegassem, peguei o pacote e segui para a área externa, encontrando apenas Nic. Ele parecia concentrado no celular, certamente respondendo as mensagens que o parabenizavam, mas não demorou a erguer o olhar, conforme eu me aproximava, escancarando um sorriso fácil quando olhou para as minhas mãos.

— Antes que a sua criança comece a fazer birra… — Brinquei, estendendo o pacote, que ele de imediato chacoalhou.

— Ah, até que estou bem comportado hoje.

— Verdade.

Nic parou com o embrulho em mãos e baixou o olhar por um instante. Pareceu pensar antes de abrir a boca.

— Por falar nisso. — Hesitou novamente. — Sobre o que te pedi ontem…

Oh não! Por favor, não vamos voltar àquele assunto. Não aqui, à luz do dia, quando estamos só nós dois!

— Deixa pra lá! Sei que foi uma coisa de momento. — Dei de ombros. — Já tinha até esquecido.

Rá, que baita mentira! Aquilo não saía da minha cabeça.

Ele assentiu, e seus olhos fitaram os meus com um misto de desconfiança e divertimento.

— É o que você acha mesmo?

Tinha que ser!

— Claro! Seu aniversário, a atmosfera diferente do lugar, estar sem ninguém… quero dizer, sem uma namorada. Eu estava toda produzida… — Pisquei, quase sem acreditar que eu podia parecer tão tranquila e indiferente, quando sentia a ansiedade estremecer meu cérebro. — Sei que você jamais faria alguma coisa que pudesse estragar a nossa amizade.

Isso aí, Karla, recado dado. Super madura!

— Nunca! — afirmou.

Eu também sabia que podia confiar em sua palavra. Não era só uma questão de nós dois, mas da amizade que envolvia nossas famílias. Nossas mães se conheciam desde antes de nascermos, mas se afastaram quando tia Renata decidiu parar de trabalhar. Minha amizade com Milena foi o que as reaproximou, e com isso, todos os membros da família. Tenho certeza de que assim como eu, Nic não gostaria de quebrar aquele vínculo tão bonito e saudável.

— Então, o que temos aqui? — perguntou já rasgando o papel.

— Espero que te inspire.

Nic conferiu o jogo de palhetas e cordas para violão, com uma expressão levemente sem jeito. Ele não tocava em público desde o término com Suzana, mas Milena havia dito que o ouvia vez ou outra na privacidade de seu quarto, arranhando algumas melodias.

— Estamos com saudades de te ouvir, Nic — falei por mim, mas sabia que toda a turma sentia falta dos momentos regados à voz melodiosa de nosso amigo.

— Também estou com saudades de tocar. E você adivinhou. Estava mesmo precisando de cordas novas.

— Que bom que acertei.

— Valeu, Ka!

O agradecimento veio junto de um abraço. Apertado e demorado, de um jeito que me fazia suspirar em silêncio, imaginando a felicidade da garota que o tivesse para si um dia.

Pensar nisso me trazia à memória a época em que Suzana teve essa oportunidade e a jogou fora. Acho que foi a única garota que Nic gostou de verdade. Antes dela, as meninas que passaram pela sua vida eram namoradinhas sem muito compromisso. Mas Suzana ficou por mais tempo, arrancou mais sorrisos e fez os olhos de Nic brilharem com mais alegria. Será que ele ainda pensava nela depois de tudo?

— Aí está o aniversariante!

A voz de meu pai fez eu me desprender dos braços de Nic mais rápido do que gostaria. Não que o gesto fosse incomum entre nós, mas meus pensamentos certamente o eram.

— Posso te parabenizar, ou só está recebendo cumprimentos de meninas lindas? — perguntou antes de depositar um beijo em minha bochecha. — Bom dia, filha!

— Tio Davi! — Nic se adiantou e meu pai o abraçou, enquanto minha mãe, acompanhada da tia Renata, se aproximava para fazer o mesmo.

— Você está bem? — Dona Alice puxou-me para si, observando-me atentamente, e pela expressão da mãe de Milena, imaginei que já tinham comentado sobre a noite passada.

— Estou, mãe. — Abracei-a. Ela aliviou o olhar e sorriu.

— Nic! — Voltou-se para o meu amigo. — Você anda fugindo lá de casa? Tenho sentido sua falta.

— Tô trabalhando bastante, tia Alice — justificou, recebendo os cumprimentos.

— Eu sei, a Karla me disse. Mas tal será que não tem um tempinho pra passar nos dar um abraço.

— Esse tempinho ele deve direcionar para as gatas. Aliás, esperava encontrar alguma aqui hoje.

— E eu e a Karla somos o quê, tio Davi? — Milena surgiu logo atrás, acompanhada de Gael e do tio Henrique.

— Estou falando de namorada.

— Não se preocupe que a hora que houver uma, vocês serão os primeiros a saber.

Eu detestava pensar sobre aquilo. Ver Nic com outra garota seria uma dor difícil de administrar. Porém, eu sabia que não demoraria a acontecer. E depois, eu não podia ser egoísta. Ele merecia encontrar alguém que o fizesse feliz.

Nossos amigos logo chegaram, assim como a mãe de Gael. Diana era uma mulher muito bonita e simpática, mas achei bastante calada, ao menos de início. Talvez fosse só uma questão de se enturmar e eu sabia que minha mãe e tia Renata logo dariam um jeito nisso.

Foi bom ter mais pessoas, e com isso, mais assunto para me desviar de pensamentos que hoje pareciam mais insistentes do que nunca.

O dia seguiu animado e eu finalmente consegui relaxar e aproveitar.

No meio da tarde, tia Renata surgiu com o violão de Nic em mãos. Acho que ela quis aproveitar a deixa do meu presente para o filho, e o fato de estarmos todos ali.

Eu sabia que ele não recusaria, afinal, tinha me confidenciado mais cedo a saudade que estava de tocar. Mas isso não o impediu de fazer certo charme.

Relativamente longe, observei-o brincar com as cordas – ainda as antigas – por certo afinando-as. Os dedos longos dedilhavam, tirando os primeiros sons, antes de realmente começar a tocar.

Senti meu coração se encher de emoção pelo simples fato de ouvir sua voz cantarolando em meio aos acordes. Seu olhar cruzou com o meu, e sorri feliz por poder apreciar aquele talento do meu amigo. Em seguida, fechou os olhos, como se deixasse se contaminar com a melodia, como se as palavras que saiam dos seus lábios tivessem uma verdade impressa. 

Eu gosto tanto de você

Que até prefiro esconder

Deixo assim, ficar

Subentendido

  Havia algo diferente hoje na forma de Nic tocar. Talvez por conta do tempo que se manteve afastado do violão. Parecia mais conectado, mais sensível.

— Ele consegue estar a cada dia mais bonito! — Lia suspirou baixinho, sentando-se ao meu lado ao mesmo tempo em que Bruna.

— Nic é um fofo. — Complementou nossa amiga. — É isso que deixa ele mais bonito.

— Vocês viram que ele não ficou com ninguém ontem? — Lia sussurrou com uma alegria exagerada, sem desviar a atenção do músico.

— A gente sabe que ele não curte muito aquele ambiente. Consequentemente, as pessoas que o frequentam. — Bruna observou, mudando o tom ao acrescentar. — E cá entre nós, acho que ele gosta de alguém?

— Quem? — perguntei, minha voz soando mais alta do que deveria, revelando minha surpresa com aquela hipótese.

— Não sei. Não tô falando de uma garota específica. Só acho que ele curte uma paixão por alguém. Algo meio platônico.

Imediatamente minha mente começou a trabalhar, buscando na memória alguém que poderia ocupar aquele espaço na vida de Nic.

— Se fosse por mim, não seria nada platônico.

— Ai Lia… — Bruna quase lamentou a esperança de nossa amiga.

— Não sei o que fazer.

— Com relação a quê? — perguntei, quase com medo da resposta.

— Ao que eu sinto por ele. Às vezes penso em falar, ao mesmo tempo tenho medo de fazer besteira. — Torceu as mãos sobre o colo, em um gesto inquieto. — No meu lugar, o que você faria?

— Eu?

Ah, que pergunta mais irônica!

— Sim! Se gostasse de um amigo, como muito mais do que amigo, você falaria para ele?

Mal sabia ela que eu me encaixava bem naquela situação. E pelo mesmo cara.

Voltei a olhar para Nic, que agora entregava o violão para que Milena nos surpreendesse, não com a mesma habilidade do irmão.

Nic e Lia juntos? Não sei se eu conseguiria lidar com aquilo.

Acontece que ele dissera ontem mesmo que a via apenas como amiga, então acho que eu não precisava me preocupar muito.

Deus, quão egoísta eu estava sendo!

— Eu… não sei. — Vacilei. — Acho que depende da amizade, do quanto ela é importante. Se eu suspeitasse que isso poderia nos afastar, não falaria nada.

Como até hoje não falei!

— Por que afastar?

— Pensando que talvez o sentimento não fosse recíproco, imagino que poderia ficar um clima esquisito. Seria difícil olhar para ele da mesma forma, depois de me declarar e saber que não sou correspondida. Acho que ficaria uma sensação de orgulho ferido, do tipo, não sou boa para ele, e isso criaria um afastamento, sabe como? Acho que prefiro ter a certeza da amizade à possibilidade de um desinteresse.

— Você fala isso pelo que houve com o Lucca? — Lia insistiu.

— Aquilo foi totalmente diferente.

E, de fato, foi! Não havia nenhum tipo de sentimento quando beijei o Lucca. Foi um impulso, levado por uma brincadeira – e um pouquinho de álcool na corrente sanguínea. Só me dei conta do erro, quando meu amigo aprofundou o beijo. Talvez por isso nossa amizade tenha ficado na corda bamba por um tempo. Apesar de eu ter retribuído, não era para ser daquele jeito.

— Hum, e você acha que não existe a possibilidade de eu ser, ou vir a ser, correspondida?

— Não foi isso que eu falei, Lia.

Aff, que situação!

— Acho que só você pode decidir o que fazer a respeito disso. — Bruna interveio, sem saber, me salvando. — O não você já tem. Vai lá e sonda, dá umas indiretas pra ver o que rola. Se, independentemente do retorno, você achar que isso não vai mudar nada na amizade de vocês, então vai em frente, fala o que sente.

Bruna talvez fosse a mais espevitada de nós quatro, mas quando incorporava o seu lado psicóloga, nos deixava sem reação por alguns minutos. Pensativas. Era como eu e Lia estávamos, já que, de certa forma, aquele conselho servia a nós duas.

Aplaudi Milena por pura imitação do gesto dos convidados, já que minha mente estava ocupada demais com outro assunto.

Nic voltou a tocar e eu dei a desculpa de que precisava falar com minha mãe, fugindo assim de continuar naquela conversa que parecia tão minha, mas que no fundo não dizia respeito a mim. 

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Espero que tenham gostado! ♥

Não esqueçam de me dizer o que vocês estão achando nos comentários, e de convidar as amigas! Quanto mais vocês interagirem, maior a probabilidade de eu liberar capítulo bônus!!

Os capítulos serão postados às sextas-feiras, podendo haver capítulo bônus na semana dependendo da interação de vocês.

Então chamem as amigas para curtir essa história!

Boa diversão e até a semana que vem! ♥

8 comentários

  1. 🥰😍🥰😍adoro os começos!!!!!!

  2. Ahhh Carla… Se entrega menina 🥰🤪🤪🤪

  3. Karla coloca logo essa Lia para ralar, ta lindo esse começo 😍😍😍

  4. Que delicadeza de começo.

  5. Um bom relacionamento comeca com uma amizade então a Karla tem que se jogar de cabeça e curtir o que está sentindo

  6. Tá lindo demais. Karla, mana aproveita logo esse homem,antes que alguém pegue.

  7. Estou amando… mas ansiosa!!!

  8. A cada capítulo a ansiedade vai aumentando 💗.
    Simplesmente perfeito

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