Nossa Razão / Prólogo

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Prólogo

Cinco anos atrás

Karla

— Você parece uma princesa. Ah, mas o que eu estou dizendo? Você é uma princesa!

Sorri abertamente para o tio Tobias, que segurava firme minhas mãos. Ele não me abraçou, receoso em amassar meu vestido, mas havia feito isso logo que chegou à festa, enquanto eu usava outro modelo, dedicado à recepção dos convidados. Um costume, em se tratando de festas de quinze anos. Os dois trajes tinham sido desenhados especialmente para mim, por aquela que ocupava um lugar de extrema importância em minha vida: minha madrinha.  

Sim, eu sabia que parecia uma princesa. Não como as dos desenhos da Disney, ao menos não as famosas. Tiana, a primeira princesa negra da franquia, de “A princesa e o sapo”, quase nem é mencionada, já repararam? 

Desviei o olhar para Luan, não muito distante, por quem tenho uma leve queda. Ou deveria dizer, acentuada? Ele será o meu par esta noite. É com quem irei dançar a segunda valsa, já que a primeira é, por convenção, do meu pai. 

Luan não se parecia em nada com um sapo, pelo contrário, sua aparência era digna de um príncipe. Os cabelos castanhos e lisos, bem curtos, lhe conferiam um estilo militar, mesmo que ele fosse apenas um ano mais velho do que eu. A pele, clara, se destacava ainda mais em contraste com as sobrancelhas grossas e escuras, que emolduravam olhos levemente puxados. Era alto e bem encorpado para os seus dezesseis anos, ainda que eu só tenha apreciado seu corpo devidamente vestido.

Não éramos namorados, mas, talvez isso pudesse mudar esta noite.

Admirava Luan desde o começo do ano, quando ele ingressou no mesmo colégio que eu, dando início ao Ensino Médio, para o qual irei em alguns meses. Creio que o fato de fazer parte da turma dos que já começam a pensar na faculdade, poderá facilitar nossa aproximação, além de que, não é segredo algum que flertamos abertamente um com o outro. Ele aceitar meu convite para ser o “príncipe” no meu aniversário de quinze anos, também deve dizer alguma coisa, certo?

Tia Jade, minha madrinha de batismo, e da festa, veio em minha direção, com um grande sorriso no rosto. 

— Só conferindo se está tudo certinho com a minha princesa — esclareceu, fazendo-me girar sob os pés para se certificar de que não havia nada fora do lugar. Estávamos em uma antessala, aguardando que tudo estivesse pronto para a primeira valsa.

— Tudo igual há cinco minutos, tia. — Tratei de tranquilizá-la, enquanto ela dava uma piscadela para mim e ia verificar qualquer outra coisa. 

Milena e seu irmão Nic, meus dois melhores amigos, também resolveram checar se eu precisava de algo.

— Você tá tão linda! — Milena exultou, admirando-me dos pés à cabeça. Faz pouco mais de um mês que ela esteve nesta mesma posição, comemorando os seus quinze anos. 

— Agora entendo quando você dizia que estava nervosa. — Estendi minha mão gelada até a sua, que foi pressionada com carinho.

— Só até você entrar com o tio Davi na pista. Depois dos primeiros rodopios, já se sentirá mais tranquila.

— Será?

Milena sabia o outro motivo da minha ansiedade. Dançar com Luan, certamente seria o auge da minha noite. Salvo, se ele me beijasse, então, esse sim seria o ponto alto.

— Ele está um gato! — Minha amiga sussurrou, olhando disfarçadamente para onde Luan estava, com mais uma amiga nossa. 

— Se não for pedir demais, reserve uma dança para mim. — Nic murmurou em um disfarçado tom de vítima.

Ele estava especialmente lindo esta noite. Adorava o jeito como deixava a franja cair em sua testa. Junto ao brinco de argola, que agora balançava sutilmente em sua orelha, criava um contraste despojado ao terno escuro.

Mostrei a língua para ele, e vi seus olhos azuis, no mesmo tom da gravata, cintilarem divertidos.

— Você está simplesmente perfeita!

Senti meu rosto se aquecer pelo elogio, e pelo olhar apreciativo que Nic lançou sobre mim. Ele fazia isso às vezes. Observava-me com uma atenção peculiar enquanto dispensava elogios em meio a brincadeiras. 

O breve momento de encantamento, no entanto, não me impediu de ouvir um comentário sussurrado ali bem próximo.

— Uma pena o cabelo não ajudar.

— Quer o quê? Ela é neguinha!

Congelei no lugar. Não tive coragem de olhar na direção de onde vinha aquele comentário. Não queria acreditar que aquelas últimas palavras pudessem ter saído da boca de Luan. Não ele! 

Porém, fui obrigada a me mover quando uma pequena bagunça, proporcionada por um Nic furioso, se instalou no ambiente. Ele havia dado um soco naquele que era para ser o príncipe da noite.

Milena me puxou para o lado, e eu vi o tio Henrique, saído não sei de onde, segurar o filho antes que ele desferisse outro golpe.

— Deu, Nic!

— Seu babaca, filho da puta! — Meu amigo ainda xingou.

Luan se mantinha imóvel, provavelmente assustado com a repercussão do seu insulto. Porque era o mínimo a se dizer de sua atitude.

Eu nem tinha beijado o príncipe e ele já tinha se transformado em sapo! 

Enquanto eu lamentava em silêncio aquela decepção, só mais uma para a minha história de vida, eles discutiam alguma coisa.

— Ei, olha pra mim! — Ouvi a voz de Milena me chamando enquanto suas mãos apertavam as minhas. Virei-me para ver sua expressão firme e determinada, como sempre era quando algo do tipo acontecia. — Você não precisa de um cara idiota como esse na sua vida. Ele não te merece, entendeu?

Assenti, meio no automático, levando instintivamente uma das mãos ao cabelo. Cogitei alisá-lo para a festa, mas por fim me convenci de que eu deveria deixá-los ao natural, aceitando minhas características de mulher negra. 

Pequenas mechas nas laterais da cabeça, haviam sido trançadas rente ao couro cabeludo, no melhor estilo nagô, e seguiam em direção ao topo, onde terminavam sob uma tiara de cristais, que delimitava o restante do cabelo solto, caindo em cachos até logo abaixo dos meus ombros.  

Tia Jade apareceu, e na sua elegância de mulher empoderada, me fez encará-la.

— Você é mais do que tudo isso. Respira fundo e se prepara para ir até aquela pista de dança e arrasar. Entendeu?

Novamente assenti, engolindo o nó em minha garganta. As lágrimas teriam que ficar para mais tarde, quando estivesse sozinha em meu quarto, em minha cama.

Não havia mais príncipe para a segunda valsa, mas eu não queria mudar o cronograma. Porém, antes que chamasse o tio Tobias para aquele posto, vi Nic se colocar à minha frente e olhar para a minha madrinha.

— Gostaria de dançar a segunda valsa com a Karla, se ela aceitar, é claro. 

O pedido saiu em meio a uma voz ainda ofegante e gestos rápidos para recompor sua aparência. 

Tia Jade sorriu de um jeito confiante e assertivo, que confirmava sua concordância. 

— Karla? — Ela chamou meu nome, em um tom carinhoso.

De repente, não havia pessoa mais indicada para aquele papel. Nic era meu melhor amigo, aquele que sempre me defendia, junto de Milena, de qualquer pessoa que não me tratasse com o mínimo daquilo que se exige para um ser humano: respeito!

— Obrigada! — Foi tudo o que consegui dizer naquele momento.

— Vamos lá! Davi, está na hora! — Tia Jade chamou meu pai, e eu vi, de canto de olho, tio Henrique deixar o recinto, levando Luan com ele. 

Meu pai colocou-se ao meu lado, enroscando o braço no meu. Olhou-me com orgulho e afeto, fazendo com que aquela pequena desilusão em meu peito, se tornasse quase insignificante.

— Pronta para brilhar? Como a estrela que você é no meu mundo?

Senti meus olhos marejarem, e respirei fundo para evitar que as lágrimas rolassem. Assenti, focando no amor e na força que meus pais, incansavelmente, faziam questão de demonstrar a mim, em todos os momentos.

Seguimos para o salão principal, e a valsa imediatamente preencheu o ambiente. Eu ainda tremia, um pouco de nervoso, um pouco de tristeza, mesmo sabendo que esta última não deveria estar presente neste momento. Contudo, era difícil não me deixar abater por comentários racistas. Estava ciente de que eles sempre existiriam, mas confesso que não esperava por um, justamente hoje, no meu dia de princesa. E vindo de alguém que eu acreditava, ingenuamente, que pudesse ocupar um posto relativamente importante na minha vida. 

Balancei levemente a cabeça para afastar aqueles pensamentos, concentrando-me na dança, e no homem que me tinha em seus braços. Meu pai! O melhor que eu poderia ter. 

Ele nos rodopiou de forma exagerada, fazendo a saia do meu vestido tomar um espaço considerável na pista, onde estávamos apenas nós dois. Seus olhos se arregalaram levemente diante da visão, e isso me fez rir, mais descontraída. 

A dança terminou, e enquanto recebíamos aplausos, meu pai depositou um beijo em minha testa. 

Nic se aproximou sorridente para a segunda valsa. Fez uma mesura, inclinando-se à minha frente e beijando minha mão, antes de enlaçar minha cintura com firmeza, não permitindo que o volume do meu vestido fosse empecilho para manter nossos corpos bem próximos. Sua mão quente envolveu a minha de forma elegante e precisa, dando-me a certeza de que ele não a soltaria por nada. 

— Não deixe aquele imbecil apagar seu brilho! — sussurrou, assim que a valsa começou a tocar e ele nos colocou em movimento.

 Baixei o olhar por um segundo, antes de responder, um tanto desgostosa.

— Ele não é a primeira pessoa a fazer isso. E não será a última!

Senti um leve aperto em minha mão, o que me fez fitá-lo, com curiosidade.  

— O que eu posso fazer para arrancar aquele sorriso lindo, que só você tem? — questionou, e antes que eu me justificasse, ele cantarolou: — Brilha, brilha, estrelinha, baila linda bailarina! 

— Ah, Nic! Só você mesmo! 

Sorri, mais leve agora, sabendo que ele não fazia aquilo só para me distrair do episódio de alguns minutos atrás. Nic era sempre assim, brincalhão, otimista, confiante. Ele tinha esse dom, de nos desviar de pensamentos desagradáveis com um simples sorriso. Além de que, dançava muito bem. Ele também foi o príncipe de Milena, há pouco mais de um mês.

— Obrigada por isto! — falei, ainda sorrindo, ciente de que ele entendia a que me referia. 

— Ele não era digno de ocupar este posto. 

— Tem razão. Combina muito mais com você.

— Ainda assim, você não me chamou.

Estranhei o tom inquisidor, disfarçado por um sorriso.

— Desculpe. Fiquei meio chocada com o fato de ele fazer um comentário daquele tipo.

— Tô falando de antes. — Corrigiu. — Você sequer cogitou me convidar para ser seu par.

Bem, eu… eu só queria que o príncipe da noite fosse alguém que, além de despertar borboletas no meu estômago, estivesse acessível. E este último detalhe não acontecia com Nic. Ele não estava namorando no momento, mas era meu melhor amigo, quase um irmão, portanto, a revoada de borboletas que se alastrava por muito mais do que o meu estômago, quando eu estava junto dele, não fazia diferença alguma. Sim, eu curtia uma paixonite pelo meu amigo. Arriscava dizer que desde que nos conhecemos, quando eu tinha sete anos, e ele, onze. 

Lembro que seus olhos, muito azuis, me fitaram com intensidade na primeira vez em que visitei a casa de Milena, minha mais nova amiga, na época. Era um moleque de corpo, mas desde lá já nos protegia de tudo e de todos. 

“Sempre vou defender minhas irmãzinhas!”

Nic nunca seria meu, não do jeito que eu sonhava, então…

— Acho que o que aconteceu hoje serviu para eu enxergar uma coisa. — Eu disse, de repente. 

— O quê? — Havia certa ansiedade em seu tom de voz.

— Que é melhor não me envolver com alguém que não seja da minha cor.

Nic se afastou alguns centímetros para me olhar com espanto e talvez… decepção? Não sei o que ele esperava ouvir, mas certamente não era o que falei.

— Você está dizendo isso no calor do momento.

— Não, Nic! Está decidido! — assegurei, tão convicta quanto podia dentro dos meus quinze anos. — Pelo menos, a pessoa pela qual eu me apaixonar, não fará esse tipo de ofensa contra mim.

— E como vai fazer isso? Determinar por quem vai se apaixonar? — Dei de ombros, deixando para pensar a respeito quando chegasse a hora. — Você não pode generalizar, Karla. Nem todos são idiotas como o Luan.

— Neste caso específico, posso sim, Nic. Salvo raras exceções, a maioria pensa como ele. 

— Quem sabe você devesse prestar mais atenção a essas exceções, então. Elas podem estar mais próximas do que você imagina.

Eu estava muito magoada para entender o que o meu melhor amigo dizia nas entrelinhas, bem como, para perceber que ele tinha razão. E não fazia ideia de que um dia me arrependeria daquela decisão. 

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Espero que tenham gostado! ♥

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Os capítulos serão postados às sextas-feiras, podendo haver capítulo bônus na semana dependendo da interação de vocês.

Então chamem as amigas para curtir essa história!

Boa diversão e até a semana que vem! ♥

9 comentários

  1. Ansiosa para os próximos capítulos. Como são lindos 😍😍😍

  2. Lindos 😍😍😍

  3. Estou vendo que vai ser surto atrás da surto 🙈

  4. Capítulo lindo, Nick só mostra para que veio me preparando pra surtar 🙈

  5. Capítulo lindo, Nick só mostra para que veio me preparando pra me apaixonar 🙈

  6. Este livro vai vir para surtar todas nós com o Nick já marcando território no coração da Karla e nos nossos. Amei

  7. Como esse prólogo já estava no primeiro livro, podíamos ganhar um bônus essa semana, minha ansiedade e grande 💋

  8. Maravilhoso, ansiosa para os próximos!

  9. Já estou vendo muitos comentários para liberar novos capítulos .
    Essa história vai ser muito linda com certeza, pq esse primeiro capítulo já foi muito lindo

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