Duologia Invisível aos Olhos

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Livro um: Nossa Essência

(LANÇAMENTO)

Disponível no Kindle Unlimited

Prólogo / Degustação

Gael

Congelei por alguns segundos!

Ver minha mãe descer de um táxi, em frente à nossa casa, com o auxílio do motorista, indicava que havia algo errado. 

Meu medo, pela falta de comunicação, quando ela não retornou as várias vezes em que tentei entrar em contato, preocupado com sua demora e falta de notícias, não foi em vão, afinal. 

Ela enviara uma mensagem pouco antes do anoitecer, para me lembrar de que chegaria em casa mais tarde, o que na verdade era desnecessário. Sexta-feira era o dia em que ela encontrava algumas amigas, logo após a saída do trabalho. Ainda assim, fazia questão de me informar e, claro, reforçar algumas instruções. A de hoje era a de que eu prestasse atenção à previsão do tempo. 

A chuva havia dado uma trégua, mas ao que tudo indicava, logo voltaria a cair forte. Os raios faziam desenhos incríveis na escuridão da noite, e os relâmpagos soavam bem próximos. 

Apressei o passo, abrindo o portão e indo ao seu encontro.

— Mãe!

Ela mantinha a cabeça baixa, mas a ergueu, minimamente, ao ouvir minha voz. O suficiente para revelar uma imagem que, infelizmente, eu guardaria para sempre na minha mente.

Um grunhido de pavor escapou dos meus lábios quando me deparei com sua aparência.

Um dos olhos estava praticamente encoberto pelo inchaço da pálpebra, a pele ao redor, tingida de roxo. Seus lábios sangravam, vários arranhões marcavam seu rosto e desciam pelo pescoço, enquanto o cabelo, todo desgrenhado, lhe encobria parte da face. As roupas, molhadas, tinham sinais de violência também.

— Merda! — xinguei, e ela não se deu ao trabalho de me corrigir. Palavrões eram constantes no meu vocabulário, mas ela detestava que eu o fizesse na sua frente. — Você precisa ir para o hospital — decretei, horrorizado com seu estado.

— Não! — Sua negativa saiu firme em um tom de voz fraco, cansado.

Amparei-a em meus braços com cuidado, confuso, assustado, quase em pânico, e senti minha garganta travar ao ouvir o gemido de dor que exprimiu quando a segurei pela cintura.

— Eu bem que tentei convencê-la disso — murmurou o taxista — Mas ela disse que precisava vir para casa.

— Mãe, você tá machucada! — salientei o óbvio, e ela negou com um aceno, seguido de outro gemido quando cambaleou na calçada — O que fizeram com você?

— Eu a peguei no centro. — O motorista interveio, claramente compadecido com a situação. — Ela só fez chorar e gemer durante o trajeto — emendou, alcançando a bolsa dela.

Que porra tinha acontecido? A primeira hipótese que me ocorreu foi de um assalto, mas suas coisas pareciam estar todas ali. 

— Vou levá-la pra dentro, já te pago a corrida — esclareci, sustentando o corpo que parecia ter sido castigado sem dó.

— Não se preocupe com isso. Está tudo certo, rapaz. Só… cuide dela.

Agradeci e, devagar, levei minha mãe para o interior da nossa casa, mais perdido do que nunca com o que percebia.

— Mãezinha, a gente precisa te levar ao pronto socorro. Você está… Meu Deus, mãe, você pode ter algum ferimento interno!

— Não vou… só me ajude… 

— Mãe…

— Gael! 

Meu nome saiu naquele tom firme, que não permitia contestação. Dona Diana era determinada e eu não ficava muito atrás. Alguns poderiam chamar aquilo de teimosia. Eu dizia que era só nossa forma de conseguir as coisas. 

— O que eu faço? — Minha contrariedade era evidente, mas a obedeci.

— Leve-me para o banheiro. 

Não queria ser rude, mas precisava tentar convencê-la de que o correto era procurarmos ajuda. Eu nada sabia a respeito de cuidar de uma pessoa que tinha sido agredida daquela forma. Ainda não tinha visto debaixo de suas roupas, mas fazia uma ideia do estrago, pela maneira com que ela se movia, devagar, em sofrimento.

— Mãe, se aconteceu o que estou imaginando… — Fechei os olhos, um lampejo de uma cena terrível despontando em minha mente — Você não pode… vai apagar as evidências — salientei quando a vi fazer menção de se despir.

Ela arquejou e tentou se soltar do meu abraço.

— Tudo bem, me viro sozinha.

— Mãe… — apelei novamente — Você sempre me ensinou que devemos fazer o que é certo. 

Um suspiro profundo e seus olhos marejados me encararam pela primeira vez na noite. 

— Às vezes, o certo é não fazer nada. — Esticou a mão e acariciou meu rosto, lágrimas vertendo silenciosas.

Segurei-me para não chorar com ela. Para não praguejar, gritar, e quebrar algumas coisas pela frente. Estava claro que ela foi violentada, estuprada, espancada, e tudo o que eu desejava era matar o filho da puta que fez aquilo. Mas agora, precisava ajudá-la da forma que ela queria, mesmo sem entender seus motivos. Havia de ter alguma explicação plausível para me pedir aquilo, e eu precisava confiar no seu discernimento. Precisava tomar conta dela, da melhor forma que um filho de dezessete anos consegue fazer. 

Assenti, ainda que não concordando com seu posicionamento, e a encaminhei ao banheiro. 

Lá, reuni toda a coragem que consegui, e, com a delicadeza que a circunstância exigia, ajudei-a a se livrar das roupas, buscando forças para não desabar ao me deparar com os hematomas que marcavam sua pele em várias partes do corpo.

A cada movimento, um inspirar mais profundo, um tremor, um lamento, que iam me golpeando e despedaçando meu coração aos poucos. Era como se a sua dor também fosse minha, e mesmo que por fora estivesse intacto, por dentro eu estava desmoronando.

Fiquei dividido entre ficar e ajudá-la a tomar banho, ou deixá-la sozinha, em sua intimidade. Mas não consegui. Não havia a mínima possibilidade de eu abandoná-la daquela forma. Ela também não parecia se importar com sua nudez.

Liguei o chuveiro e depois de testar a temperatura, segurei a pequena ducha em sua direção. O simples fato da água morna escorrendo sobre sua pele parecia lhe causar sofrimento. As lágrimas ganharam vida, e vertiam em cascata, misturando-se com o líquido avermelhado que se dissolvia dos ferimentos em seu rosto.

Tentei me manter firme, mas ver sua dor se expandir foi demais para suportar. Chorei com ela, maldizendo o ser que lhe causou tudo aquilo. Como podia uma pessoa ser capaz de tanta crueldade? 

Perguntei-me o que podia fazer, além de lhe dar meu carinho e amor? Eu era o homem da casa e, já há algum tempo, me conscientizei de que tinha que assumir esse papel. Mas acho que não dei conta do principal: protegê-la.

Dona Diana foi honesta comigo desde o início. Quando já tinha idade suficiente para compreender algumas coisas, ela me explicou por que éramos só nós dois.

Adolescente imatura e sonhadora, deixou-se envolver por um homem que só queria se aproveitar de sua inocência. Quando se viu grávida, o dito cujo havia sumido do mapa sem deixar rastros. É claro que para uma adolescente de uma cidade do interior, engravidar sem ter um marido não era nada bom. Ia contra a moral e os bons costumes. Os pais tentaram demovê-la de seguir em frente com a gravidez, mas ela estava determinada a assumir a responsabilidade. Sem apoio, decidiu se arriscar na capital, e passou poucas e boas para me dar um teto, comida e educação. E se saiu muito bem! 

Nossa condição de vida era relativamente boa. Não havia fartura, mas tínhamos o essencial, que minha mãe conseguia suprir dando duro em dois empregos. O aluguel da casa de dois quartos, em um bairro humilde de Florianópolis, certamente era a despesa mais alta do orçamento. Eu bem que tentei convencê-la a me deixar ajudar no sustento da casa, quando comecei o ensino médio, há quase dois anos. Podia muito bem estudar à noite e trabalhar durante o dia, mas ela queria que eu tivesse acesso a um ensino de qualidade. 

“Você é inteligente demais e nós não vamos desperdiçar isso reduzindo seu tempo de dedicação aos estudos.”

Eu entendia e, em parte, concordava. Até aqui! Até hoje!

Quando ela se deu por satisfeita em sua higiene, ajudei-a a se secar. Outro martírio cada vez que a toalha resvalava em sua pele. Mais choro, meu e dela. 

Deixei-a a sós alguns segundos, só para buscar um camisetão que ela gostava de usar. Era macio e bem folgado. Ajudei-a a se vestir, ambos em silêncio. Ela engolindo a dor, eu a raiva.

— Quer que eu a carregue até a cama? — perguntei, tentando controlar a voz embargada. Tinha medo de lhe causar mais sofrimento.

— Melhor sozinha. Só deixe eu me apoiar em você.

Seguimos devagar até o quarto, onde a larguei por poucos segundos, para afastar os lençóis. Com visível dificuldade, ela se recostou nos travesseiros, olhos fechados, respirando devagar.

Peguei a caixa de medicamentos, apesar de não haver nenhum curativo propriamente dito a ser feito, mas encontramos uma pomada que poderia amenizar um pouco do desconforto superficial.

— O que mais eu posso fazer por você, mãe? — questionei depois que a auxiliei a se acomodar melhor.

— Uma caneca com leite morno, mel e canela, seria ótimo.

— Claro. Já volto!

Corri para preparar a bebida, ainda perturbado com tudo. Amedrontado, na verdade. 

Voltei ao quarto e entreguei-lhe a bebida com cuidado, recebendo um discreto sorriso em agradecimento.

— Mais alguma coisa?

Ela fez uma careta quando os lábios tocaram a borda da caneca, então deu um gole e fechou os olhos. Quando os abriu, pude perceber um vazio que não sei se um dia poderia ser preenchido.

— Sente-se aqui. — Bateu a mão ao seu lado, na cama. — Acho que eu lhe devo explicações.

— Explicações?

— A respeito da minha recusa em procurar um hospital — esclareceu. — Só quero que me prometa que não vai comentar sobre isso com ninguém.

Assenti, esperando que seus motivos me convencessem. 

Ela tomou mais um pouco da bebida e começou a discorrer sobre o terrível acontecimento da noite, trazendo à tona uma parte do passado, que eu nunca, jamais poderia imaginar. 

Dor, vergonha, culpa, arrependimento. Tudo se misturava em seu semblante enquanto relatava a situação à qual foi submetida, cujos efeitos não estavam somente no corpo. Ficariam eternizados na alma. 

A cada novo detalhe narrado, minha ira aumentava, consumindo uma parte da minha bondade, que ela tanto gostava de enaltecer. 

Não era para ser daquele jeito! Ela não deveria ter passado por tudo aquilo!

Em parte, entendi seus motivos de não registrar um boletim de ocorrência. Apesar de ser a vítima, as circunstâncias não estavam a seu favor. Talvez em uma sociedade justa, ela tivesse chance de ter sua reparação. Mas o machismo e o preconceito não a perdoariam. A honestidade não teria vez frente ao dinheiro. 

E passei a me perguntar, até onde valia a pena defender nossos valores?


Capítulo 1

Seis anos depois…

Milena

Pedi a Lívia que me esperasse na entrada do bloco dois. Era o mais próximo do estacionamento, e ela poderia ficar abrigada da tempestade de verão que desabava sobre a cidade, enquanto eu pegava o carro. Não havia necessidade de nós duas tomarmos um banho. Eu me aproximaria o máximo possível para que ela pudesse embarcar, evitando se molhar por completo, o que era praticamente uma ilusão, já que o vento forte chicoteava para todos os lados a água que caía do céu. Sombrinha, àquela altura, figuraria como um mero adereço. 

Apesar de fazermos parte da mesma turma, e estarmos no terceiro semestre do curso de Tecnologia em Logística, ainda não tínhamos conversado muito. Quer dizer, trocamos algumas palavras por conta de um ou outro trabalho da faculdade, mas nada que pudesse me dizer quem ela era, ou vice-versa. 

Lívia era bem calada, e parecia gostar de se manter isolada em seu canto, o que não a tornava uma pessoa antipática. Ela só era tímida, eu acho. Quando, ao final da nossa aula, a vi se encolher sob o barulho de um trovão, com o olhar meio perdido para o tempo que se descortinava lá fora, não pude conter o impulso de lhe oferecer uma carona. Eu sabia que ela utilizava o transporte público. 

— Moro na Vargem do Bom Jesus — explicou num tom baixo, observando nossos colegas que se apressavam para ir embora. — Não vou tirá-la do seu trajeto?

Realmente, ficava um pouquinho fora de mão, considerando que eu teria que seguir ao extremo norte da ilha, mas como tínhamos sido dispensados da última aula, julguei que chegaria em casa no horário habitual. E depois, o olhar de alívio que Lívia estampou diante do meu convite, não poderia ser ignorado. Coloquei-me em seu lugar, e certamente eu ficaria extremamente grata se alguém se dispusesse a me dar uma carona, dadas as circunstâncias. 

— É uma oportunidade de a gente se conhecer melhor — justifiquei, e ela sorriu depois de um tempo pensando.

— Neste caso, obrigada!

 Corri até a vaga onde o carro estava estacionado, mas isso não impediu que minha roupa ficasse ensopada. Eu estava toda daquele jeito, o tecido grudando na pele, gotas d’água pingando do meu cabelo em direção às costas e rosto. 

Alcancei uma jaqueta no banco traseiro, tentando amenizar a situação, enquanto ligava o aplicativo de trânsito, em busca do melhor trajeto até o bairro de Lívia. 

Demorei alguns minutos até encontrá-la no local marcado, já que a chuva congestionou o estacionamento. 

— Meu Deus! Está caindo o mundo! — brincou, fechando a porta rapidamente. Seu estado não era tão lastimável quanto o meu, ainda assim, a blusa branca que usava ficou levemente transparente. 

— Tenho uma toalhinha no porta luvas, pode pegar, pelo menos para tirar o excesso de água do rosto e cabelo — indiquei, aguardando os carros à frente se movimentarem. 

— Obrigada! — agradeceu com um sorriso, e retribuí, virando-me para olhá-la rapidamente.

Lívia tinha olhos muito claros e parte de seu rosto era coberto por sardas, o que a deixava com uma aparência bem jovem. Os cabelos lisos, de um tom avermelhado, salientavam a pele alva. 

Ela me passou seu endereço e logo peguei a saída, seguindo as instruções do aplicativo, que indicava que demoraríamos aproximadamente quarenta minutos até chegar ao nosso destino. 

Apesar de exigir concentração devido à chuva que não dava trégua, o trajeto até que foi bem descontraído. Lívia, como eu imaginara, era só aquele tipo de menina que prefere se manter em silêncio diante da pouca familiaridade, mas contava pontos a favor da situação o fato de eu gostar de falar. Claro que procurei não ser indelicada ou invasiva, mas manter a conversa em temas neutros e que, normalmente, despertam um gosto comum em moças da nossa idade, facilitou para que ela se soltasse.

A chuva tinha diminuído consideravelmente quando parei em frente à sua casa.

— Puxa, nem sei como te agradecer Milena. Provavelmente eu chegaria perto da meia noite, se viesse de ônibus. 

— Tudo isso? — questionei espantada, olhando para o celular que indicava que ainda não eram nem dez e meia.

— Em dias normais, demoro uma hora e meia. Mas sexta-feira, e com esse tempo…

— Uau! É bem longinho para você ir e vir todas as noites.

— Sim. — Baixou o olhar para as mãos, que seguravam firme a mochila. — Mas, eu consegui bolsa integral, então não dava para desperdiçar essa chance por causa da distância.

Concordei com uma aceno, pensando no quão privilegiada eu era. Morava relativamente perto da faculdade, tinha um carro para me locomover, mesmo que ele já contasse com alguns bons anos de uso, e não precisava me preocupar com a mensalidade, já que meu pai bancava aquilo para mim, também.

Gostaria de dizer a ela que eu lhe daria carona mais vezes, pelo menos quando o tempo não colaborasse, mas achei que antes precisava conversar com meus pais. Em certos aspectos ainda lhes devia satisfações. 

Trocamos número de telefone e Lívia me deu um beijo de agradecimento antes de descer.

— Bom final de semana! E se cuida na volta!

Esperei que ela chegasse até a porta de casa para então arrancar, tomando o rumo de casa. 

Liguei uma música para me fazer companhia e, novamente, segui o trajeto que o aplicativo indicava. O bairro não me era desconhecido, apesar de eu pouco andar por ali, mas considerando a escuridão e a chuva, agora fraca, era melhor não querer me aventurar por conta própria. Além de que, não era um dos locais mais seguros da ilha. Notícias de assaltos por aqueles lados eram bem comuns.

Dirigi por uns dez minutos por ruas pouco alagadas, mas não fui prudente o suficiente para evitar passar por um buraco oculto em uma poça d’água, o qual engoliu metade do pneu direito dianteiro, deixando o carro preso no local. 

— Puta que pariu! Era só o que faltava! — bufei, maldizendo o tempo e a situação.

Desliguei a música e insisti no acelerador, mas dada a inclinação do veículo para o lado do meio fio, era de se imaginar que seria burrice continuar tentando sair dali sozinha. 

Busquei o celular e cliquei no número do Nicolas. Talvez eu devesse entrar direto em contato com a seguradora, mas ainda tinha a mania — péssima ou não — de ouvir a opinião de meu irmão mais velho. Ele sempre sabia me orientar sobre o melhor a fazer.

Acontece que, por uma ironia do destino, a chamada ia direto para a caixa postal. O mesmo aconteceu quando tentei o número do meu pai. Rendi-me a ligar para a seguradora, sem sucesso, e quando enviei uma mensagem para Nicolas, me dei conta de que eu deveria estar em uma área onde o sinal não era suficiente para entregá-la. 

Que maravilha!

A raiva foi dando lugar a apreensão. Eu estava sozinha, no meio de relativa escuridão, sem ter como entrar em contato com alguém. 

Procurei respirar fundo, não deixando o pânico vir à tona. Precisava pensar com clareza. Talvez devesse aguardar e pedir ajuda a algum veículo que passasse por mim, mas depois de quase dez minutos sem que viva alma surgisse, desisti. Dada a hora e as condições do tempo, não era de se admirar que não houvesse ninguém na rua.

Tratei de observar com atenção os arredores, reparando que na outra esquina havia um telefone público. Parecia ser a minha salvação em plena época de Androides e Iphones.

Busquei coragem para deixar a segurança do interior do veículo, peguei celular e bolsa, tranquei o carro, como se alguém pudesse tirá-lo dali, e corri até o outro lado da rua, desviando da água acumulada no chão.

Protegendo-me relativamente da chuva, que agora era praticamente só uma garoa, comecei a discar o número de casa, a cobrar. 

Ainda não tinha concluído a ação quando um grunhindo assustador atrás de mim, surgido sabe-se lá de onde, fez com que minha mão parasse em pleno ar. 

Meus lábios tremeram e eu me vi soltando o telefone e erguendo as mãos instintivamente, quando alguma coisa cutucou minhas costas. 

Oh Deus!

— Passa a grana! — Ouvi o resmungo num tom urgente. — E nada de gracinha!

Fechei os olhos, imóvel, a informação se infiltrando no meu cérebro enquanto um desespero justificável começava a vir à tona. Eu estava sendo assaltada e sabia que não deveria reagir, mas sim fazer o que me fosse pedido. 

— Vira! — Um novo cutucão. — Devagar se não quiser se machucar!

Fiz o que a voz ligeiramente estridente me pedia, baixando o olhar na intenção de não me deparar com sua figura. Eu não queria vê-lo. Era melhor não olhar para o seu rosto, certo? Assaltantes não gostam que você os encare.

— Passa a bolsa, anda! — rugiu num tom apressado.

Rapidamente puxei a alça e estendi a bolsa em sua direção, rogando para que ele a pegasse e sumisse da minha frente. Mas a sorte não estava a meu favor. Ele arrancou o objeto do seu desejo de minhas mãos, e se aproximou mais, inclinando-se na direção do meu rosto, uma lâmina fria tocando minha bochecha. 

Inspirei fundo, sentindo o cheiro de sujeira, álcool e mais alguma coisa que não consegui discernir. 

— Olha só pra ela… 

Engoli em seco. Tinha ciência de que o vestido, agora molhado, marcava meu corpo de um jeito inconveniente para uma pessoa mal intencionada.

— Por favor… — choraminguei, amedrontada com o cenário que se evidenciava. — Você já tem o que quer… deixe eu ir embora — implorei, as lágrimas se acumulando em meus olhos. Queria minha casa, o abraço dos meus pais, a segurança da minha família. 

— Acho que quero mais — falou mais perto, descendo o olhar pelo meu corpo. 

Um soluço me escapou. Queria recuperar a habilidade de falar e apelar para aquele pequeno fragmento de bondade que acredito que todo ser humano tenha. Tentei lutar contra a inércia e o medo, procurando pensar em uma forma de sair ilesa daquela situação, mas quem diz que em um momento como esse a gente consegue raciocinar? Era o instinto prevalecendo, e ele me dizia para obedecer em silêncio. 

Tentei lembrar de todas as recomendações que já li a respeito de um estupro iminente, e o pensamento de que aquilo estava para acontecer comigo, intensificou o pavor. Eu poderia correr, mas sabia que não iria longe. Ele tinha uma faca, era mais alto e forte do que eu, e fazer aquilo poderia despertar uma fúria ainda maior, com a qual eu teria que lidar. Gritar? Para quem? As ruas continuavam desertas. 

Um cantarolar, de uma só voz, se fez ouvir próximo dali, chamando a atenção do assaltante e minha também, é claro. Alguém se aproximava! 

Um fio de esperança me invadiu, fazendo com que eu ficasse com os olhos bem abertos. Poderia ser a minha salvação!

Uma figura alta, roupas largas, boné e capuz, cabeça baixa. Parecia alheio a tudo à sua volta. Pensei em gritar, chamar, pedir ajuda, mas sabia que seria loucura me manifestar quando o meu agressor ainda me tinha sob a mira de uma faca.

Devagar, o novo sujeito foi erguendo a cabeça, diminuindo a velocidade do seu caminhar até parar muito próximo a nós. Eu não conseguia enxergar seu rosto, que, além de estar encoberto por parte da roupa, encontrava-se contra a luz da rua, mas notei que ele moveu sutilmente a cabeça, passeando o olhar por mim rapidamente, antes de medir o assaltante, que se empertigou e resmungou em defensiva:

— Se manda cara! Ou rasgo a mina todinha!

A ameaça fez meus joelhos bambearem um pouco mais, e eu me vi em uma expectativa agoniante pelo que viria a seguir

— Calma aí irmão. — O outro homem advertiu, erguendo as mãos em sinal de paz, e sua boca pareceu se retorcer em um sorriso desinteressado. — Pegou o que queria? — Acenou para a bolsa na mão do assaltante.

— Não é da tua conta!

— Ei, não seja egoísta — criticou de um jeito debochado e olhou na minha direção, mudando o tom para algo sinistro. — Fica com isso aí e deixa a princesinha pra mim.

Oh Deus! Era isso então? Eu só estava mudando de mão? O que imaginei ser meu salvador, era, na verdade, outro bandido?

A esperança foi embora e o bolo no meu estômago cresceu, me deixando nauseada. 

O assaltante pareceu pensar, emitindo uma risada perversa enquanto voltava a atenção para a minha pessoa.

— Eu ia me divertir um pouco com ela. — Deslizou a lâmina até o meu pescoço e não consegui conter um gemido de pavor. — A gente pode dividir.

Fechei os olhos quando o assaltante se inclinou e passou a língua pela lateral do meu rosto, fazendo meu estômago se retorcer em ojeriza. 

— Tu não tá em condições cara — advertiu o homem recém chegado. — Vaza e deixa ela comigo.

Outra vez aquele tom dúbio, uma mistura de prazer sádico e… algo que eu não conseguia discernir.

O hálito fétido deixou meu rosto, o que me fez espiar. Ele ainda tinha o corpo muito próximo ao meu, barrando meus movimentos, mas a faca agora estava apontada para o outro homem.

— E quem é você pra dizer qualquer coisa? — rosnou ofendido, dando um passo à frente, confrontando seu oponente. — Tô em condições de fazer o que eu quiser. Com ela e com você, se facilitar.

Ele investiu contra o homem, que em um movimento rápido demais para os meus olhos, tentou roubar o objeto afiado, sem sucesso, porém invertendo as posições. Agora era ele que impossibilitava qualquer mobilidade minha.

— Pode vir cara. — Cresceu para cima do assaltante. — Mas se prepara pra eu te mandar pra um lugar sem volta.

Ele era maior, não muito, mas o bastante para impor certo medo, e não apenas em mim. O assaltante titubeou, como se fosse partir em ataque, mas no último momento pareceu desistir, se afastando.

Quase suspirei de alívio quando ouvi os passos soarem cada vez mais afastados, dando-me a certeza de que ele havia seguido a sugestão do seu… comparsa? Mas eu apenas estava sendo deixada para que outro se divertisse às minhas custas. E dessa vez, não havia mais nenhum pertence com o qual eu pudesse sequer tentar barganhar. Eu estava perdida!

Percebi uma movimentação sutil do homem à minha frente, e tudo o que consegui fazer foi rezar em silêncio, pedindo a Deus que eu pudesse sair viva daquela situação. Mas a voz do sujeito, agora meio rouca, interrompeu minha oração.

 — Você está machucada?

O quê? Que tipo de bandido pergunta uma coisa dessas?

Abri os olhos devagar, para me deparar com ele no mesmo lugar de antes, examinando-me detalhadamente, mesmo que eu presumisse que ele não podia ver muita coisa. 

Só consegui menear a cabeça em negativa à sua pergunta.

Ele assentiu e olhou para os lados, voltando-se para mim com o semblante… contrariado?

— O que a patricinha faz sozinha por aqui, a uma hora dessas?

Sério que ele iria insinuar que eu era a culpada por ter sido assaltada e ameaçada de estupro? 

— A… ro… roda do meu carro ficou pre… presa em um buraco — gaguejei. 

Ele olhou para o veículo parado não muito distante de nós, e de novo para mim. Pareceu-me que ia perguntar mais alguma coisa, mas um ronco de motor chamou nossa atenção. 

O homem foi mais rápido do que eu, e correu para a rua, sinalizando para o único veículo que passou pela região em todo aquele tempo que eu estava ali: um táxi. Eu poderia rir da ironia, não fosse o medo que ainda me paralisava.

Observei-o parar o carro e praticamente enfiar a cabeça pela janela do lado do passageiro. Ele iria assaltar o taxista?

Eu poderia aproveitar aquele breve instante de distração dele e correr, não poderia? Ah, mas quem eu estava querendo enganar. Ele me alcançaria fácil, além de que minhas pernas pareciam não obedecer a qualquer comando. 

Continuei de olho no sujeito, que sem demora acenou para mim. Sem conseguir pensar direito, apenas segui na direção do veículo, que me esperava agora com a porta traseira aberta. Eu poderia pensar em alguma coisa depois que estivesse lá dentro. Talvez até saltar do carro em movimento, quando estivéssemos em algum lugar mais central. 

Olhei de soslaio para o motorista, que não parecia muito satisfeito com a situação. O homem, que até prova em contrário, eu considerava um provável estuprador, permanecia segurando a porta para mim.

Entrei no banco de trás do táxi, estremecendo ao imaginar que ele se juntaria a mim e faria sabe Deus o quê. 

Esperei…

— Não esqueça de dar seu endereço certinho pro senhor Jardel.

A voz, agora mais suave, chamou minha atenção e me despertou daquele terror, fazendo com que eu virasse a cabeça em sua direção. Ele estava levemente inclinado, mas fora do veículo, olhando para mim com o que parecia ser um pequeno sorriso.

Um poste de luz, bem próximo a nós, iluminava perfeitamente seu rosto, que eu via agora pela primeira vez na noite. Seus olhos eram claros, e eu procurei por coisas ruins neles, mas não consegui encontrar. Ele era… bonito! Realmente bonito, de um jeito… que eu talvez não deveria achar. 

Recebi uma piscadela antes que ele fechasse a porta e desse uma leve batidinha no capô, indicando que o senhor Jardel podia seguir. 

Um tanto abobalhada com o rumo das coisas, olhei para trás, e o vi lá parado, olhando na direção do táxi. 

— Qual o endereço, moça?

O que foi aquilo? Ele, afinal, tinha mesmo me salvado daquele homem horrível?

— Moça, eu também quero ir para a minha casa.

Voltei-me para frente e forneci os dados para que eu pudesse estar o mais rápido possível na segurança do meu lar, não sem parar de pensar naqueles olhos claros, que acabaram por me surpreender naquela noite.

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