De Cor e Salteado

150 0
Disponível no Kindle Unlimited

Capítulo 1 / Degustação

Analu

Ouço passos se aproximarem e não tenho dúvida a quem pertencem. Conheço bem o andar tranquilo de Pérola, apesar de ter percebido na última semana que isso mudou um pouco. Ou talvez seja apenas impressão minha, causada pelo meu afastamento de seis meses do Resort.

A porta se abre, permitindo que seu perfume suave chegue até mim antes mesmo de sua pessoa.

— Não me diga que você atravessou a noite cozinhando?

Pérola indaga assim que entra na cozinha, dispensando o bom dia. Seu tom é doce, ao mesmo tempo tem um toque de reprimenda.

— Não conseguia dormir — respondo sem olhar para ela, concentrada na decoração do último prato.

— E não tinha nada melhor pra fazer além de vir trabalhar? Assistir um filme, ler um livro quem sabe?

Posso sentir seu olhar recriminador mesmo sem erguer a cabeça.

— Sabe que isso nunca é trabalho pra mim. E depois, não havia nenhum filme que prendesse minha atenção, tampouco uma história que pudesse curar minha ressaca desde o último livro que li. — Limpo as mãos no pano branco, junto do avental pendurado em minha cintura — Estou apenas testando algumas receitas. Aliás, aproveitando que está aqui, prove! — Finalizo a limpeza do prato e estendo a ela garfo e faca, para que possa degustar minha mais nova experiência culinária.

Pérola ainda mantém o olhar em mim, mas não recusa a oferta, e logo se debruça levemente sobre a bancada, observando atentamente minha arte antes de fazer o que pedi.

— Se estiver tão gostoso quanto o aroma e a aparência… — Ela corta um pequeno pedaço do filé grelhado, envolvendo-o no molho de morango com pimentas — Ah, o que estou dizendo? É óbvio que deve estar ótimo!

Observo-a levar o garfo à boca, saboreando lentamente. Ela fecha os olhos e emite um baixo e breve gemido de satisfação, o que arranca um sorriso do meu rosto.

Espero pelo seu veredicto, mas antes disso ela rouba outra porção, voltando a fechar os olhos, mastigando devagar, com prazer.

— Então? — insisto ansiosa, mesmo que sua reação me diga que ela gostou.

Porra véi… — É tudo o que fala.

Sorrio de forma ainda mais ampla. Estava com saudades de minha amiga! Essa temporada longe de tudo e de todos foi extremamente gratificante. Tanto em matéria de aprendizado quanto de lazer. Mas confesso que nem toda a beleza de Portugal me fez esquecer as pessoas que têm um lugar especial no meu coração.

Eu, Pérola e Isadora nos conhecemos ainda na infância e brincamos muito entre os pés de cacau da região. Frequentamos a mesma escola e vivenciamos praticamente lado a lado o período confuso que é a adolescência, sempre tão repleto das mais diversas dúvidas. Era comum dormirmos uma na casa da outra, varando a noite com confidências. Não havia segredos entre nós. A sinceridade sempre foi uma característica preponderante em nossa amizade, por isso mesmo a opinião delas é tão importante para mim. Eu confio no bom gosto de ambas, além de saber que elas sempre me dirão a verdade, mesmo que doa.

— Ma-ra-vi-lho-so! — emite finalmente — O leve adocicado do molho não chega a mascarar o sabor da carne. No final, um toque picante que aquece o estômago, sem, entretanto arder — profere de forma profissional, como quem entende do assunto. E de fato, ela é capaz de salientar algumas nuances, dote que foi adquirindo enquanto me acompanhava nessa jornada eletrizante que eu considero a culinária.

— Faz parte do novo cardápio que estou montando, com um leve toque afrodisíaco — revelo lisonjeada, o que a faz arregalar os olhos e sorrir de forma maliciosa.

— Novidades do seu curso em Lisboa? — Eu assinto — Deixe dona Glória saber disso.

Ah sim, imagino que quando apresentar os novos pratos à avó de Pérola – proprietária do Resort – a alegre senhora se incumbirá de encaixá-los em algumas situações que somente ela consegue identificar como promissoras.

— E você, o que faz em pé a essa hora? — questiono ao verificar o relógio pendurado na parede à minha frente. Faltam alguns minutos para as seis horas e o sol está só começando a despontar. Logo Clotilde e Tereza estarão aqui para dar andamento no café da manhã.

— Trabalho! — explica num tom acabrunhado.

Eu examino Pérola rapidamente, e noto o semblante tenso, mesmo que ela tente disfarçar com um sorriso. Ela aparenta estar pronta para assumir seu posto detrás da mesa do pequeno escritório onde administra o Resort, porém o entusiasmo com que sempre tocou os negócios parece ter lhe abandonado.

— Você não anda muito animada. Percebi desde que cheguei de viagem, mas esses primeiros dias têm sido tão corridos… O que houve? — Puxo-a para o lado de dentro da bancada, indicando uma cadeira ao redor da mesa de madeira maciça, uma das peças antigas que dona Glória fez questão de manter quando reestruturou a cozinha, modernizando-a para facilitar o trabalho de preparação das refeições servidas no Resort, que vão além do café da manhã.

— É só cansaço. — Ela se acomoda enquanto pego uma caneca de café para cada uma de nós. Sirvo um pedaço de bolo de fubá fresquinho, e me sento à sua frente. Ela dá um gole na bebida quente e prossegue — Quem sabe a gente possa relaxar um pouco essa noite na companhia da nossa amiga? Está lembrada que temos hóspedes chegando hoje, não é mesmo?

— Ah, é verdade. — A euforia me invade — Estou morrendo de saudades da Isadora.

— Contei quem mais está nesse grupo? — Ela esconde um sorriso antes de levar um pedaço de bolo à boca.

— Não. — Eu semicerro os olhos, desconfiada.

— Ah sim, você esteve ocupada organizando seu espaço.

A observação de Pérola é uma crítica disfarçada, mas não me deixo atingir.

— Sabe como gosto das coisas Pérola. E vamos combinar que isso aqui estava… — aponto ao redor, agora sim mais tranquila, depois de deixar tudo do meu jeito —, bagunçado, pra não dizer um caos.

— Ninguém, nunca será como você, sabe disso.

— Só gosto de tudo no seu devido lugar — justifico.

— Sim, e vamos frisar que os centímetros interferem nesses lugares.

Não nego ser exigente. Ordem e limpeza são itens imprescindíveis na cozinha, não apenas no quesito higiene, mas produtividade. Tenho ciência de que muitas vezes sou sistemática e metódica ao extremo, e que isso irrita algumas pessoas à minha volta, principalmente quem trabalha diretamente comigo, já que raramente algo passa despercebido aos meus olhos. Isso faz com que eu praticamente exija que sejam como eu: organizados, concentrados, meticulosos. Não canso de ouvir que meu senso perfeccionista beira a neurose.

— Afinal, quem está na lista de hospedes que receberemos hoje? — Mudo de assunto, pois é perda de tempo expor a minha versão de administração de uma cozinha. Boa parte do sucesso de uma, deve-se à organização da mesma.

— Então… Aquele modelo famoso, Mateo Rangel, é um deles.

— Sério? — Arregalo os olhos, surpresa.

— Ele vem com o irmão, fotógrafo. A assessoria dele perguntou se poderiam fazer um ensaio usando as nossas dependências e se era possível que ele tivesse aulas de dança durante sua estada. Parece que ele fará uma ponta em uma novela ou minissérie, e seu personagem precisa saber alguns passos específicos.

— Ah, isso é ótimo! Já pensou o quanto pode nos trazer visibilidade?

— Com certeza! É claro que eu não tornei a coisa assim tão simples. — Ela endireita a postura e ensaia uma expressão orgulhosa, segurando o riso.

— O fácil não tem valor, sabemos bem disso.

— Eu que o diga, amiga — resmunga num muxoxo, e eu sei que se refere às suas desilusões amorosas — Agora, adivinha quem vai ensiná-lo?

— Certamente deve trazer alguém conhecido. Essas celebridades gostam de mostrar que podem!

— Exato. Juan Hernandez!

Engasgo com o café, tossindo para que o líquido libere minhas vias aéreas.

— O coreógrafo premiado?

— Ele mesmo! — Pérola balança a cabeça empolgada.

— E só agora você me fala isso? — Pego um guardanapo, limpando algumas gotas de café ao redor da minha boca.

— Por quê? — Ela me olha intrigada, e antes que eu responda, Clotilde e Tereza surgem à porta, prontas para assumir cada uma seu posto na cozinha.

Cumprimentamo-nos e eu aguardo até que elas se afastem, enquanto o rosto de Juan Hernandez me vem à mente.

Não sou o tipo de pessoa que acompanhe a arte da dança, mas lembro-me bem dos traços marcantes do coreógrafo. Ele foi o responsável pela nota máxima no quesito comissão de frente no último carnaval, além do estandarte de ouro.

— Por que… Porque ele é um cara… Famoso?

— E gostoso? — Ela emenda.

— Hum, também…

— Ah, você tem um crush nele Analu!

— Até parece! — Olho para os lados, mas as meninas estão concentradas nos seus afazeres — Por acaso eu assisti a uma entrevista logo após o carnaval, quando muito se comentava a respeito da premiação. Claro que o que me chamou a atenção foi a beleza dele.

— Óbvio! — Ela ri, divertindo-se — Vai se desconcentrar na cozinha sabendo que tem um homem do porte dele tão perto? — Provoca.

— Nunca perco o foco, o que dirá por causa de homem. — Defendo-me, mesmo sabendo que é desnecessário, haja vista meu empenho e resultado.

— Você não tem tempo pra isso, certo?

— Exatamente! — Pontuo e me levanto, o que a leva a fazer o mesmo — Minha realização profissional vem em primeiro lugar. Tenho planos, você bem sabe, e pra colocá-los em prática, toda a minha atenção precisa estar voltada para o trabalho.

Ela concorda com um aceno, mas antes de se retirar, relembra.

— Só não esqueça que precisa deixar alguém qualificado no seu lugar.

Sim, essa é a grande questão. Por mais que eu queira bater asas e voar em busca do meu sonho, sinto-me relativamente presa aqui. Não por Pérola ou dona Glória – elas são minhas maiores incentivadoras – mas por essa minha quase obsessão em achar que ninguém nunca será bom o bastante para me substituir.

— Alguma orientação específica Analu? — Clotilde me chama, trazendo-me de volta daqueles pensamentos. Ou nem tanto.

Ela é a pessoa que mais se parece comigo. É prestativa e tem iniciativa, qualidades que prezo em qualquer ser humano quando se trata de trabalho. Só lhe falta um pouco mais de organização e confiança, coisas que podem ser ensinadas e despertadas. Talvez eu só precise de um pouquinho de coragem para deixá-la tomar à frente em algumas situações, até porque ela já demonstrou que tem capacidade quando me substituiu enquanto eu fazia uma especialização na área, em Lisboa.

— Eu separei os ingredientes para aquela crepioca de coco e queijo coalho. Temos vários hóspedes deixando o resort hoje, então pensei que seria uma ótima despedida gastronômica, o que acha?

— Perfeito! — Ela sorri.

— Você pode preparar?

— Sem problemas.

Eu a deixo encarregada daquela tarefa e ajudo Tereza com os demais preparativos do café da manhã, ansiosa para que o dia passe rápido e eu possa me juntar às minhas amigas para um encontro de meninas!

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