Trilogia Irmãos Wood

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Livro um: À Distância

Disponível no Kindle Unlimited

Prólogo / Degustação

Hoje

Catarina

A tecnologia é mesmo incrível, não? Quanta coisa se pode viver através dela! Quantos acontecimentos são possíveis de se acompanhar ao vivo, pela tela de um computador, celular ou tablet. Poder se conectar a uma pessoa do outro lado do mundo, interagindo como se você estivesse a um passo do seu interlocutor, é algo tão comum e natural nos dias de hoje que não conseguimos conceber como pudemos viver antes dessa era.

O FaceTime ou Skype, por exemplo. Permitem que você esteja ali, frente a frente, praticamente a um toque da pessoa, mesmo que, fisicamente, milhares de quilômetros os distanciem.

É o que ocorre agora, nesse instante. A conversa que acontece entre mim e Sebastian é tão viva e calorosa que eu posso praticamente sentir a temperatura que se estabelece. Talvez seja porque o tom tenha se elevado, deixando de ser uma simples conversa.

— Você está cega, Catarina. Ou melhor, só enxerga aquilo que quer e da forma como quer.

Só que a temperatura, dessa vez, não se eleva por conta de palavras ou joguinhos excitantes, e sim em função de uma discussão. Confesso que nunca me imaginei fazendo isso. Brigar com um namorado através do computador. Mas o presente momento mostra que, assim como tantas outras coisas, nem tudo é como pensamos.

Sebastian contesta minhas acusações, encarando-me pela tela do note, acomodado no lugar de sempre. Percebo as prateleiras às suas costas, repletas de livros, mas é sua figura, sempre tão máscula e de certa forma ainda impactante para mim, que prende minha atenção.

Os cabelos estão mais compridos e gosto da forma como ele prende parte da franja no alto da cabeça. A barba também está mais densa, formando uma espécie de cortina negra sobre o queixo e o maxilar.

— Enxergo o que está claro e cristalino como água — replico, ignorando a comichão que quer se espalhar pelo corpo, e foco na conversa.

— O que mais você quer que eu fale além de tudo o que já foi dito? Você deveria confiar em mim e não no que a mídia espalha. Não em fotos que registraram momentos…

— Em que você está agarrado com mulheres? — interrompo ainda mais indignada, mantendo o olhar fixo no dele. Olha aí a tal tecnologia de novo. Dessa vez, contra nós.

— Agarrado? — Ele esfrega as mãos no rosto, demonstrando impaciência, mas ainda controla a voz. — Preste atenção no que está falando, Catarina. Você, mais do que ninguém, deveria compreender como essas coisas funcionam.

— Não, Sebastian. É você que deveria compreender que eu estou cansada disso tudo — retruco em um tom mais alto, gesticulando irritada. — Cansada de me deparar com imagens suas ao lado de belas mulheres, toda vez que me conecto às redes sociais. Cansada de não termos tempo um para o outro, de ser preterida de tantos assuntos da sua vida. De não poder te tocar ou sentir seu cheiro.

— E isso por acaso é culpa única e exclusivamente minha? — Aproxima-se mais da tela, franzindo os olhos. — Pensei que ambos estivéssemos cientes de como seria, quando iniciamos esse relacionamento.

— E estávamos.

— O que mudou então?

— O futuro talvez? — murmuro sem olhar para ele. — Onde isso vai dar, afinal? Até quando vamos assim, nos vendo através de uma tela algumas vezes por semana, trocando algumas mensagens diárias, excitando um ao outro quando as agendas e o fuso horário permitem?

Ele bufa.

— Não coloque as coisas como se você fosse a única vítima aqui. Acha que não sinto saudades? Que estou satisfeito com essa situação?

— Quer saber? Às vezes acho que para você tanto faz. Se realmente sentisse tanta saudade, você me deixaria fazer parte de uma pequena parcela que fosse da sua vida. Mas parece que ultimamente isso não importa.

— Como é que é? — grita indignado. — Você sabe que não posso simplesmente largar tudo aqui, Catarina. Não agora.

— Eu sei que não. E nem estou te cobrando isso.

— As coisas estão complicadas no momento, Cat, já te expliquei — justifica.

— Sim. Eu pensei sobre isso, Sebastian. — É minha vez de baixar o olhar. — E acho que talvez não seja o momento para você assumir mais um compromisso.

— Do que você está falando?

Seu tom muda e ele me encara com uma expressão de incredulidade. Reconheço a carga de energia que aquele olhar contém. Eu já a senti antes, em um outro contexto.

Sinto a garganta seca e levanto, indo em busca de algum líquido que permita que minhas cordas vocais funcionem. Essa é uma das vantagens de se discutir à distância. Você pode “fugir” por um instante, sem que o seu oponente tenha chance de ir atrás.

— Catarina, volta aqui! — Ouço o tom grave e agora furioso que vem do aparelho que nos mantém conectados. — Merda! Nós não terminamos essa conversa! Catarina!

— Eu estou aqui. — Volto para frente do note, tomando um grande gole de água.

— Então senta nessa porra dessa cadeira e olha para mim!

— Não consigo ficar parada, tá bom? — retruco ainda em pé.

— E eu não consigo discutir com uma pessoa sem olhar para ela.

— Estamos discutindo? — Minha sobrancelha sobe em questionamento, uma vez que ele reluta em usar esse termo.

— Não está claro isso? Namorando é que não estamos. — O tom de deboche se mistura à raiva e eu ando de um lado para o outro, angustiada, mas ainda às suas vistas. — Porra, se você estivesse aqui eu te amarrava em um tronco, no meio da mata.

Estaco ao ouvir aquilo e volto para encará-lo.

— É sério que você disse isso?

— Para que ficasse parada enquanto falo com você — continua, e em um segundo, seu olhar se aquece. — E claro, aproveitava para fazer outras coisas.

— Não mude de assunto, Sebastian! Não pense que vai me enrolar com esse papo sedutor.

— E desde quando eu te enrolo, Catarina? Me diz.

— Desde quando mulheres se penduram em você a cada novo evento, sorridentes, deslumbradas, dirigindo-lhe olhares apaixonados. Desde que Melissa é sua companheira para todas as horas, fazendo com que seja relegado a mim o posto de… nem sei do que. Desde quando já conversamos sobre isso e nada mudou.

— O que as mulheres demonstram ou sentem não me diz respeito. O que interessa é como eu me porto frente a isso. Sou gentil sim, sou educado, converso e sorrio. E, como disse, você deveria estar acostumada, já que acompanha esse tipo de evento frequentemente. Ou quer o quê? Que eu negue uma foto com uma fã, porque minha namorada não consegue controlar seu ciúme infundado? Quanto à Melissa, eu me nego a tocar nesse assunto novamente.

Sebastian não deixa de ter razão. Esse assunto já está batido entre nós e não adianta mais argumentar.

Chacoalho a cabeça, confusa, perdida e esgotada. Quero ser paciente, confiar e levar as coisas de forma tranquila, mas a cada dia que passa fica mais difícil.

— Não sei mais o que pensar, Sebastian — murmuro aborrecida.

É isso. Nenhum de nós pode ou quer abandonar seu lar, emprego, amigos, família, para se arriscar em uma aventura sem garantias. Porque é exatamente isso que nosso “namoro à distância” parece significar. Evidentemente, a paixão não é o suficiente para simplesmente jogar tudo para o alto.

Um silêncio constrangedor se instala. Sabemos o que está rondando na cabeça de cada um. As dúvidas e angústias. A vontade e a saudade.

— O que você quer, Catarina? — É ele quem quebra o clima estranho.

Sorrio sem vontade.

— Você tem outras prioridades no momento, Sebastian.

— Então…

— Talvez seja melhor cada um seguir seu caminho… — sugiro, baixando o olhar.

— Você está desistindo, é isso?

Não respondo. Porque sinceramente não sei o que dizer.


Capítulo 1

Oito meses antes

Sebastian

— Feliz Dia dos Namorados, Cat! — Ela me olha sem entender de imediato. — Terminamos o seu Dia dos Namorados com uma despedida. — Prenso seu corpo mais contra o meu. — O meu dia dos namorados terminará com nós dois na cama.

— É isso que somos? Namorados?

Catarina me questiona, acomodada sobre o meu quadril, minutos depois de eu surpreendê-la em seu apartamento e parabenizá-la pelo Valentine’s Day. É só então que ela se dá conta de estarmos no dia quatorze de fevereiro. Uma coincidência de datas, já que nossa despedida em Londres se deu no dia doze de junho, dia dos namorados aqui do Brasil.

— Não sei, Cat. — Acaricio a lateral de suas coxas desnudas. — Não fiquei com ninguém nesse período. E você?

— Não consegui te tirar da cabeça. — Ela envolve meu rosto nas mãos, olhando-me intensamente.

— O que acha de tentarmos? Um namoro à distância? — Sustento seu olhar, tentando captar seu pensamento.

— Acha que pode dar certo? — Os dedos finos deslizam devagar pela minha barba.

— Inconscientemente foi isso que vivemos nesses oito meses. Eu lá, você aqui. — Afasto a camisola, expondo a lateral da calcinha branca e puxo o ar com mais força — Um pensando no outro, sem se interessar por outra pessoa…

— Isso é praticamente uma aventura, lenhador! — Ela suspira quando subo as mãos e as deslizo pela curva dos seios. Gosto quando me chama pelo apelido que me deu.

— Topa dividi-la comigo?

Catarina não responde. Segura na barra da camisola e a puxa por sobre a cabeça, dando-me a visão maravilhosa de sua pele nua, os mamilos eriçados antes mesmo que eu os toque.

— Que saudade do seu corpo— rosno em um português quase perfeito, enquanto espalmo as mãos sobre a bunda dela e mordo o pescoço.

— Espere! — Ela me afasta, corada, a respiração entrecortada. — Você não ficou mesmo com ninguém nesse período?

— Cat…

— Pode falar, Sebastian. — O peito sobe e desce mais rápido e já estou duro. —Vou entender, afinal, não tínhamos compromisso algum.

— Ninguém — respondo meio hipnotizado pelos bicos rosados.

— Isso quer dizer que… Você não transa há oito meses? — Seu tom parece incrédulo e ouço minha risada soar semelhante.

— O mesmo que você, imagino eu.

— Mas…

— Mas o que, Catarina? Machismo a essa hora? — Encaro-a com uma sobrancelha erguida e recebo um olhar safado, acompanhado de mãos que trabalham para desabotoar minha camisa.

— Então… Você deve estar com muita energia guardada.

— Muita! — Remexo sob seu quadril para que ela sinta. — Será que você dá conta de toda ela?

— Temos o fim de semana inteiro para isso. — Ela desliza a língua pelo lábio inferior, provocando-me.

— Ótimo! Agora, não me interrompa até que eu te faça gozar, ok? — determino e me levanto, tendo-a com as pernas enroscadas na cintura. Não preciso de instrução para encontrar o quarto, já que o apartamento é minúsculo.

Catarina me fita com fogo no olhar e apesar de tê-la questionado, sei que ela dará conta de todo o desejo guardado dentro de mim, como também sei que não conseguirei ser muito paciente no início. Nem toda a masturbação praticada nesse período de afastamento pode amenizar a vontade de me perder em seu corpo.

Quando a deposito sobre os lençóis, minha camisa já está fora do corpo. Catarina se remexe como uma gata no cio e parece ainda mais diminuta no centro da cama king size, que toma quase todo o quarto.

Não tenho tempo de reparar em nada mais que não seja ela. Retiro alguns envelopes de preservativo do bolso, que prudentemente reservei antes de chegar ao apartamento e me livro da calça e da boxer. Ela suspira e leva uma das mãos em direção ao meio das pernas.

— Não! — digo e balanço a cabeça em negativa, vendo-a estremecer diante da minha voz. Até eu me surpreendo com o quão rouca e grave ela soa. — É a minha mão, além de outras partes do meu corpo, que irão brincar aí hoje.

Agarro os pés dela, puxando-a de supetão para mais próximo da beirada da cama. Ajoelho-me e seguro seus tornozelos, e é por ali que começo a trilhar beijos, lambidas e mordidas, ouvindo os gemidos abafados, que parecem ter ligação direta com o membro que pulsa entre minhas pernas.

Lembro o quanto Catarina gosta de sentir a barba raspando por sua pele e é isso que lhe dou. As duas mãos agarram meus cabelos quando chego no alto das coxas, perto da virilha.

— Sebastian…

— Ainda não. — Desvio de onde sei que ela quer minha boca, tanto quanto eu quero dá-la, e subo para o ventre, que se contorce a cada investida de minha língua e dentes.

Quando alcanço os seios e prendo um mamilo na boca, Catarina solta um grito abafado. Ergo o olhar e sorrio satisfeito ao sentir o prazer que se espalha por ela. Subo mais, deixando a pele marcada pelo raspar da barba, até alcançar os lábios em formato de coração, que me encantaram à primeira vista. E ali me perco. Saboreio a língua, os contornos da boca e deixo que seu gosto se esparrame em mim.

O ar à nossa volta é denso, carregado de tesão. Nossos corpos já estão suados, consequência do calor gerado pela chama que arde no peito.

Beijo-a mais, porque quero mais. Ela se agarra em meus ombros e depois desliza as unhas por minhas costas, deixando-me arrepiado.

Solto um urro quando as mesmas unhas se cravam na minha bunda e tudo o que quero é me enterrar nela. Mas antes disso, preciso saborear um ponto. Um que confirmo estar encharcado quando levo a mão até ele.

— Sebastian… por favor…

— Quanto tempo sem te sentir assim, Cat.

Ela geme e resmunga algo, e não quero mais esperar. Desço e afasto suas pernas, dando-lhe prazer com a língua e os lábios, vendo-a se curvar e tirar as costas do colchão quando o orgasmo a atinge. É lindo de ver e sentir, e me deixa ainda mais desesperado para tê-la à minha volta.

Catarina ainda se contorce, desfrutando de resquícios do gozo quando me apronto e me encaixo. Ela abre os olhos nublados quando pairo sobre seu corpo e tudo que tenho vontade de fazer é arremeter de uma só vez. Sei que ela gosta disso, mas faz tanto tempo… Preciso me conter.

É meio louco pensar que ela me causa isso depois de oito meses longe, quando tivemos menos de uma semana para nos conectar.

Não penso em como foi ou como será, e sim no que temos aqui, agora. No seu corpo se arqueando para receber o meu. Na sua boca procurando pela minha para beijos entrecortados por gemidos quentes, promessas e palavras indecentes proferidas no calor do momento. Quero Catarina e ela me quer.

A ligação que desenvolvemos não pode simplesmente ser ignorada, deixada de lado. Queremos que aconteça. Então, sim, estamos concordando com um relacionamento à distância. Será fácil? Obviamente que não. Teremos que aprender a lidar com a saudade, a falta do contato físico, do olho no olho, pele com pele, até que nossas agendas profissionais permitam que um vá ao encontro do outro.

Sinceramente, eu não sei ao certo como faremos isso. Nunca vivi uma situação parecida. Aliás, há algum tempo eu não mantenho um relacionamento que tenha a conotação de compromisso. Mas eu quero muito ter Catarina ao meu lado. Ou, nesse caso, à distância, mas com a certeza de que ela é minha!

Marron 5 – Lips on you

When I put my lips on you
Quando coloco meus lábios em você

I feel the shivers go up and down your spine for me
Sinto os arrepios na sua espinha, por mim

Make you cry for me
Faço você chorar por mim

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Livro dois: À Deriva

Disponível no Kindle Unlimited

Prólogo / Degustação

Alguns anos atrás

Medo!

Quem já não sentiu aquela sensação de alerta que surge diante de uma situação de insegurança ou perigo? Real ou imaginária, basta que seja percebida como uma ameaça à sua integridade física ou psíquica.

Dizem que o medo talvez seja, dentre as principais emoções, a que faz nosso cérebro trabalhar de forma mais turbulenta, gerando uma descarga de adrenalina intensa, que ativa, involuntariamente, uma série de respostas químicas. Os sintomas vão muito além do psíquico. Estendem-se pelo corpo, manifestando-se através de tremores, suores, dores musculares, palpitações e confusões mentais. Inconscientemente, essas características físicas reproduzidas pelo sentimento de medo preparam o corpo para duas prováveis reações naturais: o confronto ou a fuga.

Se optarmos pelo confronto seria certo afirmar que existe uma linha tênue entre o medo e a raiva. Afinal ela também é uma emoção primária, e dispara um sentimento de protesto contra algo ou alguém que nos representa uma ameaça. Funciona como uma reação instintiva, e assim como o medo, varia de pessoa para pessoa. Pode nos levar a ter reações simples, como uma breve irritação, até episódios mais violentos de ataque e defesa.

Se optarmos pela fuga, estaremos tão somente procurando nos salvaguardar das ameaças, nos distanciando daquilo que supomos estar colocando em risco nossa vida ou condição psíquica, mesmo que para isso apelemos para medidas desesperadas e por vezes impensadas.

Talvez eu tenha exercido essas duas reações essa noite. Ou nenhuma. Não sei!

O cenário é surreal!

Três corpos jazem ao chão em uma vasta confusão. E de alguma forma estou entre eles, porém, viva. Quer dizer, meu coração ainda bate, mas receio em dizer que haja um sopro de vida dentro do meu peito. Por que me sinto tal qual aquelas três pessoas: morta!

Meus olhos não conseguem desviar do espetáculo grotesco. Eu tento não olhar, não me ater aos ferimentos brutais que ceifaram a vida de todos os três. Mas é mais forte do que eu. E ainda que eu pareça um ser inanimado em meio ao caos, meus sentidos começam a despertar.

Ajoelhada junto aos corpos, aos poucos me dou conta da minha condição. Minhas roupas amarrotadas contêm vestígios do fluído escarlate que se espalha à minha volta, e as mãos, banhadas em sangue, tremulam de forma incontrolável.

Uma lufada de ar gelado, vinda não sei de onde, me faz estremecer, o que me leva a puxar uma respiração profunda, parecendo despertar em mim, ainda que de forma lenta, a realidade.

Móveis e objetos estão espalhados pelo pequeno ambiente escuro e gélido, como se tivessem sido arremessados com fúria ou então servidos de proteção em um momento de desespero. Não muito distante, um pequeno quadro, com uma foto de família, pende torto na parede.

Não consigo precisar quanto tempo estou na mesma posição. Tampouco sei dizer como cheguei até aqui, porque tudo parece um grande borrão.

A primeira sensação que recordo sentir é frio. Tão intenso que não apenas amortece meus membros, mas congela minhas entranhas e pensamentos. E não é a temperatura extremamente baixa que faz com que eu me sinta assim.

De forma gradual, o odor metálico, misturado a outro que não sei definir, invade minhas narinas, provocando uma revolta em meu estômago.

Nojo, medo, raiva, agonia. Tudo se mistura e me confunde.

Não consigo entender o que está acontecendo e nem sei de quem são as vozes que começam a chegar aos meus ouvidos e que lentamente vão dissipando o silêncio que travou meus pensamentos e ações. O que elas questionam? Por que parecem me afrontar, recriminar, acusar? Eu deveria saber o motivo?

Tento processar tudo, mas me sinto cada vez mais desorientada.

Onde estão todos? Quem interferiu na minha vida dessa forma cruel? Por que tudo parece tão errado e tão triste? E por qual motivo não consigo sentir dor?

Mas então os fatos me atingem!

Minha história foi interrompida de maneira brutal e sem aviso prévio. Os três cadáveres que estão ao meu redor pertencem à minha família… De alguma forma, por algum motivo, sou a única que restou. E agora, sozinha aos quatorze anos, me sinto sem rumo, sem saber para onde seguir ou a quem pedir socorro!


Capítulo 1

Hoje

Alexander

— Sua encomenda chegou capitão. — Um sorriso luminoso acompanha a informação da bibliotecária, que detrás do balcão me estende um pacote.

Instalada em um belo edifício com pé direito alto, a Biblioteca Pública de Homer impressiona não somente visitantes. Suas enormes janelas e recantos acolhedores para leitura, com cadeiras confortáveis e uma grande lareira, a tornam um lugar agradável para visitas rápidas ou prolongadas.

Obras de artistas locais decoram o interior do prédio, que conta com computadores dispostos pelo modesto espaço para acesso livre à Internet. Há também uma área específica para crianças e jovens e a excelente equipe de atendentes, mais a opção para compra de livros faz com que a biblioteca seja um ponto turístico na pequena cidade de quase seis mil habitantes.

— Obrigado Kira. — Agradeço, aguardando o comentário que vem a seguir:

— Outro Wood — refere-se ela ao sobrenome e repousa o queixo em uma das mãos me olhando com atenção, mas sei que não consegue ligar uma pessoa à outra.

Não me estendo em maiores explicações, até porque já fiz isso em outras ocasiões. A primeira delas quando encomendei o primeiro exemplar do meu irmão. Na época, para evitar perguntas, optei por omitir o parentesco e apenas esclareci tratar-se de um sobrenome comum na Inglaterra.

Aceno discretamente à garota de olhos claros e faço meia volta, caminhando em direção à saída do prédio enquanto retiro o livro do pacote.

A oferta de livros da biblioteca concentra-se em títulos americanos de autores de renome. Estrangeiros ainda são em menor número e é por esse motivo que precisei encomendar o segundo volume da série de Sebastian.

Inspiro de forma profunda quando me deparo com a foto de meu irmão, reparando em como o tempo fez bem a ele. Não que Sebastian já não fosse um cara bem apessoado quando jovem. Ele sempre chamou a atenção das garotas no colégio. A bem da verdade nós três fazíamos sucesso naquela época.

A nostalgia de repente me abate. Por um instante sinto saudades daqueles tempos. Sinto falta dos meus irmãos. Sempre fomos unidos, compartilhando sonhos e segredos. Até que eu interrompi o ciclo e quebrei a confiança de todos.

— E aí capitão? Pronto para zarpar?

Jack interrompe meus pensamentos quando cruza meu caminho, fazendo um cumprimento típico de quem se depara com uma pessoa importante.

Demorei a me acostumar com os moradores me reverenciando desse jeito. Ainda me sinto apenas um pescador, agora talvez mais estabelecido e firmado à região. Claro que foi um caminho árduo em busca dessa relativa estabilidade. O primeiro emprego no Alasca, em uma processadora de peixe, fez com que eu me apaixonasse pelas docas, o que me levou a trabalhar em um barco comercial de caranguejo. Daí até tornar-me capitão do Tessa Marie exigiu tempo, dedicação e muito trabalho.

Em poucos dias eu e meus marujos voltaremos ao mar, dando início a mais uma temporada de pesca do caranguejo-real, que começou oficialmente em outubro e se estenderá até janeiro. O período pode ser considerado curto, mas faz-se necessário para sustentar e proteger a colheita anual. Uma vez que é possível ser congelado, o caranguejo pode estar disponível durante todo o ano.

Serão algumas semanas fora, isolados de tudo e de todos, enfrentando mares revoltos e baixíssimas temperaturas em busca do que se pode chamar de um tesouro.

— Sempre pronto Jack! — respondo e ele sorri entusiasmado, afinal, isso significa trabalho e lucratividade também para quem fica em terra.

Homer é a cidade mais ao sul da Península de Kenai, no Centro-Sul do Alasca, distante aproximadamente mil e seiscentos quilômetros do Mar de Bering, nosso destino.

A pequena população a torna praticamente uma vila de pescadores habitada por indígenas, russos e os novos colonizadores americanos. Dizem que a história do Alasca começou pelo litoral, quando grupos de pescadores se fartavam nas ricas águas do Golfo e aos poucos foram se espalhando de Bering até a Costa do Canadá.

No verão a população costumar duplicar em função do turismo. Porém, no inverno sempre rigoroso, com as noites mais longas e escuras, somente os moradores locais se aventuram a vagar pelas ruas, o que faz com que mais de metade das lojas e restaurantes mantenham-se fechados. É o que começa a acontecer. Estamos no início de novembro e as temperaturas negativas já se manifestam, inclusive com episódios de neve.

Chego em casa e coloco para esquentar o caldo de peixe que preparei pela manhã, antes de me servir de uma dose de vodka e acender a lareira.

Por opção, vivo sozinho. E isso já vai para mais de vinte anos, desde que saí da casa de meus pais, ainda adolescente. Foram tantas idas e vindas, me aventurando por tantos lugares, que alguns já nem me recordo mais. Muitos me trouxeram alegrias, outros, só dissabores. Mas de uma forma ou outra, todos me fizeram crescer e me conduziram até aqui, onde sinto que é o meu lugar.

Depois de muito trabalhar e poupar, consegui um canto para chamar de meu. Não fiz questão de construir uma casa grande, mas me dei ao luxo de escolher uma das melhores regiões para viver em paz. Em Kachemak Bay, estou há apenas sete quilômetros do centro de Homer e tenho vista do oceano e das geleiras, proporcionadas pelas muitas janelas dispostas de forma a deixar entrar a luz e olhar para a paisagem. O único quarto fica no piso superior e é grande o suficiente para acomodar uma cama king size e um banheiro anexo.

No térreo, cozinha e sala dividem o mesmo espaço. Gosto de assistir TV e ver o fogo crepitar na lareira enquanto preparo minhas refeições. As paredes internas são revestidas com madeira clara e contam com aquecimento central, um luxo indispensável por aqui. A decoração é simples e rústica e atende perfeitamente as necessidades de um morador solitário. Até cogitei adotar um animal para me fazer companhia logo que finalizei a construção, mas as constantes viagens, que levariam o pequeno a se sentir abandonado, me fizeram repensar.

Está aí algo que a maturidade me trouxe. A arte de pensar antes de agir. Acho que é uma das coisas que só a experiência nos proporciona. Aos poucos a vida vai nos ensinando a ser forte, a vencer desafios, a encarar os medos e as vergonhas. Acho que foi essa última que me fez fugir de casa. Eu não soube lidar com as circunstâncias que se apresentaram de forma brusca, invadindo meu peito de raiva e decepção, fazendo com que eu me sentisse extraviado, sem rumo.

Talvez eu tenha me acovardado, optando por não enfrentar a verdade, deixando meus irmãos a ver navios a respeito do meu paradeiro. Nunca expliquei os motivos. E afinal, eles nunca tiveram culpa de nada.

Não manter contato com minha família foi outra opção que fiz tão logo parti. Sei que fui intransigente nesse ponto, mas depois de um tempo torna-se difícil reconhecer o erro e voltar atrás.

Acomodo-me diante do fogo e busco o livro que descansa sobre a mesa ao lado, demorando-me a observá-lo antes de abrir na primeira página.

A foto na contracapa mostra um rosto sério e compenetrado. Sim, Sebastian sempre foi o mais responsável dentre nós três, mesmo sendo o caçula, o que nos fazia ter a certeza de que seria ele a comandar os negócios na fazenda. Já eu e Vincent apreciávamos muito mais a liberdade e não queríamos uma vida presa a um lugar apenas. De certa forma foi o que aconteceu comigo, não exatamente do jeito que imaginava, mas conquistei minha tão sonhada independência.

Vincent foi a única pessoa da família com quem conversei algumas vezes e apenas porque ele, de alguma forma, conseguiu me encontrar. Sei que também obteve a tão almejada autonomia para sua vida, ainda que de uma maneira mais ponderada que a minha. Ele deixou Londres para trás somente depois que terminou a universidade, e assim como eu, preferiu não dar notícias do seu paradeiro, o que, junto de alguns pontos que captei nas entrelinhas das poucas conversas que tivemos me leva a pensar que tenha seguido por um caminho não tão convencional. Não pude confirmar minhas suspeitas, já que como eu, ele também não quis falar a respeito da sua trajetória de vida.

De toda maneira, não posso deixar de sentir saudades de todos. São raros esses momentos, mas quando surgem procuro afastar as memórias ruins e deixar que apenas as boas lembranças me invadam. Provavelmente a causa dessa melancolia seja uma nova viagem que se aproxima e que me manterá afastado da civilização por um tempo relativo. Não nego que eu goste desse isolamento, porém, ultimamente uma sensação estranha tem me acompanhado, uma espécie de tribulação. Talvez eu realmente esteja ficando velho e precise repensar algumas questões.

Long Nights – Eddie Vedder

Have no fear
Não tenho medo

For when I’m alone
Pois quando eu estiver sozinho

I’ll be better off than I was before
Estarei melhor do que antes

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Livro três: À Espreita

Disponível no Kindle Unlimited

Prólogo / Degustação

Caçar: procurar; rastrear; apanhar; capturar; perseguir para prender ou matar;

Eu fazia muitas dessas coisas. Sozinho, com meus irmãos ou com amigos, eu gostava de me embrenhar na floresta e preparar armadilhas para esquilos, pássaros ou pequenos roedores. Éramos crianças, e na ingenuidade de uma, aquilo era pura diversão.

Na adolescência, eu soube que não era certo impor sofrimento aos animais, ainda que se praticasse muito, fosse como meio de subsistência em locais isolados, para fins esportivos, culturais ou puro prazer.

Esse último, para mim, agora advinha de caçar outra espécie de presa: garotas!

De todos os tipos, em vários lugares, com infindáveis armadilhas, eu as perseguia – no bom sentido – atraindo-as para mim e para tudo o que eu podia lhes oferecer: beijos, carícias, sexo, noites quentes. Minha recompensa? Prazer, puro e simples.

Nunca deixei essa modalidade de lado, mas com a idade adulta, precisei aprimorar meus dotes de predador e sair à caça de outro propósito: trabalho!

Porque é assim que tudo funciona na vida. Você precisa correr atrás dos seus objetivos. Estudar as melhores estratégicas, definir objetivos, traçar um rumo. Independente do alvo, você precisa praticar, levando em conta técnica e características da presa. Seja com intenção de abate ou não, é preciso perseguir aquilo que você deseja. Para alimentar seu corpo, sua alma, seu ego.

Eu fui em busca de tudo isso. Só não imaginava que o percurso me levaria até o início dessa minha brincadeira, lá quando criança. Nem que no meio do caminho eu cairia em uma das armadilhas que tanto criei na adolescência, vendo-me capturado e quase abatido.

Quase!


Capítulo 1

Vincent

Detesto ser repetitivo! Não tenho por hábito falar uma segunda vez, portanto procuro me fazer entender logo de cara. Acho que atingi meu objetivo quando noto o semblante assustado à minha frente.

Como não poderia ser diferente, o burburinho está formado, porém ninguém ousa se intrometer. Talvez seja a forma como minhas mãos agarram o colarinho da camisa do garoto. Ok, provavelmente ele não é tão jovem assim, pelo menos não para que sua entrada fosse barrada no estabelecimento. E como sua mão carregou por boa parte da noite um copo de cerveja – considerando que a casa respeite as regras de não vender bebida alcoólica a menores – imagino que ele já tem idade suficiente para discernir o certo do errado. E o que ele estava fazendo com a garota, cuja expressão confusa permanece no rosto, definitivamente não era correto.

Estou ciente de todos os olhos que pairam em cima de nós. Ou deveria dizer em cima de mim?

A parca iluminação do bar não é empecilho para que eu me situe e localize o que é necessário. Eu poderia fechar os olhos agora mesmo e descrever em detalhes o que me cerca.

O cara de jaqueta enfeitada com muitos bolsos à minha direita tem os punhos cerrados, como que pronto para o ataque, apenas aguardando minha próxima ação. Ao seu lado um sujeito mantém uma garrafa de cerveja em mãos, olhos esbugalhados em minha direção e eu arrisco dizer que há mais do que álcool nublando seu cérebro. O peito arfante da jovem um passo à frente deles revela que a adrenalina está correndo solta por suas veias, o que não a permite desviar o olhar, mesmo que sua amiga tatuada e com mais piercings que sua boca e nariz possam suportar cochiche ininterruptamente em seu ouvido.

Também sinto a presença de Henry às minhas costas, a postura deixando claro que está atento a um possível confronto que exija seu auxílio. Um exagero da parte dele, já que tenho a situação sob controle, além de que sou muito maior do que a presa sob meu domínio.

O motivo da pequena comoção? Está diretamente no meu campo de visão, na minha diagonal esquerda, quase às costas do fedelho que parece ter perdido a voz.

Percebo as emoções se sobrepondo no rosto da garota. O susto quando tirei o cara de cima dela é logo substituído pelo alívio ao se sentir livre do seu algoz e uma espécie de excitação surge ao me ver confrontando e dominando a situação. A ideia de que talvez ela me veja como um herói me vem à mente e eu contenho o sorriso.

Ergo uma das sobrancelhas para o rapaz que continua me encarando com apreensão. Ele não é de todo bobo afinal.

— Tá de boa. Tô indo nessa — ouço o ganir receoso quando ele assimila o recado que lhe dei há pouco.

— Maneiro você ter entendido o recado cara — retruco com o mesmo linguajar e solto sua camisa, meus olhos ainda pregados aos seus.

Ele mal consegue ajeitar a roupa, o olhar desconfiado avaliando a situação, procurando uma rota de fuga, como um animal diante do seu predador.

— Praticamente um cervo assustado. — Henry comenta logo atrás, assim que o rapaz some de vista e as pessoas voltam a atenção a si mesmas.

Eu concordo com um breve sorriso e minha visão periférica detecta o movimento do motivo daquela confusão vindo em nossa direção.

— Não tinha necessidade de tudo isso!

— Está falando comigo? — projeto meu corpo na direção da garota que estufa o peito e me olha com indignação.

Só agora tenho noção do quão jovem e bonita ela é. Nunca brinquei de boneca, mas não sou tão alienado que nunca tenha visto ou ouvido falar de uma. E é o que ela me parece. A própria Barbie, em carne e osso.

Os cabelos, muito loiros, descem lisos ao lado de um rosto de traços delicados. A boca grande, cujos lábios carnudos pintados de vermelho contrastam com a pele de porcelana, é um convite ao pecado. Some-se a isso uma cintura fina, que parece deixar os seios ainda mais empinados. Tantos predicados, mas é só uma garota.

— Tem mais algum brutamonte aqui além de você? — A língua afiada e desafiadora interrompe minha avaliação e me faz repensar a questão da boneca.

— Ah, então é assim que você agradece por eu tê-la livrado do assédio daquele bêbado? — falo calmo, observando seu comportamento — Se bem que você não me parece muito diferente, não é mesmo?

— Não estou bêbada — retruca ela, tentando controlar a voz.

— Se você diz. — Dou de ombros e faço menção de me virar, mas ela continua.

— Escuta aqui. Quem te deu permissão para se intrometer na minha noite?

Eu deveria ignorar o ataque, mas por algum motivo me vejo instigado a respondê-la. Volto-me para encará-la, mantendo o tom baixo e controlado.

— A sua noite incluía ser arrastada para um canto qualquer, quem sabe um beco lá fora em meio a latas de lixo, e ser abusada, estuprada ou sabe-se lá o que mais?

— Você está exagerando! — Ela revira os olhos em um claro sinal de impaciência.

— E você certamente não tem noção do perigo.

Recebo uma avaliação demorada antes que ela retruque de forma irônica.

— Hum, talvez você seja velho demais para entender como funciona um encontro hoje em dia.

— Talvez você seja criança demais para perceber o que é um homem de verdade — retruco.

— Pensando bem, você deve ter idade para ser meu pai. — Ela cruza os braços debochada e desce o olhar pelo meu corpo. Quando o sobe, ele exibe uma impressão bem diferente de suas palavras.

— Se eu fosse seu pai, certamente você estaria na cama, e não aqui.

— Talvez eu pudesse estar na cama a essa hora, mas você precisou atrapalhar.

— Ah é verdade. — Aponto um dedo para ela e sorrio — Me diga, quem ia trocar as fraldas de quem?

— Já troquei as minhas faz tempo, e por panos bem menores. — Ela insinua e preciso reconhecer que a garota é hábil. Mas ainda tem muito o que aprender.

Chego mais perto, o bastante para perceber que seus olhos tem um tom de azul parecido com os meus, porém ainda conservam a inocência que eu perdi há muito tempo.

— Uma pena que a sujeira nesses panos menores não pareça ter mudado — devolvo, não esperando que ela entenda a referência a continuar fazendo merda.

Com essa observação dou por encerrada a discussão e faço meia volta, deixando-a estática e com expressão incrédula. Henry me segue e faz o possível para segurar o riso.

É só quando já estamos do lado de fora, depois de pagar a conta, que ele finalmente comenta.

— O que foi aquilo Wood? — Eu paro de imediato ao ouvir meu sobrenome sair de sua boca e ele ergue as mãos em sinal de rendição, entendendo meu olhar — Hunter? Ou Dick Hunter? — provoca — Será que seu irmão faz ideia que deu nome a um personagem com a sua ocupação?

Henry brinca e confesso que às vezes me pergunto isso. Mas não há a menor possibilidade de que qualquer pessoa da minha família faça ideia do que me tornei. Não nego que por vezes eu sinta certa vergonha. Mas assim como ela surge, vai embora, deixando-me exatamente como sou.

Eu sempre soube o que queria para minha vida. Só não imaginava que haveria um desvio no caminho e que ele seria tão extenso e ardiloso.

— Acha que a garota estará em segurança lá dentro? — Henry questiona assim que entramos no carro.

— Não é um problema meu — digo, ainda assim dou uma última olhada para o bar em sua lotação máxima, apenas alguns dias após a chegada do Ano Novo.

— Também não era quando você puxou o carinha de cima dela. — Ele insiste e sei aonde quer chegar, mas mantenho a atenção no trânsito.

— Ele estava forçando a barra. Muita gente viu, mas ninguém parecia se importar. Eu não me perdoaria sabendo que poderia ter evitado um estupro e não o fiz por inércia ou conveniência.

— Vincent salvando uma presa indefesa. Que contradição!

Desvio o olhar da rua para encará-lo, deparando-me com seu sorriso sarcástico.

— Sei que você faria o mesmo.

— Mas não seria tão brando quanto você.

É verdade. Enquanto eu faço o tipo mais controlado, Henry é dado a explosões, o que nem sempre favorece nossa situação. Na caça, o equilíbrio das emoções é primordial para saber como e quando atacar. Perder o controle nesses momentos pode ser fatal!

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