Para Você

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Disponível no Kindle Unlimited

Prólogo / Degustação

Papai Noel não esqueceu o seu presente. É que demora preparar algo especial para uma menina linda como você.”

O pequeno pedaço de papel, amarelado e um tanto desfigurado pelo tempo, dança entre meus dedos. São poucas palavras, mas eu as tinha decorado antes mesmo de ser alfabetizada.

Tenho conhecimento de cada curva, cada detalhe que compõe as duas frases que tanto me marcaram anos atrás, ainda que eu não soubesse exatamente por qual motivo. Talvez porque vieram em um momento marcante. Ou porque junto delas, um par de olhos cor de mel me fitou de forma tão intensa e cheia de carinho. Poderia ser também porque senti que ali havia algo mais. Uma dor parecida com a minha, quem sabe? Talvez fosse uma miscelânea de motivos, sensações e sentimentos. Eu tinha apenas seis anos na época, mas meu coração parecia sentir como se eu fosse uma anciã.

Fecho os olhos, obstruindo a claridade das primeiras horas do dia que tenta se infiltrar pelas cortinas do quarto, e me aninho entre os travesseiros, apertando o bilhete contra o peito enquanto a outra mão se fecha sobre a desajeitada flor confeccionada com papel. Era o “presente” que acompanhara aquela mensagem.

Inspiro fundo e me lembro como se fosse ontem.

Éramos duas crianças, angustiadas pela presença de um Papai Noel que não veio. Eu ainda sem entender muita coisa, ele talvez um pouco mais conhecedor em seus dez anos. Mas, no fundo, aquilo não importava muito. Só o que interessava é que estar na companhia dele, naquele momento, parecia certo.

Recordo-me também de sentir a necessidade de retribuir aquele gesto, de dar a ele alguma coisa. Mas não havia espaço para que uma menina como eu reivindicasse isso. Então, num impulso, fui buscar um laço de fita vermelha de um dos pacotes jogados no chão, que embrulharam alguns doces. Era muito simples, confeccionado com aqueles fitilhos de plástico, o qual, ao se deslizar uma lâmina, forma uma espécie de caracol.

— Parece um de seus cachos!

A observação dele, vinda num timbre forte e ao mesmo tempo divertido, seguida por um afago em meus cabelos, havia conseguido arrancar um sorriso tímido de mim, o que serviu para tornar o clima um pouco mais descontraído. Um braço envolveu meus ombros, fazendo minha cabeça repousar em seu peito, deixando que a respiração lenta e profunda me embalasse, conseguindo dissipar um pouco da tristeza pelas lembranças dos momentos que eu não sabia se viveria novamente.

Não sabia explicar por que, de repente, me sentia tão tranquila e em paz. Não depois da tempestade que transformaria minha vida para sempre.

— Você ficará bem, Tonton!

Não foi preciso mais do que as três palavras, seguidas pelo meu apelido, para que eu entendesse que era uma despedida. Mais uma! Só sei que acordei no dia seguinte com o bilhete e a flor de papel presos firmemente em minhas mãos, como se dessa forma eu pudesse manter junto a mim a sensação de amparo que aquele menino desconhecido, que eu vira apenas naquela noite, havia me proporcionado.

Não era muito diferente de agora.

A noite passada, véspera de Natal, foi compartilhada com algumas companheiras do pensionato, que como eu, se sentiam meio perdidas, para não dizer, abandonadas. A troca de presentes foi bem singela, no estilo de “é só uma lembrancinha”, afinal, todas levávamos uma vida de dinheiro contado. Já a ceia foi farta. Não no sentido de luxo, mas de conseguirmos fazer as vontades de cada uma em um item.

Mas mesmo cercada de carinho, algo ainda faltava. Aquele presente que não veio enquanto eu era criança e que eu ainda tinha esperanças de ganhar no futuro.

Abro os olhos e sorrio melancólica, desdobrando o bilhete e relendo a mensagem. Pela demora, meu presente teria que ser realmente lindo e inesquecível. Como aquelas palavras!


Capítulo 1

Alguns meses depois…

Antonela

Amaldiçoo mentalmente a ideia de ter vindo trabalhar de salto, quando preciso apressar o passo pelo saguão do prédio que comporta diversas empresas e escritórios. Mas querendo aproveitar as férias da faculdade, e sendo sexta-feira, dia daquela esticadinha para um happy hour, quis dar um up no visual. E depois, como eu poderia imaginar que justo hoje perderia minha carona? Vendo-me em cima da hora, fui obrigada a recorrer a um Uber – o que significou mexer nas minhas economias – e é o que me impede de chegar atrasada, isso se eu não perder o elevador.

Maria Eduarda, minha mais nova colega de trabalho, com quem tive uma afinidade quase imediata quando iniciei na agência há pouco menos de um mês, faz sinal para que eu acelere, segurando a porta do elevador enquanto dirige um sorriso mais do que espontâneo ao rapaz ao seu lado.

— Valeu — arfo ao entrar, espremendo-me entre a pequena multidão.

— Estamos aqui pra isso. — Ela pisca para mim, bem-humorada como sempre, enquanto esboço meu melhor sorriso às pessoas que me olham como se eu estivesse tirando-lhes um dia de vida com meu pequeno atraso.

Viro-me, ficando de frente para as portas de aço que começam a se fechar, encarcerando-me naquele cubículo metálico, não sem que antes eu perceba um par de olhos escuros me fitando.

Sou tomada por uma sensação inquietante, que faz com que meu sorriso se desfaça aos poucos, no mesmo ritmo em que as portas se unem.

Sinto um cutucão na cintura, causado pelo cotovelo da minha amiga, tendo certeza de que ela também reparou no protótipo de beleza rara que ficou lá no primeiro piso.

— Quase perguntei: “sobe”?

Mesmo tendo cochichado, o riso da garota ao lado deixa claro que mais gente ali dentro ouviu a observação cheia de malícia e duplo sentido de Duda. Tento fazer cara feia para o fato de ela emitir aquele comentário ali, mas preciso morder a ponta da língua para não rir da cara de paisagem que ela demonstra.

— Ele poderia subir e você descer. — Não contenho o pensamento pervertido e sussurro assim que saltamos em nosso andar.

— Que desavergonhada! — Duda brinca, arregalando os olhos e segurando o riso, antes de registrar sua entrada. Faço o mesmo, faltando um minuto para o início do expediente. Ufa! Não seria nada legal finalizar o primeiro mês de casa com um atraso, mesmo que tão pequeno.

É comum ter a ideia de que, por se tratar de uma agência de publicidade, a coisa siga um ritmo mais despojado, informal, sem regras explícitas. Tipo aquela coisa de se jogar num pufe e deixar a inspiração bater para criar algo extraordinário. Ok, talvez existam agências assim, tão modernas e desconectadas. Ou talvez existam setores assim, dentro de algumas agências. Não é o caso da Pixels Design.

Temos os momentos de descontração durante o expediente, em que um bate-papo rende grandes ideias. Porém, isso não nos isenta de cumprir a jornada diária de trabalho, que inicia às oito da manhã e se encerra às seis da tarde.

Ainda estou me adaptando ao ritmo da empresa. O pessoal é bem acessível, disposto a ensinar e dar espaço aos estagiários, como eu e César, outro rapaz que iniciou pouco tempo antes de mim. Sinto que ele também está empolgado com a oportunidade. Em tempos de crise, as duas vagas foram bem disputadas, e por sorte ou competência, uma delas ficou comigo.

A remuneração inicial não é exatamente uma maravilha, mas os benefícios e a possibilidade de efetivação em uma das maiores agências de publicidade de São Paulo compensam a ginástica que preciso fazer para equilibrar meu parco orçamento financeiro, que consiste em aluguel, alimentação, a renovação de alguma peça do guarda-roupa – em casos extremos – e um refrigerante com os amigos, vez ou outra.

A mensalidade do pensionato é bem acessível e oferece um conforto razoável. O que eu e as demais jovens pagamos mensalmente cobre o “aluguel” e despesas de água, luz e internet, bem como limpeza da área comum. Também nos é permitido usufruir as demais instalações: uma modesta sala de TV, cozinha equipada com eletrodomésticos e utensílios modernos, bem como uma lavanderia, que nos proporciona a comodidade de máquina de lavar e secar, onde somos responsáveis cada uma por suas roupas.

Quem coordena a casa de quatro quartos, sendo três a acomodar as nove universitárias, todas entre dezoito e vinte e cinco anos, é Marilda, uma jovem senhora, rígida com as regras, mas com um coração gigante. Ela é aquela mãezona de quem todas nós sentimos falta.

Depois de iniciar o expediente respondendo a e-mails e checando a programação do dia, me junto aos demais funcionários na sala de reuniões. E sim, preciso dizer que temos aqui alguns pufes e almofadões, e é onde o pessoal se acomoda. Eu ainda não me sinto à vontade para isso, então, sento de forma ereta numa pequena poltrona.

A reunião de hoje, com o pessoal de pesquisa, criação e mídia, é a segunda da qual vou participar. Foi pré-agendada e quem vai comandá-la é o dono da agência, o que denota a seriedade do projeto.

Lucian entra por último e fecha a porta, ainda conferindo algo no celular. Duda me disse que ele tem mais de quarenta anos, apesar de aparentar menos. Talvez seja o corpo magro, aliado ao jeito despojado de se vestir que passe essa impressão. Ou a forma sempre brincalhona de se dirigir a todos. É um homem bonito, assim como a esposa, que tive a oportunidade de ver em alguns porta-retratos em sua sala, quando lá estive no meu primeiro dia de estágio.

— Bom dia, pessoal! — Ele guarda o celular, e senta-se sobre uma caixa de madeira, que acondiciona alguns objetos que servem de distração ou, como todos ali gostam de falar, de fonte de inspiração: bolas de borracha, saquinhos de areia, pequenos elásticos. Enfim, coisas que podem ser apalpadas, apertadas, esmagadas, enquanto a mente trabalha. — Vou usar o slogan “sextou” pra jogar o próximo projeto nas mãos de vocês. Campanha de Natal pra conta da rede de Shopping Centers que administramos.

— Fácil! — Evandro dispara com um risinho vitorioso.

— Se pensarmos como todos os anos, quem sabe. — Lucian concorda, passeando o olhar pela sala. — Mas vou desafiá-los a inserir algo diferente. Um apelo mais dramático, talvez?

— Natal já é dramático por si só — murmura Ivana, brincando com duas bolinhas de pingue-pongue, e não discordo totalmente dela.

— Natal… Que lembra presente… Que te coloca em dúvida. O que dar para aquela tia chata? E para a namorada exigente? Ou para a mãe que não larga do seu pé? Sem contar o amigo secreto, que normalmente é uma bomba. Quer mais drama?

Enquanto o pessoal vai jogando ideias ao léu, eu e Duda observamos em silêncio. Confesso que não gosto de nada do que ouço. Pelo menos nada que pareça diferente do que temos todos os anos. Sem contar que eu não me importaria nem um pouco em ter todas aquelas dúvidas em relação a presentear pessoas ao meu redor.

— Bem, por isso joguei o tópico hoje. Vocês terão o fim de semana todo pra pensar. Segunda-feira quero pelo menos uma ideia de cada um.

— Que delícia levar trabalho pra casa — Duda cochicha ao meu lado.

— Fim de semana a gente está mais tranquila, descontraída. É aí que surgem as grandes ideias — sussurro, reparando ao redor que alguns comentam o assunto, enquanto outros partem para conversas alheias.

— É, mas eu meio que ficarei pensando nisso agora. Portanto, não estarei tão tranquila.

Lucian salta da caixa de madeira, mas antes de deixar a sala, volta-se para nós.

— Ah, antes que eu me esqueça. Segunda também começa uma ação aqui no condomínio. Haverá uma caixa no saguão, onde será possível depositar bilhetes que contenham algum tipo de mensagem. A intenção é fazer com que as várias pessoas, dos coworkings e das empresas aqui sediadas, estreitem os laços, se conheçam.

— Troca de bilhetinho? — César, o outro estagiário, pergunta. — Ah, tô fora.

— Podiam sugerir a troca de números de celular. Muito mais prático mandar mensagem assim, não acha? — Ivana faz pouco caso.

— Bem, as regras estarão afixadas junto da caixa. O que sei é que ninguém é obrigado a participar, porém, quem o fizer, deverá seguir o estipulado.

— Vão fiscalizar?

— Não sei, Evandro. Mas certamente na segunda teremos mais detalhes. É isso aí, pessoal.

Lucian deixa a sala e eu me levanto, na intenção de fazer o mesmo. É quando percebo Bruno me examinando. Quando nossos olhares se cruzam, ele não desvia, apenas sorri e meneia a cabeça sutilmente. Não o conheço o suficiente para afirmar que tipo de análise é aquela que ele parece fazer de mim, mas sou simpática e retribuo o sorriso antes de voltar à minha mesa.

Bruno é da área de pesquisa, o departamento que começa o roteiro de uma campanha, fornecendo todas as informações que o planejamento precisa para traçar o seu plano. Ainda não tive muito contato com ele, mas sei que é o preferido da mulherada aqui dentro. Aliás, fico imaginando se beleza é um dos pré-requisitos para se tornar funcionário da Pixels. Ô lugar para ter gente bonita!

Talvez eu possa perguntar mais sobre o queridinho das mulheres à minha amiga, mas minha mente desvia desse ponto para focar na novidade da caixa de bilhetes. De repente, sinto-me transportar para treze anos atrás, todas as sensações daquela noite me tomando num rompante.


— Eu o peguei me encarando ao final da reunião — explico meu questionamento a respeito de Bruno à Duda, enquanto almoçamos.

— Sério? Putz, eu perdi isso?

— Ele já se envolveu com alguém da agência? — Vou em frente, curiosa.

— Com exceção da minha pessoa, todas já tiraram uma “casquinha”.

— Hum, você é imune ao charme dele? — pergunto diante da observação.

— Muito sério para o meu gosto. Sei lá…

— Mas ele não perde tempo hein?

— O cara sabe que é um gato, né? — ela afirma o óbvio.

— Bom, quanto a isso, eu diria que tem pra escolher ali dentro.

— Não é? Se bem que eu ficaria com o Lucian. — Duda solta um breve suspiro.

— Ele é casado!

— Eu sei! — Arregala levemente os olhos. — Mas isso não impede de eu admirá-lo. Lindo, competente, gentil, experiente.

— Ih, só não se apaixona, hein?

— E eu lá sou doida? Para o Lucian só existe a mulher dele. Às vezes ela aparece lá na agência. Acho tão lindo os dois juntos. Sabe coisa de romance? Eles são assim. — Ela solta mais um suspiro e dá um último gole no suco.


Quando Ivana faz menção de ir embora, eu não penso duas vezes. As meninas são legais e César, o único dos caras que topou o happy hour, até que tem um papo divertido, mas entre ficar ali, tendo que enfrentar o metrô mais tarde, e aceitar a carona de minha colega, escolho a segunda opção.

Chego em casa em menos de uma hora e encontro Alícia e Beth na cozinha, acompanhadas de Marilda ao redor da mesa.

— Olá! — cumprimento de longe, largando a bolsa e indo lavar as mãos.

— Você não ia beber com seus amigos? — Alícia grita, e eu confiro as horas. Oito e meia! Claro que ela imaginava que eu chegaria muito mais tarde.

— Se ela já está em casa é porque o papo não estava bom — Marilda comenta, esticando o rosto quando me aproximo para lhe dar um beijo.

— Acertou!

— Ou não tinha nada do gosto pra ela apreciar — Beth observa e faço uma careta para ela.

— Pegue um prato e junte-se a nós — Marilda murmura, indicando a comida disposta à mesa. Eu hesito, porém, o olhar que ela me lança diz que não devo questionar ou recusar.

— E você, o que faz em casa em plena sexta à noite? — Cutuco Beth antes de fazer o que Marilda instruiu e me sento com elas.

— Calma, é cedo ainda. A coisa só esquenta a partir das onze.

Ela fala como se fosse uma boêmia, mas no fundo adora ficar em casa ou fazer programas mais calmos. Beth é três anos mais velha que eu e uma das minhas colegas de quarto, e pelos seus relatos, sempre foi ligada em videogames. Eu nunca curti muito, até porque não tive muito contato. Já ela teve mais acesso e sempre se deu bem na brincadeira. Daí para outros aparatos nessa área foi um pulo. Apenas mais um ano e estará formada em Ciência da Computação.

Observo-as tagarelar enquanto degusto da macarronada preparada por Marilda. Gosto quando temos a oportunidade de fazer uma refeição juntas, colocando a conversa em dia. O que é raro, considerando os horários desencontrados de todas.

Entre um assunto e outro, comento o desafio que nos foi proposto hoje, a respeito da campanha de Natal, o qual permeia boa parte da nossa refeição.

— Meu Deus, daqui a pouco é Natal outra vez. — Marilda suspira.

— Faltam cinco meses ainda — lembro-a um tanto melancólica. — É que esse tipo de coisa tem que ser pensado com antecedência.

— Que seja. Já passamos do meio do ano.

— Ah, e segunda começa uma ação diferente lá no condomínio — continuo, explicando o pouco que Lucian nos informou.

— Bilhetinho? — Beth me olha com uma espécie de repulsa. — Em que época esse povo vive?

— Não é na era digital — Alícia emenda. — Estão voltando no tempo?

— Pois eu acho uma ideia excelente — Marilda dispara. — Quem sabe isso faça com que voltem a escrever de forma correta, sem essa mania de abreviar tudo. Essa linguagem de WhatsApp só serve para que as crianças tenham ainda mais dificuldade em se expressar de forma correta quando se trata da escrita.

Dou risada, vendo cada uma defendendo seu ponto. Beth e Alícia achando um absurdo a comunicação fora da esfera tecnológica. Já nossa “mãezona”, como uma profissional aposentada da educação, certamente vendo muitos pontos positivos naquela proposta.

— Na verdade ainda não sabemos como a coisa vai funcionar. O dono da agência apenas antecipou a ideia. Nem sei se os bilhetes serão escritos à mão ou poderão ser digitados.

— Meu Deus! À mão? Daqui a pouco vão sugerir que pintem desenhos nas cavernas — Beth brinca de forma exagerada.

— Mas qual a intenção disso? — Alícia prossegue.

— Sei lá. — Dou de ombros. — Interação. Oportunidade de se conhecer. Por se tratar de um condomínio que agrega coworking, muitas pessoas passam por ali diariamente e nem se dão conta dos demais.

— Engraçado, isso é uma ideia antiga — Marilda murmura com um olhar nostálgico. — Um pouco adaptada, talvez. Lembro que, na minha época de estudante, tínhamos uma caixa assim na sala de aula. Claro que já nos conhecíamos, então, a intenção era deixar algumas palavras de amizade e incentivo ao colega. Lembro também que aguardávamos ansiosos quando a professora abria a caixa e distribuía as mensagens. Era tão gostoso ler palavras carinhosas!

— Sério que não tinha xingamento, zoação, esse tipo de coisa? — Beth parece inconformada com a ideia.

— Sempre tinha um ou outro. — Marilda a olha com atenção. — Mas eram coisas leves, não essas ofensas a que estamos acostumados nessa “era digital”.

As três continuam debatendo suas opiniões, sem se darem conta de que aquilo vai me dando ferramentas. A princípio eu afasto a ideia, imaginando que irão rir da minha cara se sugerir aquilo. Mas ela insiste em se firmar na minha mente. E talvez seja isso! Afinal, Lucian queria algo diferente.

Mais tarde, já no conforto da minha cama, estico o braço até o criado-mudo, remexendo a pequena caixa no fundo da gaveta, buscando algo que não saiu da minha cabeça desde a notícia dada na reunião.

A escuridão do quarto não me permite ler o que está no papel, apesar de não ser necessário, pois sei exatamente o que e de que forma está ali. Mesmo assim, desbloqueio a tela do celular, tendo iluminação suficiente para admirar mais uma vez aquelas palavras.

Sorrio pela coincidência de ideias e penso que se para mim significou tanto receber um bilhete como aquele, em uma noite que deveria ser especial mas que, por tantos motivos, foi angustiante, talvez essa proposta possa transportar sentimentos a outras pessoas, que como eu, precisam de palavras de conforto.

Sem querer correr o risco de pegar no sono com o bilhete ainda em mãos e eventualmente estragá-lo, guardo-o novamente, deixando que as lembranças se apossem de mim enquanto caminho para um sono recheado de sonhos com olhos cor de mel, Papai Noel e flores de papel.

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